Direita e centrão sem saída

Pesquisa Quaest joga um balde de água fria nos caciques do centrão que querem o espólio eleitoral do bolsonarismo sem o bolsonarismo ou ao menos que possam controlar e liderar a direita.

Flávio Bolsonaro, o filho ungido candidato por Jair, não fica atrás dos outros postulantes a desafiantes do presidente Lula. E no confronto contra Tarcísio de Freiras, Flávio goleia o queridinho do centrão.

A pesquisa não é só flores para Flávio, que tem a maior rejeição entre todos, mas deixa a direita e centrão no mesmo dilema: Com um Bolsonaro tem a âncora da rejeição à família, mas sem ela não tem chance nem de ir ao segundo turno.

Todos os postulantes a candidatos da direita/centro atingem o teto nessa pesquisa, o que deixa o atual presidente muito confortável para a reeleição. É só não cometer muitos erros nesse último ano de mandato. Lembrando que pesquisa eleitoral faltando meses para a eleição é retrato de momento.

Brasil dividido em três

Bolsonarismo e petismo 35%; neutro/nenhum 27%

Dado da pesquisa Datafolha mais recente mostrou como o brasileiro se identifica no momento politicamente. O bolsonarismo avançou e empatou, literalmente, com o petismo.

Mostra a força desse grupo político apesar do seu líder Jair Bolsonaro processado por tentativa de golpe de estado. Enquanto o petismo teve queda nos simpatizantes reflexo da baixa popularidade do governo Lula.

A turma do meio, os “isentões”, aparece logo atrás não muito longe dos polos. O Brasil continua dividido em três grupos e não deve mudar até as eleições de 2026. A questão é para que lado vai o centro na eleição. Em 2018, foi para Bolsonaro. Em 2022, para Lula. E agora?

A política não aceita vácuo

Chamar de extremismo as falas recentes de Lula é só a continuação da criminalização da política

O tema do momento nas rodas de discussões políticas da “isentosfera” é quem pode ocupar a liderança de centro para evitar o mesmo destino do segundo turno de 2018 que deixou os brasileiros entre Bolsonaro e PT. Depois de ser fulminado pela mega polarização, pela Lava Jato e ter se dividido em várias candidaturas, o centro – incluindo quem não é necessariamente centrista e não deseja que se repita o cenário de 2018 – está atrás de quem tenha força popular para rivalizar com o bolsonarismo e o lulismo. Até o momento o que se tem são apenas apostas desesperadas. E até Ciro Gomes tenta reciclar seu discurso para virar opção ao centro já que viu que não vai ter como brigar para ser o herdeiro do espólio de Lula, nem o próprio deseja isso, e o presidente Jair Bolsonaro solidificou a outra parte considerável do eleitorado.

Tentativa de juntar eleitores ao centro é uma tarefa inglória nesses tempos e complica mais quando os prováveis postulantes estão mais perdidos do que virgem em bordel. Entendo que seja difícil encontrar um discurso e plataforma política eleitoral que contemple várias tendências do centro democrático. Diferente da direita e da esquerda o centro não se define em uma única ideologia. A população cansou de “político manteiga”, de discurso dúbio, confuso e em muitos os casos passa a impressão de ser falso. Estamos na era das notícias instantâneas, das frases curtas e diretas que sejam impactantes. Em suma, tudo favorece aos candidatos memes.

A própria oposição ao governo Bolsonaro é uma prova que não há espaço para o centro. Estamos terminando o primeiro ano de Bolsonaro e precisou o Lula ser solto para ter uma oposição que pautasse o governo e não o contrário. Para não ser injusto, a única vez em 2019 que ameaçou ter um movimento de oposição grande e unificado foi na manifestação de 15 de maio contra o corte (ou contingenciamento) na educação e a “balbúrdia” do ministro, mas não durou muito e logo se dissipou.

Lula atacou a política econômica nos primeiros discursos livre e não foi com extremismo. Lula botou medo em Bolsonaro tanto que fez o presidente recuar de mandar a reforma administrativa para o Congresso. Pode ter sido por pressão de servidores. Só que o jeito que Lula discursa é o que faltava para a oposição. Faltava testosterona no discurso. Faltava falar a linguagem que a população entende. Faltava uma voz contra o discurso não civilizatório deste governo, o amadorismo político e contra algumas medidas econômicas de Paulo Guedes nas quais agravariam problemas nos serviços públicos e a desigualdade.

Extremismo não é fazer política criticando a administração opositora de modo firme. Posso não concordar com o Lula na crítica contra a reforma da Previdência, mas nunca vou achar que é extremismo da parte dele. Acho sim que é errática no meu modo de pensar economia e acho que é mais bravata dele. O próprio fez uma reforma no sistema previdenciário nos primeiros anos de seu governo que possibilitou fazer vários programas sociais o fazendo deixar o Palácio do Planalto com quase 90% de aprovação e manteve na memória de muitos a sensação de bem-estar vivido no seu governo.

Chamar de extremismo as falas recentes de Lula é só a continuação da criminalização da política.

