A escolha de Sofia: acionistas, em detrimento da população sobretudo a mais pobre, ou o povo

O mercado financeiro e seu mau humor até com uma unha encravada não gostou da intervenção do presidente Jair Bolsonaro proibindo a Petrobras de aumentar em mais de 5% o diesel nas refinarias que desagradaria quem já não anda satisfeito, caminhoneiros. O “mercado” já estava nervoso pelo entrave na reforma previdenciária e entrou em desespero com o que acusam de “dilmada” do Bolsonaro, mas o pessoal da boleia só espera uma faísca para paralisar o país novamente.
Toda interferência governamental em setores sensíveis na economia mais cedo ou mais tarde a conta chega e o preço é indigesto para todos. O Brasil paga até hoje pelo excesso de interferência de Dilma Rousseff na economia. Mas, diferentemente de alguns liberais que rechaçam intervenção do presidente na política de preços da Petrobras, não acho que ele deve ser cego para o que ocorre nas estatais que mexem no bolso do brasileiro, principalmente dos mais pobres.
A política introduzida por Pedro Parente recuperou a empresa do baque tanto pela corrupção quanto pela política intervencionista do governo Dilma. Mas provocou efeitos colaterais perversos, levou ao “caminhonaço” de 2018 e, posteriormente, sua queda da presidência da estatal. O preço do botijão de gás a quase R$ 100, por exemplo, fez com que muitas famílias recorressem – muitas ainda recorrem – ao velho e sempre eficiente fogo a lenha para cozinhar porque tinha que escolher comprar o botijão de gás ou a comida.
Defendo o fatiamento e, posteriormente, a privatização da Petrobras. Fatiar para que não se repita a privatização da Vale do Rio Doce, que passou da mão do Estado para a mão de um oligopólio privado. Esse processo teria que passar por um longo debate com a sociedade civil, líderes de classes, governo, Parlamento e Judiciário. A maioria ainda carrega o nacionalismo varguista contra a privatização da Petrobras. Mas só abrindo o mercado para terminar com o dilema entre defender o interesse da população ou de acionistas sem que o mercado financeiro tenha uma crise de criança mimada toda vez que o governo decida intervir pelo social.
Os preços dos combustíveis estariam blindados de interferência do governo e, por sua vez, o setor enérgico não seria mais monopólio estatal ou oligopólio privado. A concorrência tenderia a amortecer para o consumidor as oscilações do preço internacional do petróleo. Em outra frente, o governo investira em outras fontes de energia, de preferência em energia renovável, que Lula renegou depois que descobriu e cresceu o olho para o pré-sal.
Hoje é impossível o governo abrir mão de regular a política de preços da Petrobras sob pena de uma nova paralisação caminhoneira. É uma bomba relógio pronta para explodir. Não pode correr o risco de uma nova paralisação do transporte de cargas em um país super dependente de rodovias para transportar mercadorias e serviços, seria ainda mais catastrófico que há um ano. Com o seu poder constitucional legitimado pelo voto popular, o presidente tem o dever e fazer de tudo ao seu alcance para evitar essa tragédia até para preservar seu próprio governo.
A escolha de Sofia: acionistas, em detrimento da população sobretudo a mais pobre, ou o povo, sempre ficarei com o segundo grupo e fora de bolhas. Se soar populista, dane-se.