Revolucionários da boleia ameaçam parar o país de novo

O Brasil ainda sente os efeitos da “revolução da boleia” de 2018

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Caminhoneiros ameaçam nova paralisação se o governo não resolver os problemas da categoria. Reivindicações são as mesmas da paralisação de meados do ano passado. Reclamam do fim do subsídio do diesel que vigorou de junho a 31 de dezembro de 2018, como parte do acordo com o governo anterior para terminar com a paralisação que deixou o Brasil em um caos semelhante ao que vive a Venezuela e com reflexos na economia. O governo do presidente Michel Temer demorou para agir e quando sentou para negociar com representantes dos caminhoneiros não tinha o que fazer e entregou quase tudo que pediram.

Jair Bolsonaro apoiou as paralisações de 2018 e 2015. Em 2018, inclusive, Gustavo Bebianno chegou a discursar para caminhoneiros parados parabenizando a paralisação e usando em favor de Bolsonaro. Quando os prejuízos para população e o transtorno para o cidadão com consequências catastróficas para o futuro governo, Bolsonaro pediu para os caminhoneiros pensar no país sem deixar de parabenizá-los por “mostrar as entranhas do poder”.

Caminhoneiros também ficaram irritados com a fala do presidente e a tímida resposta para suas demandas. Acharam insuficientes a nova política de preços da Petrobras e o cartão-caminhoneiro, que entendem que já são três meses de governo e Bolsonaro não cumpriu a promessa de campanha de resolver o problema do diesel e a tabela de frete – outra reivindicação aceita pelo governo Temer – não está sendo respeitada. O Brasil ainda sente os efeitos da “revolução da boleia” de 2018, uma nova paralisação seria tão ou mais apocalíptica.

Governo Bolsonaro está para pagar uma conta que o candidato Bolsonaro ajudou a criar. Não sei se o presidente se arrepende de ter apoiado a paralisação dos caminhoneiros, eu me arrependo de ter feito postagens neste blog achando que nossos caminhoneiros estavam ajudando a mudar o país. A paralisação transformou em vilão Pedro Parente, o responsável por reerguer as finanças e credibilidade da Petrobras, derrubou a tímida recuperação da economia e deixou uma bomba armada pronta para explodir. Fora oportunistas encontrando na paralisação a grande chance da vida e virando deputado, como André Janones.

Claro que é preciso olhar com cuidado os problemas de quem leva os produtos e mercadorias para o comércio. A sua importância foi comprovada na paralisação de 10 dias. Resta saber se a convenção ao liberalismo econômico por parte de Jair Bolsonaro personificada em Paulo Guedes é pra valer ou de ocasião e se vai saber desarmar a bomba que ajudou a criar não caindo na tentação do populismo fácil e maléfico.

Bolha

Liberal que vive na sua bolha desconhece como vive o povo dos rincões

Brasil está acéfalo de poder e à deriva. O presidente perdeu a autoridade, já tinha perdido apoio no parlamento. A paralisação dos caminhoneiros saiu do controle. O governo negociou com quem não representa os caminhoneiros. Temer deu ultimato e ficou desmoralizado ainda mais. Oportunistas tentam jogar o caos só na conta do Pedro Parente e do “golpe” que afastou Dilma Rousseff, fingindo que a gestão dela levou a empresa para o buraco com uma política irresponsável e criminosa.

Na outra ponta temos liberais de quermesse que não conhecem a realidade de um país continental, vivem numa bolha e pensam que o Estado mínimo é a solução para todos os problemas. Não conhecem lugares que não se sustentam sem o Estado. Também temos a versão do “governismo doente” a favor de um governo com 7% de aprovação popular, que tudo é armação para um golpe.

Alguns liberais brasileiros são tarados por lucro e preferem pagar 5 reais na gasolina, além de ignorarem que pessoas passaram a cozinhar em fogo a lenha/carvão pelo preço impagável do botijão de gás. A Petrobras (que não deve mirar só o lucro de seus acionistas) é uma empresa de sociedade mista e a política de Pedro Parente é voltada para quem não precisa do Estado.

