Legado de Olavo de Carvalho

Olavo de Carvalho morreu. Uns lamentam, outros fazem troça e até comemoram. Eu ficarei na minha só observando essa polarização da morte.

Comemorar a morte de qualquer pessoa, por mais detestável a pessoa foi, torna a pessoa que comemora minúscula. Nada cristão. Nada humano.

Se a turma samba em cima de um cadáver, imagina quando o Lula ganhar a eleição. Vão querer todos que votaram em Bolsonaro em 2022 e em 2018 no paredão. Para essa gente impera o ódio e o ressentimento.

Olavo foi polemista e das suas polêmicas brotaram muitos desafetos. Mas é inegável que sua obra fez com que o monopólio cultural e político da esquerda fosse quebrado. A lamentar a forma muitas vezes rude, mas negar a sua importância é negar a história. Sua obra, controversa, deixa um legado.

Brasil rumo a uma nova ruptura

O que sobrou das instituições tem que se impor e frear a escalada disruptiva

alianca

O projeto de poder bolsolavista não se contenta em ganhar o debate público e eleições, a meta é a destruição de quem considera inimigo (quem não está com ele) – nas próprias palavras do Olavo – e se apropriar do Estado destruindo as instituições. Não aceita pesos e contrapesos. Faz uso de espantalhos (comunismo é o mais usado) para fazer lavagem cerebral nas pessoas. Os seus discípulos usam o combate à corrupção como bandeira, mas fazem igual ou pior do que acusam nos adversários e se refestelam nas benesses do poder.

Faz uso do sentido de família (tradicional) para despejar seus preconceitos mais abjetos. Toma de assalto os símbolos nacionais, como movimento nacionalista que é. É escravocrata e supremacista. Se apropria do nome de Deus usando a religião como palanque político. Para o bolsolavismo a democracia não é um fim a ser alcançado, é o meio para chegar ao poder. A democracia para eles é “eu mando, você obedece” e o voto popular é a autorização para os desmandos.

Alexandre de Moraes é uma das poucas autoridades que não fica só em nota de repúdio contra a malta que está destruindo as instituições da República a serviço do projeto autocrata e autoritário que tem Jair Bolsonaro líder político, e Olavo de Carvalho como guia e mentor intelectual desse projeto de poder. Já Augusto Aras… O senhor Aras está transformando a PGR num puxadinho do Palácio do Planalto em troca de sabe lá o que. Agradecendo indicação fora da lista tríplice? A vaga aberta de Celso de Mello, no STF, em novembro ou a de Marco Aurélio Mello, em 2021, quando termina o mandato como chefe do MPF?

O Congresso Nacional está sendo comprado. O STF emparedado pelas milícias digitais. Os militares talvez não embarcariam numa nova aventura golpista. Marinha e Aeronáutica estão mais distante do governo, enquanto o Exército entrou de cabeça, quase uma intervenção branca. General Heleno piscou para os militares na nota golpista de sexta-feira (22) e militares da reserva estão assanhados. O que aconteceu no Ceará, em fevereiro, foi um teste na formação de um grupo para-militar similar aos “camisas negras” de Mussolini.

Mas o bolsonarismo não vai aplicar um golpe com tanques. O golpe (ou autogolpe) é a degradação dos poderes da República até sobrar só a presidência (e as Forças Armadas, se curvando ao presidente) como único poder incorruptível no imaginário popular. A única instituição confiável junto com as Forças Armadas e a igreja. Os “camisas negras” – grupo formado por PMs, militares de baixa patente e civis armados – ficariam de prontidão.

Chega de notas de repúdio e discurso conciliador com quem não quer conciliação. Não tem mais diálogo. O que sobrou das instituições tem que se impor e frear a escalada disruptiva quando ainda é tempo. Mas temo que seja tarde e pouco ou nada pode ser feito para evitar o pior.

Bolsonarismo

presidente jairbolsonaro

Na “guerra cultural” do bolsonarismo, para se chegar na “revolução cultural conservadora”, existem três grupos de inimigos no caminho: globalismo, imprensa e a elite política “corrupta”. Globalismo são organismos internacionais (exemplo: ONU) que pretendem acabar com a soberania de países por meio de ONGs internacionais e nacionais que são braços do comunismo. A imprensa seria aliada do globalismo por ter jornalistas militantes de esquerda. Já a classe política “corrupta”, quem não está alinhado com a revolução precisa ser aniquilado. Para isso, a ala anti-establishment aliou-se ao “Partido da Polícia” formado por membros do Ministério Público e juízes que querem formar uma nova elite política e manter privilégios do Judiciário.

