A derrota de Macri somada à revolta chilena servem de exemplo ao governo brasileiro

Lula é um mestre quando o assunto é estratégia eleitoral. É o político mais popular dos últimos 40 anos pelo que fez em oito anos na presidência do Brasil. Também pela sua presidência, carrega consigo uma forte rejeição que já existia pela sua origem de retirante nordestino e líder sindical, foi amenizada na vitoriosa campanha de 2002 com a carta ao povo brasileiro e o “Lulinha paz e amor”. Devido aos escândalos de corrupção no seu governo nasceu o “antipetismo” que foi determinante na eleição de 2018. Mesmo preso e respondendo a outros processos, Lula era líder nas pesquisas até ter seu nome retirado da disputa quando a Justiça Eleitoral o barrou com base na Lei da Ficha Limpa sancionada pelo próprio em 2010.
A estratégia de Lula era esticar ao máximo possível o prazo para indicar seu candidato que o substituiria e representaria o “lulismo”. Deu certo ao levar Fernando Haddad ao segundo turno e o ex-prefeito de São Paulo conseguiu mais de 47 milhões de votos. Insuficientes, porém, para o retorno do PT ao governo após dois anos do impeachment de Dilma Rousseff.
Na Argentina, também há uma corrente política que domina o país. O “peronismo” vem desde a década de 1940. Diferente do “lulismo”, existem outras correntes do “peronismo” e o mais forte é o “kirchnerismo” nascido a partir do governo de Nestor Kirchner e de sua esposa Cristina Kirchner. Cristina ficou no governo entre 2007 e 2015, mergulhou o país em uma crise econômica que o marido dela tinha inciado uma recuperação com proteção aos mais vulneráveis. Assim como os governos do PT, o governo de Cristina teve vários escândalos de corrupção e ela responde a vários processos.
Mauricio Macri foi eleito para recuperar a economia da Argentina. Só que Macri se mostrou melhor como candidato do que presidente. Não conseguiu – ou não quis – tocar uma agenda agressiva de reformas estruturantes. Preferiu apenas administrar a crise fiscal sem combater profundamente as causas e viu a inflação disparar em uma economia dolarizada deixando a Argentina mais pobre. Todos os índices do governo Macri são piores que do governo de Cristina, mesmo o governo dela sendo catastrófico.
O argentino se viu no dilema de continuar com um governo que frustou na expectativa ou voltar ao “kirchnerismo”. É aqui o que diferencia Cristina de Lula. Enquanto o segundo optou por não abrir mão da hegemonia de seu partido no campo da esquerda, Cristina Kirchner se despiu de vaidade abrindo mão da cabeça da chapa para agregar apoios e votos. Não tem como saber se o PT abrisse mão de encabeçar a chapa teria o mesmo sucesso de Alberto Fernández, eleito novo presidente da Argentina, mas, levando em conta que mesmo preso Lula transferiu quantidade enorme de votos para Haddad e este teve quase 50 milhões no segundo turno, um nome que não tivesse a contaminação do “antipetismo” poderia ter ido além.
A derrota de Macri somada à revolta chilena servem de exemplo ao governo brasileiro, ser menos ideológico, não ficar procurando inimigos – imaginários – e não ser iludido com avanços econômicos. Em suma, não fechar os olhos para a percepção popular. Não é adotar o populismo desprezando a lógica fiscal. É unir a responsabilidade fiscal com responsabilidade social. O liberalismo econômico é difícil de ter êxito na América do Sul, um continente muito complexo para ficar preso em caixinha ideológica.