Análise do encontro entre FHC e Lula

Encontro entre ex-rivais foi mais pessoal do que partidário

Os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva fizeram uma reaproximação histórica. Ambos se encontraram em um almoço patrocinado pelo ex-ministro Nelson Jobim.

FHC saiu do encontro declarando voto em Lula contra Bolsonaro. A fala gerou reação no tucanato que fez FHC reforçar de que apoiará o candidato do PSDB, mas caso não chegue no segundo turno, não vota no atual mandante.

A aproximação de dois ex-rivais eleitorais dos partidos que governaram, juntos, o país por duas décadas deveria sinalizar que é possível uma aliança para uma frente ampla.

Mas a reação, principalmente tucana, ao encontro inviabiliza uma aliança PSDB-PT no primeiro turno e difícil até no segundo turno. Lembrando que no segundo turno em 2018 o PSDB não declarou apoio a nenhum dos candidatos e muitos tucanos individualmente declararam voto a Bolsonaro.

Portanto, o gesto de FHC e Lula foi mais simbólico e pessoal do que um começo de uma união eleitoral entre os partidos. E favoreceu mais ao petista do que aos tucanos, pois mostrou um Lula aberto ao diálogo e democrata.

XP/Ipespe: sem frente ampla, caminho livre para Bolsonaro e Lula

O caminho para uma frente ampla requer muito diálogo, concessões e disposição para uma candidatura única

Lula ultrapassa Bolsonaro em pesquisa XP/Ipespe de olho no cenário eleitoral de 2022.

O ex-presidente aparece com 29%, contra 28% do atual presidente. Em segundo turno entre eles, Lula venceria por 42% a 38%.

Se somarmos as intenções de voto de Moro (9%), Ciro (9%), Huck (5%), Doria (3%) e Mandetta (3%), que assinaram (exceção de Sergio Moro por impiditivo contratual) um manifesto pela democracia semana passada, dá 29%.

Ou seja: há votos para uma terceira via, só que o caminho para uma frente ampla requer muito diálogo, concessões e disposição para uma candidatura única capaz de rivalizar com os pólos polarizantes.

Uma união difícil de ocorrer. Sem ela, porém, facilitaria para Jair Bolsonaro e Lula consolidarem suas passagens ao segundo turno.

A escolha de Huck

No programa Pânico, Emílio Surita deu uma informação que mexe com corrida presidencial de 2022.

Dizendo ter uma informação de dentro da TV Globo o apresentador da Jovem Pan disse que Luciano Huck vai para o domingo da grade da emissora em substituição a Fausto Silva, que não vai renovar seu contrato no final de 2021 encerrando mais de 30 anos de seu programa dominical, e Marcos Mion entra no lugar de Huck aos sábados. Mion deixou a Record recentemente.

Huck flerta com a possiblidade de ser candidato a presidente desde a eleição de 2018 e, segundo notícias divulgadas na imprensa, a Globo deu março – próximo mês – como data limite para o apresentador decidir se entra na política e deixa a emissora.

Pesquisa de dezembro de 2020 mostrava Huck com com 9%, empatado tecnicamente com Ciro e Haddad e numericamente à frente de Moro. Na mesma pesquisa Huck era o que perdia com a menor diferença contra Jair Bolsonaro no segundo turno.

A revista Veja deu em janeiro a informação que Huck definiu o seguinte roteiro: encerrar o contrato com a Globo no meio do ano, se filiar ao Democratas, e buscar um vice. Eduardo Leite (PSDB), governador do Rio Grande do Sul seria o favorito dele. O partido Cidadania é outra opção de legenda. Comenta-se de uma fusão entre Rede, PV e Cidadania para receber a candidatura de Luciano.

Seja qual o caminho do apresentador e empresário vai seguir, ele está atrelado a eleição presidencial.

Bolsonaro líder; Haddad e Ciro disputando o segundo lugar; Huck crescendo

Pesquisa PoderData/Band mostra o atual presidente Jair Bolsonaro (sem partido) líder isolado na corrida para 2022. Bolsonaro tem quase o triplo de intenções de voto em relação ao segundo colocado, que é Fernando Haddad (PT), o seu adversário no segundo turno de 2018. O ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro derreteu e quem aparece bem na foto desta pesquisa é Luciano Huck, aparecendo com 9% em condição de empate técnico com Haddad e Ciro Gomes (PDT).

Huck também é quem mais ameaça Bolsonaro em um eventual segundo turno, ficando apenas 6 pontos atrás do atual presidente. Será que vai animar o apresentador a finalmente se decidir sobre uma candidatura ao Palácio do Planalto? O prazo para o seu desligamento da Rede Globo termina em 2021, foi o ultimato que a emissora deu a ele e sua esposa Angélica.

A resiliência do presidente é impressionante. Bolsonaro se comunica com parcela considerável dos brasileiros, mas 2021 será o teste de fogo na busca pela reeleição. O governo vai ter que entregar muito mais do que já entregou, principalmente na saúde (vacinação em massa da população) e economia (desemprego e inflação).

Mensagem de Natal

Bolsonaro e Michelle fizeram o tradicional pronunciamento de natal em rede nacional de TV e rádio.