Na guerra cultural ONGs de proteção ao meio-ambiente são inimigas. O presidente queria fundir o Ministério do Meio Ambiente com o da Agricultura, teve que recuar após forte repercussão negativa internacional. Mas indicou um ministro antiecológico, Ricardo Salles. Salles está desmontando toda a política de proteção ambiental desde a constituinte de 1988. E não, ser antiecológico não significa ser aliado do produtor rural e do agronegócio. Com o meio-ambiente devastado todos perdem e o produtor rural também. O mundo está cada vez conectado com a sustentabilidade e o Brasil pode ser punido se começar a afrouxar muito a proteção ao meio-ambiente, o agronegócio é quem sofreria como consequência. É possível ser a favor do agronegócio, criticar o radicalismo de ecologistas e não ser antiecológico.

Outra frente de batalha é com a acadêmia. Olavo culpa os militares de ter deixado a esquerda dominar a cultura e a imprensa. O contingenciamento no orçamento do MEC afetou em cheio universidades e IFs. A medida foi para o governo não descumprir a regra de ouro e não cair no crime de responsabilidade. Para se ter ideia, o governo precisa que o Congresso autorize crédito suplementar no valor de quase 250 bilhões para não faltar dinheiro já em julho. O contingenciamento do MEC foi um dos menores. Mas a forma e a comunicação errática deixaram a impressão que os cortes são, na verdade, uma revanche contra universidades que na campanha fizeram eventos contra o então candidato Jair Bolsonaro e trocar uma doutrina por outra.

Sou da filosofia de que os governos devem priorizar o ensino básico e deixar o superior com o livre mercado – mas com regulação e ajuda do governo. Do jeito que está sendo proposto pelo governo, sem um plano consistente para a educação básica, só está bagunçando o que já é uma bagunça.

Enquanto o bolsonarismo está na “guerra cultural” com os filhos do presidente de líderes e Olavo de Carvalho como mentor intelectual, o Brasil real sofre com desemprego, recessão econômica, reformas por fazer, uma articulação política amadora e desastrosa. Para completar, a inflação volta a ameaçar. O índice em abril subiu 0,57%, muito próximo de abril de 2016, marcado por turbulências políticas e o impeachment. Fechou os últimos 12 meses em 4,94%, mais próximo do teto da meta do BACEN (6,50%) do que no centro (4,25%). Quase 5% de inflação. Ainda está longe dos 10% de 2015, mas em um país assustado pelo passado crônico da hiperinflação qualquer resquício de “febre” assusta.

A prioridade é vetar comercial do Banco Brasil e facilitar o acesso de armas de fogo para a população por decretos, ultrapassando limites constitucionais dentro dos mesmos. O decreto que liberou geral o porte de arma para mais categorias pode atingir quase 20 milhões de pessoas e até autorização para crianças atirar em clubes de tiro.

Há tempo para o presidente Jair Bolsonaro corrigir a rota de seu governo. Precisa, porém, se livrar dessa figura nefasta que é Olavo de Carvalho e conter o ímpeto dos filhos, principalmente Eduardo, que seu desejo por poder transparece e parece não ter limite. Só que o presidente parece “refém” da agenda do grupo anti-establishment, um grupo que não tem 20% do eleitorado que o elegeu.

Bolsolavismo

Se os militares forem derrotados, o “centrão” é a última barreira que evite o Brasil seguir o caminho da Venezuela ou Hungria

Nunca na história um governo havia feito oposição a ele mesmo como o atual. Todo santo dia é uma nova crise saindo de dentro do núcleo governista lançada pelos filhos do presidente e pelo falso astrólogo, falso filósofo, falso “guru”, falso mentor da “nova direita”, o boquirroto que mora no interior do interior dos Estados Unidos, Olavo de Carvalho. Olavo seria apenas um velho caquético xingando autoridades na internet se não tivesse tanta influencia nos filhos e no próprio Jair Bolsonaro. Não tivesse indicado ministros para ministérios importantes e discípulos em cargos do alto escalão.

