Brasil escapou de viver um novo golpe de estado

A Polícia Federal encontrou um documento no telefone do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro, intitulado “Forças Armadas como poder moderador” para desconstituir as instituições democráticas. O relatório da PF diz que o documento foi criado em 25 de outubro de 2022. Não é a primeira vez que é achado documento com teor parecido.

Foi criado um plano golpista para a eventual derrota eleitoral de Bolsonaro, que acabou se concretizando. Mas e o plano golpista, por que não foi colocado em prática? Faltou pouco para o Brasil passar por um novo golpe de estado. Faltou coesão nas Forças Armadas e também faltou apoio popular massivo. Também faltou apoio internacional.

Não é que dentro das Forças Armadas não tivessem quem apoiassem um golpe, mas o alto comando do Exército não se sentiu a vontade para chancelar um golpe de estado por falta de clamor popular – apenas acampamentos nas portas dos quartéis eram insuficientes -, faltava apoio da imprensa e apoio internacional. O Brasil ficaria isolado e grandes potências aplicariam sanções quebrando nossa economia.

Mas faltou pouco para o Brasil passar por um novo golpe de estado. Os seus autores precisam pagar pelo plano armado. Não foi executado, diriam as defesas dos acusados. Só de terem perdido tempo arquitetando um plano é gravíssimo e alguma punição tem que ter para quem planejou.

Brasil rumo a uma nova ruptura

O que sobrou das instituições tem que se impor e frear a escalada disruptiva

alianca

O projeto de poder bolsolavista não se contenta em ganhar o debate público e eleições, a meta é a destruição de quem considera inimigo (quem não está com ele) – nas próprias palavras do Olavo – e se apropriar do Estado destruindo as instituições. Não aceita pesos e contrapesos. Faz uso de espantalhos (comunismo é o mais usado) para fazer lavagem cerebral nas pessoas. Os seus discípulos usam o combate à corrupção como bandeira, mas fazem igual ou pior do que acusam nos adversários e se refestelam nas benesses do poder.

Faz uso do sentido de família (tradicional) para despejar seus preconceitos mais abjetos. Toma de assalto os símbolos nacionais, como movimento nacionalista que é. É escravocrata e supremacista. Se apropria do nome de Deus usando a religião como palanque político. Para o bolsolavismo a democracia não é um fim a ser alcançado, é o meio para chegar ao poder. A democracia para eles é “eu mando, você obedece” e o voto popular é a autorização para os desmandos.

Alexandre de Moraes é uma das poucas autoridades que não fica só em nota de repúdio contra a malta que está destruindo as instituições da República a serviço do projeto autocrata e autoritário que tem Jair Bolsonaro líder político, e Olavo de Carvalho como guia e mentor intelectual desse projeto de poder. Já Augusto Aras… O senhor Aras está transformando a PGR num puxadinho do Palácio do Planalto em troca de sabe lá o que. Agradecendo indicação fora da lista tríplice? A vaga aberta de Celso de Mello, no STF, em novembro ou a de Marco Aurélio Mello, em 2021, quando termina o mandato como chefe do MPF?

O Congresso Nacional está sendo comprado. O STF emparedado pelas milícias digitais. Os militares talvez não embarcariam numa nova aventura golpista. Marinha e Aeronáutica estão mais distante do governo, enquanto o Exército entrou de cabeça, quase uma intervenção branca. General Heleno piscou para os militares na nota golpista de sexta-feira (22) e militares da reserva estão assanhados. O que aconteceu no Ceará, em fevereiro, foi um teste na formação de um grupo para-militar similar aos “camisas negras” de Mussolini.

Mas o bolsonarismo não vai aplicar um golpe com tanques. O golpe (ou autogolpe) é a degradação dos poderes da República até sobrar só a presidência (e as Forças Armadas, se curvando ao presidente) como único poder incorruptível no imaginário popular. A única instituição confiável junto com as Forças Armadas e a igreja. Os “camisas negras” – grupo formado por PMs, militares de baixa patente e civis armados – ficariam de prontidão.