Huck e Moro iniciam conversas para 2022

A possível candidatura conjunta gerou repercussão e divisão

Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, o apresentador de TV Luciano Huck e o ex-juiz federal e ex-ministro Sergio Moro tiveram uma longa conversa na casa de Moro, em Curitiba, no final de outubro. Os dois, segundo a reportagem, convergiram na opinião que há espaço para uma candidatura de “racionalidade” em 2022. Essa candidatura de “terceira via” teria o seguinte tripé: liberalismo econômico, luta contra a corrupção e diminuição da desigualdade social. A luta contra a corrupção é bandeira de Moro, luta contra as desigualdades sociais e empreendedorismo são bandeiras de Huck, a agenda liberal na economia é convergência de ambos. Seria uma candidatura de centro para centro-direita.

Segundo a Folha, eles também discutiram a viabilidade de reeleição do presidente Jair Bolsonaro e chegaram a conclusão que ele terá força na eleição por reinar sozinho no segmento conservador, mas que 2021 será um ano difícil pelo fim do auxílio emergencial e o desemprego crescente. A ideia da candidatura conjunta é atrair o máximo de aliados possíveis que estejam de acordo com os princípios acordados acima e formar uma frente de centro contra a esquerda lulista e a direita bolsonarista. Não discutiram quem encabeçaria a chapa, isso ficaria para 2021.

Nas redes, a possível candidatura conjunta gerou repercussão e divisão. Uma parte da esquerda e centro-esquerda rechaçou de logo uma frente com Sergio Moro. Os argumentos se dividiram em parte pela a atuação como juiz e por ter sido ministro de Bolsonaro. Já com Huck, a esquerda não esquece o voto dele em Aécio e, dizem, em Bolsonaro (ele não declarou voto em 2018). Quem não descartou a possível aliança criticou o que chamou de purismo ideológico e lembrou a frente ampla que elegeu Joe Biden contra Donald Trump nos EUA. É complicado fazer comparação da política daqui com a de lá, mas é fato que Biden conseguiu unir em uma frente alas ideológicas opostas dentro do partido democrata em torno de sua candidatura.

O economista Thales Nogueira escreveu no Twitter: “Caro progressista purista de 2020. Aplique seu dogmatismo e moralismo ideológico no tempo e você talvez não votaria sequer no Lyla [Lula] em 2002, cujo vice era um empresário da elite industrial e com carta ao povo e tudo.”.

Já o jornalista Kennedy Alencar comentou o seguinte: “No Brasil, temos uma legião de aventureiros despreparados e rasos que querem tirar proveito de uma falsa equivalência para esconder o bolsonarismo de sapatênis, como faz @LucianoHuck, e o conservadorismo regressivo, como faz @SF_Moro. Não vou normalizar esses selvagens. Tô fora.”

O governador do Maranhão, Flavio Dino (PCdoB), que já teve conversas com Luciano Huck, escreveu: “Moro grava vídeo para um extremista líder de motim, candidato em Fortaleza. Começou muito mal a sua tentativa de se reinventar como referência do “centro”, após servir a Bolsonaro e dele se servir. Cobram tanto da esquerda, mas com um “centro” assim fica difícil demais”, e postou também: “Análises sobre dificuldades para a formação de frentes políticas no Brasil frequentemente olham apenas para problemas na esquerda. Mas não se pode ignorar as carências e vacilações no que seria o “Centro”. Por exemplo, impossível ser contra Bolsonaro e a favor de Paulo Guedes.”

Juliano Medeiros, presidente do PSOL, foi mais incisivo: “Formar uma frente com Moro, Huck, Maia e outros golpistas, reabilitaria os canalhas que viabilizaram o bolsonarismo no Brasil, direta ou indiretamente. Seria um indignidade da qual o PSOL jamais tomará parte. Devemos construir uma alternativa de esquerda. Não estamos nos EUA.”

José Guimarães, figurão do PT concordou: “Muito menos o PT, é minha opinião. Essa gente é responsável pela eleição de Bolsonaro. Os que bradaram contra o PT e os que se omitiram que paguem a contra (sic) do desastre para nossa democracia que foi a eleição de Bolsonaro! #ForaBolsonaro”

Óbvio que a esquerda, principalmente a mais hardcore, não apoiaria uma candidatura de centro e/ou centro-direita. Assim como a esquerda trabalhista terá Ciro Gomes (PDT) como player. E Ciro trabalha para construir uma “terceira via” de centro-esquerda viabilizando alianças com partidos de centro, conseguiu para as eleições municipais de 2020 aliança com Democratas, de ACM Neto em Salvador, e PSD com Alexandre Kalil em Belo Horizonte. Ciro tem uma candidata com chance de ir ao segundo turno no Rio e apoia Márcio França (PSB) em São Paulo, que tem chance de vitória, e apoia o PSB de Pernambuco com o filho de Eduardo Campos na liderança nas pesquisas no Recife-PE. Além da sua Fortaleza-CE, o seu candidato tem uma frente ampla que tem PP, DEM, PSDB, PSD, PSB, Cidadania.

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), também já colocou seu nome no jogo e busca uma robusta frente de aliados para ser a alternativa de centro para 2022. E tem o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que ganhou muita visibilidade no começo da pandemia.

Ou seja, Huck e Moro terão dificuldades de conseguir aliados para uma chapa, seja pela concorrência ou pelos dois agregarem rejeição aos seus nomes. Mas dependendo do cenário político do biênio 2021-2022, a candidatura conjunta pode sim ser viabilizada e a ampla aliança de centro.