Não é extremismo criticar a ideia de incluir inativos nos orçamentos da educação e saúde, tornando os serviços ainda mais precários. Não é extremismo criticar a “taxação das grandes pobrezas” de Guedes, mordendo mais de 7% do seguro-desemprego. Não é extremismo criticar a proposta de retirar da Constituição a obrigação do Estado em construir escolas onde faltar vagas. Não é extremismo criticar o congelamento do salário mínimo, que estudos mostram que seu ganho real na última década foi mais eficiente para diminuir a pobreza do que o Bolsa Família. Não é extremismo fazer política, mesmo de forma demagógica e populista.

Extremismo é não respeitar o Legislativo, o Judiciário e a separação de poderes; a Constituição e o Estado laico. É fazer apologia à ditaduras e ditadores, não importa se de direita ou esquerda.

Enquanto o centro não acerta o discurso e bate cabeça, Lula ocupa o espaço vazio de oposição.

Mais pragmatismo, menos ideologia

Um apelo ao que importa – ou por que precisamos superar a polarização e nos ater ao que realmente é importante

pensadores

Guilherme R. Garcia Marques

Não é de hoje que o progressivo acaloramento da polarização entre “esquerda” e “direita” contribui, em larga medida, para anuviar tudo aquilo que é verdadeiramente fundamental e imperativo para a construção de uma sociedade mais justa e desenvolvida. Já é passada a hora de superarmos definitivamente essa dicotomia, sob o risco de perdermos a oportunidade de avançar em pautas prioritárias ao encaminhamento de possíveis soluções para alguns dos mais graves problemas que afligem o país.

É o caso de temas que, por sua premência, deveriam figurar em posições centrais em nosso debate público, a exemplo das causas e soluções para o nosso desequilíbrio fiscal; da regressividade de nosso sistema tributário; da falência de serviços públicos essenciais; da estagnação da produtividade; do nosso caótico ambiente de negócios; e das inúmeras injustiças sociais com as quais convivem diariamente amplos setores de nossa sociedade.

Tais questões, todavia, seguem sendo continuamente preteridas por discussões irrelevantes, alimentadas por disputas políticas e ideológicas nada pragmáticas. Superar essa rixa e trazer o debate público para o campo mais elucidativo das evidências empíricas desponta como passo fundamental para a emergência de uma agenda concreta de desenvolvimento, apta a definitivamente contribuir com a resolução de muitos dos nossos múltiplos entraves econômicos e sociais.

Cabe mencionar, como exemplo, a experiência australiana: medidas tomadas pelo governo trabalhista, de centro-esquerda, a partir de 1983, visaram combater a estagnação da produtividade a partir de iniciativas como a privatização de empresas estatais, a flexibilização trabalhista e a maior inserção comercial via redução de tarifas alfandegárias. Hoje, o país alcança a marca de 27 anos ininterruptos de crescimento econômico e elevados padrões de desenvolvimento social, mantendo-se imune às flutuações, choques e instabilidades econômicas e comerciais oriundas do ambiente internacional.

A experiência australiana desponta como exemplo de importantes lições para o Brasil. Uma boa agenda de desenvolvimento não deve ser encarada como traço indissociável a uma ou outra vertente específica de pensamento, mas sim transcendê-las pela clareza de suas premissas e propostas. Nesse aspecto, ambos os lados podem e devem dar sua contribuição. “Não importa se o gato é preto ou branco, desde que cace os ratos”, já dizia o pragmático Deng Xiaoping.

É apenas com base em diagnósticos claros que seremos capazes de alcançar padrões mais elevados de prosperidade econômica e social. Menos paixões e arbitrariedades ideológicas e mais pragmatismo e apego às evidências farão um tremendo bem ao país.

Essa posição de “neutralidade”, ou de “centro”, ou mais popularmente conhecida nos dias de hoje como “isentão”, não deve ser encarada de forma pejorativa. Tampouco como covardia ou omissão. Trata-se de um claro compromisso com a construção de uma agenda genuinamente relevante e atenta aos interesses do país, fortemente ancorada nas melhores práticas e evidências empíricas. Alheia, portanto, às questões rasteiras que hoje impregnam o debate público. Em outras palavras, um compromisso com aquilo que pode, finalmente, dar resultados.

O momento, mais do que nunca, exige lideranças agregadoras, conscientes e comprometidas com o que é fundamental. A comunicação será um instrumento cada vez mais importante nesta tarefa, bem como para que superemos este crítico momento rumo a uma trajetória sustentável e sustentada de desenvolvimento no futuro. Alimentar a polarização é perda de tempo, e mais cedo ou mais tarde, acabará por nos serrar ao meio.

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Guilherme R. Garcia Marques – Cientista político. Mestre em Economia Política Internacional. É analista da Diretoria Internacional da Fundação Getúlio Vargas e membro do Grupo Latino Americano para a Administração Pública (GLAP/IIAS).

As opiniões expressas são de caráter pessoal e não representam a posição da FGV. O autor publica opiniões, também em caráter pessoal, em sua conta no Twitter (@grgmarques).