Chega de notas de repúdio e discurso conciliador com quem não quer conciliação. Não tem mais diálogo. O que sobrou das instituições tem que se impor e frear a escalada disruptiva quando ainda é tempo. Mas temo que seja tarde e pouco ou nada pode ser feito para evitar o pior.

Carta a um ministro da Ditadura

Fábio Piperno

Caro ministro Célio Borja, li com muita atenção sua entrevista publicada hoje na Folha de São Paulo. Lamentei, e me solidarizo, com sua bem-intencionada e ingênua crença sobre a duração do Golpe de 64. Foi assim que interpretei aquele trecho em que o senhor falou que “supunha que seria uma intervenção cirúrgica”. Pois é, muitos como o senhor também acreditaram na história de que os “militares de formação democrática, Castello à frente, encurtariam a permanência no poder”.

O senhor vê, né ministro, quantos enganos de avaliação o senhor e seus parceiros (comparsas?) foram capazes de cometer!! O senhor acreditou que tudo seria “cirúrgico”, que Jango, “um pobre homem… um aprendiz de caudilho despreparado para governar”, como o senhor mesmo definiu, fosse um golpista e que as torturas, ou “brutalidades” como as classificou, ocorriam porque os facínoras “agiam à revelia”.

Bem, ministro, a longa escuridão que durou 21 anos, foi mesmo uma guerra!!! Na sua definição, é claro! E como guerra é guerra, o senhor honestamente admite que “às vezes havia conivência”, ao referir-se às torturas como prática de Estado. Eles (os torturadores) “achavam que tinha que ser assim. Senão, não ganhavam a guerra”.

Como o senhor foi candidamente induzido a tantos enganos de avaliação, permita-me imaginar que mais um entre os seus equívocos foi quando disse que a visão que se tem do regime é “absolutamente distorcida”. Afinal, o senhor cunhou um eufemismo para negar a ocorrência de uma ditadura no Brasil. “Ditadura nunca houve. O que se podia dizer é que havia um REGIME DE PLENOS PODERES”.

Certo! Isso, ministro, me remete mais àquela música PODRES PODERES, mas como imagino que o senhor esteja em uma fase mais para Lobão, não vai acabar se lembrando qual é. Sem contar que também não podemos esquecer que suas credenciais democráticas não são tão notáveis assim. Claro que induzido por enganos conjunturais, o senhor não apenas apoiou a ditadura, como presidiu a Câmara dos Deputados nos bons tempos do general Geisel, quando a ditadura matou, entre outros, Vladimir Herzog e o operário Manoel Fiel Filho. E, de quebra, novamente como ministro, atuou na frustrada operação para salvar do impeachment o presidente Collor de Mello. Mas nada como ser fiel aos pares. Afinal, ele era um dos seus desde os velhos tempos, não é?

Mas foi bom esse diálogo, ministro. Ah, imagino que o senhor não tenha lido a entrevista daquele coronel reformado, chamado Paulo Malhães, que outro dia confessou ter participado de muitas sessões de tortura e de assassinatos de presos políticos. Com muita expertise no tema, ele contou que arrancavam as arcadas dentárias e os dedos dos mortos para não permitir a identificação, e extraíam as vísceras para evitar o incômodo dos corpos ficarem boiando nos rios para onde era atirados.

Claro que o senhor, muito temente a Deus, certamente não ficou sabendo que seus comparsas (como é mesmo o coletivo de golpistas e de torturadores?) de regime eram capazes dessas atrocidades. E como tudo isso acabou ministro, certamente não vou desejar que seus filhos e netos um dia passem pela mesma dor. Não vou não, ministro. Nem tanto pelo senhor, mas pela história desse país, por formação humanista e por defender até a morte que mesmo a mais imperfeita das democracias é sempre muito melhor que qualquer REGIME DE PLENOS PODERES.

No fundo, ministro, desejo apenas que o senhor se recolha também ao mesmo sarcófago para onde foram seus renitentes parceiros da Marcha da Família. Porque para o lixo da história, o senhor já foi!