Leonardo Dahi

O Brasil é o país em que nem o controverso é tão difícil de explicar quanto o óbvio. Nesses temos bicudos de manifestações e protestos por todo o país, o povo, cansado, escolheu um alvo para despejar sua raiva: a Copa do Mundo de 2014. Bradam contra os gastos absurdos lembrando dos problemas do país e caracterizam como “um absurdo” o país sediar um evento desses com as condições atuais, em especial com as dispensáveis exigências da FIFA.
É óbvio que escolher o Mundial de 2014 como alvo principal dos protestos é um erro enorme. Mas, como dito no começo, aqui, é mais difícil explicar o óbvio que o controverso.
A Copa não se faz com 12 estádios. Se faz com obras de infraestrutura, mobilidade urbana, maior estrutura hoteleira, de aeroportos, etc. Ou seja: após os 30 dias do torneio, o brasileiro, mesmo aquele que “não gosta de futebol e não quer a Copa”, pelo menos a princípio, teria sua vida melhorada por todas essas obras.
“Ah, mas quase nada foi feito, tudo ficou no papel”.
Concordo.
Agora me diga: que culpa a Copa do Mundo e a FIFA tem nisso? Se as obras não foram feitas, não foram feitas por culpa do poder público, não da Copa ou da FIFA. Aliás, quando você critica a FIFA por isso, os políticos, verdadeiros responsáveis, adoram. Isso sem falar nos turistas que virão para cá e que, maravilhados com nossas belezas naturais, voltarão e trarão mais gente depois da Copa.
“Tá bom. Mas as obras superfaturadas nos estádios, sendo que alguns nem serão usados depois do Mundial? Isso não vai melhorar a minha vida em nada”. Bom, não vai melhorar se você nunca foi a um estádio de futebol na vida. Ainda assim, é bom lembrar que se o Governo vai fazer um hospital e avalia a obra em R$ 1 milhão, mas acaba gastando cinco, também está errado. Superfaturamento nunca pode ser relevado por causa da importância da obra. Então, se houve superfaturamento no estádio, não é culpa da Copa, assim como, no caso do hospital, não seria culpa da enfermeira.
“Tá, e os estádios precisavam ter tantas frescuras? Com um assento do Maracanã, dava para fazer não sei quantos leitos de hospital!”.
Rá!
Amigos, quando o Ronaldo disse que “não se faz Copa do Mundo com hospitais”, ele estava certo (antes de me xingar, procura a entrevista – de 2011!!! – e veja o contexto em que ele disse isso). E sabe por que você não deve ficar irritado com isso? Porque você viu Copa do Mundo a vida inteira e sempre soube que os estádios, pelo menos desde 2002, precisam ter essas tais “frescuras”. “Ah, mas eu não queria a Copa aqui no Brasil”. Então deixa eu refrescar sua memória. O Brasil foi eleito como sede do Mundial em 2007, seis anos atrás. Sabe quantos países estavam na disputa? UM. Só o Brasil.
Logo, não havia dúvidas de que receberíamos um evento desse porte em 2014. Agora façamos uma soma: você sabe como funciona esse negócio de sediar Copa, sabe que é caro, sabe que o Brasil, país em que tudo termina em superfaturamento, vai ser a sede, não quer a Copa aqui. ENTÃO POR QUE DIABOS NÃO FOI PROTESTAR ANTES DO ANÚNCIO OFICIAL E NEM EM DIA ALGUM DESTES SEIS ANOS? Eu respondo. Porque você não era contra a Copa. Aliás, continua não sendo. Mas na falta de argumentos para protestar “contra tudo”, achou que esse seria um bom alvo.
E como já ouço muita gente bradando impropérios contra a FIFA, gostaria de lembrar que ela é uma entidade privada que não pediu para fazer Copa aqui. Como entidade privada, faz as exigências que quiser, cabendo ao Governo Brasileiro aceitar, ou não.
E eu nem vou comentar os pedidos absurdos de que a Copa não seja mais aqui porque isso é o cúmulo da burrice. Após todo o ônus que a Copa trouxe, abrir mão do bônus é imbecilidade, desculpa.

Sem contar que o brasileiro tem uma mania engraçada de não olhar pro próprio umbigo quando vai reclamar de alguma coisa.
Quem me conhece sabe que eu gosto muito de Carnaval e, por isso, tento ter algum contato com Presidentes de escolas de samba e Carnavalescos nas redes sociais. E, olha, o que eu vi de Presidente reclamando dos gastos com a Copa, não foi brincadeira. MAS OPA PERAÍ UM POUQUINHO: e a verba que você recebe do Governo todo ano para botar o seu Carnaval na Avenida? Multiplica por 12 escolas no Grupo Especial, 17 no Acesso e quase 50 nos grupos inferiores, isso só no Rio de Janeiro. Não dá para fazer hospital com essa grana?
E o jovem do interior, que, inflamado faz discursos e mais discursos contra a Copa, mas é o primeiro a chegar quando algum cantor famoso vem fazer um show gratuito – e, logo, bancado pela Prefeitura – na cidade?
Então, amigos, se é para deixar de injetar dinheiro “onde não há necessidade”, que seja em todo lugar onde “não há necessidade” (lembrando sempre que o que não é necessário para você, pode ser importante para mim, e vice-versa), independente dos valores. No mais, torçamos e aproveitemos este momento único que acontece em nosso país. Copa das Confederações, do Mundo, Olimpíadas, isso tudo é muito legal e se torna um momento único quando acontece aqui do nosso lado. E, quem quiser ir as ruas, que vá protestar contra quem realmente merece.