A guerra fria fratricida entre olavistas e militares se aproxima perigosamente de uma guerra declarada. Na verdade, já deixou de ser “fria” e passou a ser guerra declarada em que um lado não está para brincadeira e não se intimida em usar todas as armas e estratégias. Os militares tentaram não entrar nessa guerra, mas foram obrigados a entrar. O outro lado joga baixo, sem pudor. Nesse fogo cruzado fica o Brasil do desemprego, da economia atolada e sem perspectiva de sair da recessão, do eterno risco de uma nova greve caminhoneira.

O presidente encheu o seu governo de militares e não consegue conter os próprios filhos e aliados que distorcem fatos para destruir a reputação de “infiltrados”. Primeiro, contra o vice-presidente Hamilton Mourão; a nova vítima é o General Santos Cruz. Em certos momentos passa a impressão que Bolsonaro endossa o massacre da milícia digital contra os militares. Em outros é obrigado a sair publicamente em defesa de colegas da caserna.

A estratégia do bolsonarismo parece que é encurralar e desmoralizar o generalato que acabou virando a pedra no caminho da “revolução conservadora”, que nada mais é do que um projeto de poder similar ou mais ambicioso que o projeto de poder do PT.

Mas Carlos, Eduardo, Olavo e cia passaram do limite e sem volta. Esticaram por demais a corda e esbararam no General Villas Boas. Ex-comandante do Exército, mesmo debilitado fisicamente, Vilas Boas ainda é a voz moral da corporação tanto que Bolsonaro o trouxe para dentro do Palácio do Planalto e o confiou um peso importante na sua vitória nas eleições. Quero ver se Olavo terá peito de escrever uma linha ao seu estilo despolido a uma figura respeitadíssima como Villas Boas. Será que Carlos Bolsonaro terá coragem de acionar a milícia digital contra o ex-comandante do Exército?

Há uma teoria que essa disputa interna é tático para forçar uma ruptura constitucional e Jair Bolsonaro ser “obrigado” a governar sem ouvir o Congresso Nacional, além de limitar a interferência do Judiciário. Existe mesmo a tentativa de criminalizar qualquer atividade política importada da campanha eleitoral e minar o STF [alguns ministros ajudam nessa tarefa involuntariamente].

Porém, a turma ideológica da “revolução conservadora” não esperava que o pragmatismo das Forças fosse empecilho e o presidente reinaria como um imperador ouvindo os conselhos do “Guru de Richmond”, o “Jim Jones da Virgínia”. A disputa é mais por poder e cargos do que ideológica, que é mais plano de fundo.

Passou da hora do presidente tomar um lado sem meias palavras. Sem os militares, dificilmente o governo Bolsonaro se sustenta até o fim do mandato. Acho pouco provável que os militares percam essa contenda. Se perderem, o Congresso pode frear o ímpeto dos “templários modernos”. Se os militares forem derrotados, o “centrão” é a última barreira que evite o Brasil seguir o caminho da Venezuela ou Hungria.

Revolucionários tentam pautar governo

Não se governa um país do tamanho do Brasil apenas com grupos ideológicos “sangue puro” nem se governa com o fígado

olavo-mourao-moro

A turma revolucionária que pensa que elegeu Bolsonaro e por isso quer pautar o governo tem novo alvo: Sérgio Moro. Tudo porque o ministro nomeou como suplente no Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária a especialista em segurança pública Ilona Szabó.

Tenho opiniões e ideias opostas sobre política de segurança pública em relação a Ilona Szabó, o que não significa que não posso convergir com ela em alguns pontos e muito menos querer vetar sua nomeação para um cargo público. Muito menos por ela ter fotos e contato com George Soros e FHC. Mais engraçado é essa mesma turma não ter a mesma sanha inquisitória contra a permanência do cada vez mais indefensável ministro do Turismo, Marcelo Alvaro Antonio.

Conselhos são para assessorar o poder público em políticas públicas e suas formações obrigatoriamente precisam contemplar todas as vozes da sociedade civil, inclusive quem pensa diferente do seu grupo político, não tem poder de decisão e os conselheiros não são remunerados.

Quem trata adversário político como inimigo é ditador. Agindo como selvagens, essas milícias digitais estão alimentando a falsa narrativa que eleitores do presidente Bolsonaro são fascistas. E quem puxa a fila é Olavo de Carvalho, que resolveu mirar sua arma giratória retórica contra o vice-presidente Hamilton Mourão e, agora, para o ministro Sérgio Moro.

Não se governa um país do tamanho do Brasil apenas com grupos ideológicos “sangue puro” nem se governa com o fígado criando inimigos fantasmas até quado vai no banheiro. Deu certo na eleição, mas governar é mais complicado.