Enquanto for estatal e deter o monopólio do setor energético, a Petrobras não pode só pensar como uma empresa privada e deixar os preços dos combustíveis a bel prazer do inconstante dólar e do cada vez mais instável barril do petróleo.

Defensores da tese que o “mercado” tudo resolve reclamam de políticos oportunistas com discurso populista. Todo político faz discurso para o povo independente da coloração ideológica. Políticos não podem virar as costas para os desejos da população. O bom político e gestor público são aqueles que sabem dosar o interesse do povo/eleitor com o interesse público. Ou seja, não comprometer as finanças públicas sem fechar os olhos para o anseio popular. Quem acha o contrário é quem não gosta e entende de política, que acha que governos só devem olhar apenas para o “mercado”.

Talvez tenha sido o maior erro de nascença do governo do presidente Michel Temer. Como o governo nasceu não de uma eleição e sim fruto de um impeachment, com forte apoio do empresariado e promessas de reformas que agradaria o “mercado”, a direção da política econômica – e a política na Petrobras está inserida – guinou total só para um lado gerando forte impopularidade contra o presidente.

A reforma trabalhista é um exemplo. O governo enviou uma reforma enxuta ao Congresso Nacional discutida com sindicatos, só que o patronal redigiu uma ampla reforma que mexeria com centenas de artigos da CLT e o relator Rogério Marinho (PSDB/RN) foi apenas o “testa de ferro” rasgando a reforma proposta do governo. E o governo não reclamou da descaracterização do projeto inicial.

O estado não pode ser paquidérmico. Mas o Estado precisa existir e ter mecanismos para servir quem precisa dele. Administrar um governo como se fosse uma empresa privada só mesmo na cabeça de individualistas ególatras e liberal que vive na sua bolha que desconhece como vive o povo dos rincões.

Temer dá ultimato para caminhoneiros

Michel Temer deu um ultimato e ordenou uso das forças federais para remover bloqueios e desobstruir rodovias

Antes tarde do que nunca, o presidente Michel Temer falou da paralisação e bloqueio de caminhões que está provocando um caos em várias cidades, transtorno a produtores rurais, indústria e paralisando serviços públicos. Tentando mostrar que ainda está no comando, Temer falou que seu governo está aberto ao diálogo, como sempre, que não vai deixar acontecer desabastecimento e chama caminhoneiros para cumprir o acordo fechado ainda ontem entre o governo e líderes dos caminhoneiros.

Michel Temer deu um ultimato e ordenou uso das forças federais para remover bloqueios e desobstruir rodovias.

Se os caminhoneiros vão obedecer ainda não se sabe, mas Temer resolveu subir o tom, mesmo tarde e passando a sensação de estar meio perdido, para tentar mostrar que ainda tem autoridade. Os pronunciamentos do ano passado para se defender das denúncias mostravam o presidente com mais firmeza e vontade de lutar e se defender.

Este pronunciamento pareceu mais protocolar. Compreensível até para não criar um clima de guerra com caminhoneiros e pânico na população, mas o tom ameaçador pode ter efeito contrário.

Revolta dos Caminhoneiros

O povo começa a perceber que ele é o “patrão” de quem o governa

Causa estranheza críticas de quem se diz liberal no campo econômico contra a paralisação dos caminhoneiros só por ser contra greves ou por beneficiar a oposição, beneficiar a esquerda e o ET de Varginha, ignorando principalmente o peso dos impostos no preço dos combustíveis, sendo que muitos dos críticos de hoje aplaudiam as mesmas paralisações quando era o PT no poder. Os Caminhoneiros alertaram o governo, o que fizeram as autoridades? Nada.

O governo fez descaso com os caminhoneiros, subestimou a importância do transporte de carga em um país que a malha ferroviária é mínima, como fez o governo anterior subestimando a onda de protestos contra o aumento de R$ 0,20 no passe de ônibus em junho de 2013 e nas manifestações pelo impeachment em 2015 e 2016. Governos subestimam a força do povo quando este se une em nome de uma causa e o atual age apenas quando a porta é arrombada, falhando na comunicação de suas ações.

