A guinada de Ciro

Para ser um candidato viável eleitoralmente e superar a atual polarização, Ciro sabe que precisa pegar uma fatia do eleitor conservador

Os filmetes publicados pela equipe do Ciro Gomes tem a digital de João Santana. O mais recente publicado na manhã desta segunda-feira foi sintomático da guinada que Ciro está em execução. A peça mostra a Constituição e a Bíblia como dois pilares da sociedade, e não antagônicos.

Como um gênio do marketing político e eleitoral, Santana sabe o único caminho que leva Ciro para o Planalto. O eleitor lulista não vai mudar o voto, o eleitor bolsonarista também não. Mas o eleitor que votou em Bolsonaro e se sente frustrado com o presidente é esse eleitorado que João Santana está mirando e colocando Ciro para dialogar com ele.

Para ser um candidato viável eleitoralmente e superar a atual polarização, Ciro sabe que precisa pegar uma fatia do eleitor conservador. Em 2018 aconteceu um “fenômeno” de eleitores que votariam em Lula votaram em Bolsonaro. Santana que fazer o mesmo, só que uma transfusão de votos do Bolsonaro para Ciro.

João Santana sabe e, por óbvio, dito a Ciro não ficar preso ao eleitorado ideológico. Para ser viável como terceira via Ciro precisa dialogar com setores tradicionalmente à direita. E o eleitor ligado a uma religião é cada vez mais decisivo em uma eleição.

A peça publicitária divulgada hoje foi feita para esse eleitor à direita. Essa guinada pode fazer Ciro se afastar do eleitor de esquerda que vota nele. A questão é quanto Ciro estaria disposto a arriscar a perder para tentar ganhar na outra ponta.

Até o momento é Ciro Gomes quem mais se viabilizou para ocupar o posto de terceira via sem ser uma abstração. É preciso perguntar ao pré-candidato até que limite está disposto a ir. Será acusado de se prostituir eleitoralmente, mas se quiser ganhar depois de três tentativas, terá um preço e é trocar um pouco de eleitor – para quem trocou de partido várias vezes não deve ser difícil.

Polarização e caminho para terceira via

A eleição de 2022 caminha para ser um repeteco de 2018. A polarização Bolsonaro contra PT, agora com Lula e não um preposto do ex-presidente. Na última pesquisa Datafolha, Lula liderava com 18 pontos de vantagem e no duelo direto contra Bolsonaro venceria por 55% a 32%. Descontando nulos/brancos e indecisos, Lula atinge 47%. Faltaria muito pouco para vencer já no primeiro turno. O atual presidente ficaria com 26% dos votos válidos.

No segundo turno, só os votos válidos, Lula venceria Bolsonaro por 63% a 37%.

Em resumo, os postulantes a terceira via [Moro (7%), Ciro (6%), Huck (4%), Doria (3%), Mandetta e Amoêdo (2%)] precisam torcer para o derretimento de Jair Bolsonaro continuar para sonhar com o segundo turno. Mas precisam também receberem os votos de Bolsonaro, porque se forem para Lula o petista liquidaria a disputa sem necessidade de uma segunda votação.

O candidato a terceira via tem que vestir o figurino de anti “BolsoLula”. Ciro Gomes sabe disso e bate tanto no atual presidente quanto no ex-aliado. Por enquanto, Ciro não entusiasmou os anti “bolsopetistas”. Contratou o “mago” das campanhas políticas João Santana. Veremos se as “mágicas” de Santana ainda fucionam.

Análise do encontro entre FHC e Lula

Encontro entre ex-rivais foi mais pessoal do que partidário

Os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva fizeram uma reaproximação histórica. Ambos se encontraram em um almoço patrocinado pelo ex-ministro Nelson Jobim.

FHC saiu do encontro declarando voto em Lula contra Bolsonaro. A fala gerou reação no tucanato que fez FHC reforçar de que apoiará o candidato do PSDB, mas caso não chegue no segundo turno, não vota no atual mandante.

A aproximação de dois ex-rivais eleitorais dos partidos que governaram, juntos, o país por duas décadas deveria sinalizar que é possível uma aliança para uma frente ampla.

Mas a reação, principalmente tucana, ao encontro inviabiliza uma aliança PSDB-PT no primeiro turno e difícil até no segundo turno. Lembrando que no segundo turno em 2018 o PSDB não declarou apoio a nenhum dos candidatos e muitos tucanos individualmente declararam voto a Bolsonaro.

Portanto, o gesto de FHC e Lula foi mais simbólico e pessoal do que um começo de uma união eleitoral entre os partidos. E favoreceu mais ao petista do que aos tucanos, pois mostrou um Lula aberto ao diálogo e democrata.

XP/Ipespe: sem frente ampla, caminho livre para Bolsonaro e Lula

O caminho para uma frente ampla requer muito diálogo, concessões e disposição para uma candidatura única

Lula ultrapassa Bolsonaro em pesquisa XP/Ipespe de olho no cenário eleitoral de 2022.

O ex-presidente aparece com 29%, contra 28% do atual presidente. Em segundo turno entre eles, Lula venceria por 42% a 38%.

Se somarmos as intenções de voto de Moro (9%), Ciro (9%), Huck (5%), Doria (3%) e Mandetta (3%), que assinaram (exceção de Sergio Moro por impiditivo contratual) um manifesto pela democracia semana passada, dá 29%.

Ou seja: há votos para uma terceira via, só que o caminho para uma frente ampla requer muito diálogo, concessões e disposição para uma candidatura única capaz de rivalizar com os pólos polarizantes.

Uma união difícil de ocorrer. Sem ela, porém, facilitaria para Jair Bolsonaro e Lula consolidarem suas passagens ao segundo turno.

A escolha de Huck

No programa Pânico, Emílio Surita deu uma informação que mexe com corrida presidencial de 2022.

Dizendo ter uma informação de dentro da TV Globo o apresentador da Jovem Pan disse que Luciano Huck vai para o domingo da grade da emissora em substituição a Fausto Silva, que não vai renovar seu contrato no final de 2021 encerrando mais de 30 anos de seu programa dominical, e Marcos Mion entra no lugar de Huck aos sábados. Mion deixou a Record recentemente.

Huck flerta com a possiblidade de ser candidato a presidente desde a eleição de 2018 e, segundo notícias divulgadas na imprensa, a Globo deu março – próximo mês – como data limite para o apresentador decidir se entra na política e deixa a emissora.

Pesquisa de dezembro de 2020 mostrava Huck com com 9%, empatado tecnicamente com Ciro e Haddad e numericamente à frente de Moro. Na mesma pesquisa Huck era o que perdia com a menor diferença contra Jair Bolsonaro no segundo turno.

A revista Veja deu em janeiro a informação que Huck definiu o seguinte roteiro: encerrar o contrato com a Globo no meio do ano, se filiar ao Democratas, e buscar um vice. Eduardo Leite (PSDB), governador do Rio Grande do Sul seria o favorito dele. O partido Cidadania é outra opção de legenda. Comenta-se de uma fusão entre Rede, PV e Cidadania para receber a candidatura de Luciano.

Seja qual o caminho do apresentador e empresário vai seguir, ele está atrelado a eleição presidencial.