Hegemonia vale mais que vencer uma eleição

Jair Bolsonaro, mesmo internado para mais cirurgia, resolveu escrever de próprio punho uma carta dirigida ao povo brasileiro confirmando sua indicação de Flávio Bolsonaro como o seu pré-candidato a presidente da República na tentativa de pacificar a própria família e dissipar qualquer dúvida sobre quem é seu escolhido para lhe representar na eleição de 2026.

O bolsonarismo é hegemonista, como o petismo também é, mas tem motivo para ser. Ninguém joga poder fora. O bolsonarismo e o petismo ambos têm votos. Abrir mão desses votos pensando pragmaticamente e em uma suposta união do campo político que pertence pode ser um suicídio político do seu grupo.

Não sejamos bobos. Ninguém que lidera não deseja perder o status de líder. Até admite perder uma eleição, mas não esse status.

Pesquisa Datafolha divulgada mostra que 74% dos brasileiros são petistas (40%) ou bolsonaristas (34%); 35% se diz de direita, 22% de esquerda, 17% de centro, 11% de centro-direita e 7% de centro-esquerda. Quem lidera a direita atualmente é o bolsonarismo que não vai arriscar perder a liderança para outro mesmo sendo aliado.

Família Bolsonaro quer súditos

A guerra aberta no bolsonarismo em Santa Catarina por causa da candidatura de Carlos Bolsonaro para o Senado imposta por Jair Bolsonaro causou fissuras neste campo político, já debilitado pela condenação por tentiva de golpe de estado do seu líder, que logo começará a cumprir a pena.

Faz parte da família Bolsonaro largar aliados pelo meio do caminho. Basta o mínimo de divergência e a pessoa passa a ser “traidor”, infiltrado” e outros adjetivos piores. A família Bolsonaro se acha dona da direita brasileira.

Ana Campagnolo está passando pelo que passou Julian Lemos, Gustavo Bebianno, General Santos Cruz, Joice Hasselmann e muito outros que foram não só expulsos do grupo bolsonarista, mas tiveram uma verdadeira campanha de linchamento virtual para acabar com as suas reputações apenas por discordâncias.

A guerra no estado mais bolsonarista do Brasil pode rachar o bolsonarismo e comprometer os planos do PL para 2026.

Partido Missão (MBL) oficialmente criado; lição ao bolsonarismo

O MBL (Movimento Brasil Livre) criado no fim de 2014 que ganhou relevância nos atos pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) resolveu ter um partido próprio. Na noite desta terça-feira foi julgado e por unanimidade foi aprovado o registro no TSE.

Não é fácil a criação de um partido no Brasil, mesmo o país tendo dezenas deles. É preciso pouco mais de 500 mil assinaturas (0,5% do total de votos para Câmara dos Deputados na eleição de 2022) validadas.

Para ter uma ideia nem a força popular do bolsonarismo conseguiu criar o partido de Jair Bolsonaro, o Aliança pelo Brasil. Os “moleques” do MBL tiveram um plano, organização e souberam executar. Tudo que faltou no Aliança pelo Brasil. Mostraram como fazer.

Bobagem jogar a culpa da não criação do partido de Bolsonaro no “sistema” que não queria, que o MBL é a “direita permitida”. É desculpa para o fracasso e querer se eximir de responsabilidade. Aqui não entro no conteúdo do novo partido. Apenas parabenizo o grupo pelo grande feito. Nem o fato de mais um partido que com a cláusula de (barreira) desempenho tende a cair o número de agremiações e ficar apenas as que tiverem votos.

Petismo vs bolsonarismo

A atual polarização política brasileira entre petistas e bolsonaristas segue firme. Pesquisa aponta que 76% dos brasileiros são petistas ou bolsonaristas. A realidade é que não existe espaço para uma terceira via.

Pode mudar e surgir outro líder que arregimente uma massa de apoiadores como Jair Bolsonaro fez em 2018 quebrando a polarização dominante entre PT e PSDB.

Mas é bem difícil de acontecer em um período curto.

Brasil dividido em três

Bolsonarismo e petismo 35%; neutro/nenhum 27%

Dado da pesquisa Datafolha mais recente mostrou como o brasileiro se identifica no momento politicamente. O bolsonarismo avançou e empatou, literalmente, com o petismo.

Mostra a força desse grupo político apesar do seu líder Jair Bolsonaro processado por tentativa de golpe de estado. Enquanto o petismo teve queda nos simpatizantes reflexo da baixa popularidade do governo Lula.

A turma do meio, os “isentões”, aparece logo atrás não muito longe dos polos. O Brasil continua dividido em três grupos e não deve mudar até as eleições de 2026. A questão é para que lado vai o centro na eleição. Em 2018, foi para Bolsonaro. Em 2022, para Lula. E agora?