Na verdade, o Brasil está completamente sem comando. O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM/RJ), articulou o fim do PIS/COFINS no projeto de reoneração da folha de pagamento das empresas, quando o acordo era só zerar a CIDE, contrariando o governo. Maia, que busca alianças para fortalecer seu nome e sua pré-candidatura à sucessão de Michel Temer, viu na causa dos caminhoneiros uma boa oportunidade de ganhar popularidade e sair do traço nas pesquisas.

A oposição está colocando toda a culpa do descalabro no Pedro Parente. Lembrando que o governo Lula abriu mão de regulamentar e investir no etanol e combustíveis renováveis quando a Petrobras descobriu o pré-sal, deixando a matriz energética brasileira cada vez mais dependente do petróleo. Parente cumpriu a missão que fora dada a ele ao assumir a Petrobras: recuperar a imagem da empresa após o escândalo gigantesco de corrupção e recuperar as finanças da estatal após intervencionismo exagerado.

Mas o preço dessa recuperação foi muito salgado para população. Parente pensou apenas nos acionistas da empresa. Só que a Petrobras é estatal e é impossível esquecer o lado social ajustando os preços apenas com o que acontece lá fora no preço internacional do petróleo e do dólar. Apenas para ficar em um exemplo, o gás de cozinha está impraticável e muitas famílias pobres trocaram o botijão de gás pelo milenar fogão a lenha ou a carvão.

A fome por imposto, o descaso nos serviços públicos, a inércia do “Leviatã” (Estado) passou de qualquer limite e o povo começa a perceber que ele é o “patrão” de quem o governa.

Apelo ao presidente Michel Temer

Presidente Michel Temer, por favor, faça algo e evite que seu governo termine como o de José Sarney

Excelentíssimo Presidente da República, Senhor Michel Temer, não deixe o seu o governo terminar de forma catastrófico. Sei que seu governo e o senhor foram vítimas de uma trama para derrubá-lo no ano de 2017 – ainda sofre com bombardeios diários maculando sua honra tanto pela imprensa como do Judiciário e ameaça de uma terceira denúncia – e teve que gastar seu cacife político no Congresso Nacional para evitar que “forças obscuras” conseguissem seu objetivo. O governo já não tem mais fôlego para aprovar nem pautar reformas mais do que necessárias, urgentes.

Mas pode piorar e a paralisação dos caminhoneiros tem potencial para provocar distúrbios nas cidades por falta de suprimentos básicos. É preciso medidas rápidas e eficientes, com urgência. Se a situação não for resolvida rapidamente, pode começar a faltar suprimentos nas prateleiras, já começou nos aeroportos, aí o caldo entorna de vez. E a reivindicação dos caminhoneiros não só é deles. A população em geral, principalmente a classe média e os mais pobres, não aguenta mais a escalada no preço da gasolina. Não queremos saber se a culpa é do preço do petróleo em dólares ou se o “mercado” não vai gostar de medidas para conter essa subida.

Chega de pagar a conta (o pato) que não é nossa, seja da corrupção ou da volatilidade do mercado. Queremos um preço justo que caiba dentro do orçamento cada vez mais apertado do brasileiro. O problema vai muito além de déficit fiscal. É a crise social que está se agravando com potencial para desaguar no desabastecimento de produtos. Veja o drama humanitário que os vizinhos da Venezuela estão sofrendo. Estamos longe da situação venezuelana, verdade, e muito graças ao seu rompimento com o governo Dilma, que era cúmplice da ditadura Maduro, proporcionando o impeachment, mas pensar só em equilibrar as finanças públicas e esquecer a população vulnerável não é aceitável.

Presidente Michel Temer, o senhor ainda tem alguns meses antes de entregar o cargo e contornar danos assim como fez ao assumir o comando do governo federal. Por favor, faça algo e evite que seu governo termine como o do seu correligionário José Sarney: trágico economicamente e socialmente.