
Leonardo Dahi
Vamos aos fatos: a Câmara de São Paulo aprovou um projeto de lei que proibia bailes funk em vias públicas (onde, até onde eu sei, são realizados 99% desses bailes). O Prefeito Fernando Haddad (PT) vetou o projeto alegando que “O funk é uma expressão legítima da cultura urbana jovem, não se conformando com o interesse público sua proibição de maneira indiscriminada nos logradouros públicos e espaços abertos”.
Parte da opinião pública criticou duramente o Prefeito usando “argumentos” como o de que isso é “populismo” e forma de “comprar voto dos funkeiros”.
Agora vamos analisar a situação passo a passo. O projeto é absurdo. Não sei se é ilegal, creio que não, já que se trata de vias públicas, mas é, ainda que extra-oficialmente, censura. Tentar impedir qualquer manifestação cultural tem esse nome. O funk, como disse o Prefeito Haddad, é uma manifestação cultural. Se é boa ou é ruim, não sou eu, nem você, nem os vereadores, nem o Haddad quem tem que dizer. O que eu, você, os vereadores ou Haddad gostamos em termos de música não importa.
Se existem uma, duas, dez ou cinco mil pessoas que gostam de funk e querem ir ao baile, que se permita o baile, ué. “Ah, mas faz barulho”. Admita: seu problema não é com o barulho, mas com o que ele diz. Isso não é exatamente ruim, já que o direito que o cara tem de ouvir funk é o mesmo que você tem de não gostar. Mas daí a querer que ele ouça em casa, vai uma grande diferença.
Vamos a um exemplo prático: eu não gosto de funk. Não por causa das letras, nem do estilo de seus cantores, nem pela melodia, nem nada disso que a gente não precisa explicar quando diz não gostar de qualquer outro gênero. Só não gosto. Se eu estiver em um local e do lado houver um baile funk, eu possivelmente ficarei irritado. Só que isso não me dá o direito de proibir que o baile aconteça. Mesmo porque seria uma hipocrisia imensa da minha parte.
Eu gosto de samba, de Carnaval. Aqui em São Paulo, uma das maiores tradições em matéria de samba-enredo (e isso se estende por outros lugares daqui e do Rio) são os ensaios da Vai-Vai pelas ruas do Bixiga. Ora, como eu posso querer proibir o funk se o gênero que eu gosto faz o mesmo barulho? E admita, você também não ligaria se houvesse um show do seu artista preferido na porta da sua casa. Aliás, duvido que, fosse outro gênero, alguém sequer levasse uma Lei dessas para a câmara.
O funk vive, hoje, um preconceito que o próprio samba viveu no Século XX. É um assunto a ser explorado em outro texto, mas creio que a vontade de gritar que fulano tem moto x, carro y e “n” mulheres irrite um pouco quem não tem nem a moto, nem o carro e muito menos a mulher. É um preconceito diferente do que o samba viveu (ali havia uma ligação forte com o racismo, já que a escravidão ainda era coisa recente), mas preconceito.
Quando Fernando Haddad vetou o projeto de lei que proibia os bailes, ele não fez nada que mereça uma salva de palmas. Fez o que qualquer político, em 2014, deve fazer. Isso não é populismo: é liberdade de expressão.
Agora vamos à parte final. O barulho feito por essa tal “opinião pública” me deixa um pouco assustado. Não deveria, já que temos demonstrações dessas dia sim, dia também, mas ainda me deixa. É complicado pensar que estamos em 2014 e algumas pessoas ainda relacionam o gosto musical ao caráter de alguém.
Sim, o funk é patrocinado por muitos bandidos, traficantes e etc. Acredito que até alguns cantores tenham caráter duvidoso. Mas isso não significa que o cara que ouve funk vá roubar sua carteira. Novamente recorro ao samba: o Carnaval foi e ainda é patrocinado por bicheiros, traficantes, mas tem, por trás de cada um deles, milhares de pessoas que suam sangue por sua comunidade. Pessoas honestas, trabalhadoras, de bem.
É completamente absurdo ligar uma coisa com outra. O fã de Justin Bieber é acusado de pichar muros, arrebentar hotéis e transgredir regras? O fã de João Gilberto é tido como alguém que não cumpre horários? O torcedor do Botafogo é acusado de bolar golpes do tipo pirâmide de Ponzi? E os jovens ricos que financiam o tráfico de drogas de maneira muito mais séria que através de um baile funk? Sim, subir o morro pra comprar maconha ainda é mais grave do que ouvir funk.
Que fique claro que nesse jogo de opressor e oprimido, o segundo só não toma a mesma postura preconceituosa por falta de oportunidade. Experimenta trocar o baile funk por uma ópera em um sábado qualquer pra você ver. A filosofia do “minha vontade é o que vale” impera por aqui em todas as classes. Aliás, é a coisa mais democrática e que une ricos e pobres que temos no Brasil desde que o ingresso no Maracanã ficou mais caro.
O Brasil sempre se orgulhou de ser terra de todos, um mosaico de diferentes culturas, etnias e gostos. Mas, a cada dia que passa, fica mais evidente que todos são iguais, mas, em geral, todos nós queremos ser mais iguais que os outros.