AINDA ESTOU AQUI conquita o primeiro Oscar do Brasil

O Oscar de melhor filme internacional para “Ainda Estou Aqui” é simbólico. Além de ser a primeira estatueta para o Brasil na maior premiação do audiovisual mundial, o filme premiado tinha que ser sobre a história real de uma mulher como Eunice Paiva, que lutou para provar que seu marido foi morto pelo Estado, uma família destroçada pela ditadura militar. A história baseada no livro de Marcelo Rubens Paiva, filho de Eunice e Rubens Paiva, deputado que cassado, preso e desaparecido pelos militares.

Além de ser um filme bem produzido por Walter Salles, essa vitória é importante para nos lembrar do horror que foram os anos do regime autoritário. Foi clima de copa do mundo em meio ao carnaval. Os brasileiros comemoraram essa conquista para o país.

Por um momento as divergências foram colocadas de lado e a nação unida feliz. Claro que tiverem os negacionistas da ditadura. Os (falsos) patriotas que não ficaram felizes com a vitória do filme por ideologia.

Esse prêmio valoriza nossa cultura e arte, abre as portas do mundo para as nossas produções (tinha que ser um filme protagonizado pelas Fernandas Torres e Montenegro, filha e mãe) e possibilita não deixar o passado ser esquecido para não se repetir.

O Brasil precisa superar 1964

O Brasil precisa superar 1964 e os seus desdobramentos. A Lei da anistia votada e aprovada pelo Congresso em 1979 colocou um ponto final nos conflitos entre militares e militantes. Trazer áudios de militares falando de tortura é mexer em cinzas que pode reacender o fogo.

Miriam Leitão requenta esse tema porque quer vingança contra os militares pela sua prisão no tempo de militância comunista. Quer usar um episódio de mais de 50 anos para fustigar o atual governo que tem na presidência e na vice-presidência dois militares da reserva.

A esquerda deseja é reescrever a história contando só a parte da repressão dos militares e escondendo que o recrudescimento do regime militar foi uma reação ao terrorismo da própria esquerda. Se for para revirar o passado, vamos mais atrás e julgar os crimes da ditadura varguista também. Parar de tratar com dois pesos e duas medidas o regime militar e o regime varguista, porque um é demonizado e outro glorificado pela esquerda.

Os militares tomaram o poder em 1964 porque contavam com apoio na sociedade civil e apoio popular. Ficaram mais de 20 anos no poder e implantaram uma ditadura militar, porque uma parte da esquerda preferiu pegar em armas, sequestrar embaixadores, roubar bancos, ou seja, optou pelo terrorismo e seus membros sonhavam em implementar no Brasil uma ditadura comunista. Quem disse isso foi o ex-guerrilheiro Fernando Gabeira.

O General Hamilton Mourão está certo quando diz que os acontecidos de 1964 estão nos livros de história e os mortos não vão voltar revirando o passado.

Por um país com menos Médicis, menos Marighellas. E mais Orlando Pinto Saraiva

Orlando não foi um guerrilheiro. Orlando não foi um opressor. Orlando era um trabalhador. Orlando era todos nós

Orlando Pinto Saraiva

Alexandre Perin

Recentemente, estudantes, pais e professores da escola estadual Emílio Garrastazu Médici em Salvador aprovaram a troca do nome do estabelecimento de ensino, retirando a homenagem a um dos presidentes da Ditadura Militar brasileira. Por escolha da comunidade foi adotado o nome de Carlos Marighella, inimigo número um do regime militar no mesmo período, assassinado em uma operação oficial de estado em 1969. A escolha, a despeito de democrática, levanta algumas ponderações que devemos avaliar: o caminho da tolerância e a ausência do radicalismo.

Esse não é um texto que visa minimizar a Ditadura Militar, bem pelo contrário. Ao longo dos 20 anos de ditadura, excessos foram cometidos em todos os lados, sobretudo do lado do governo, do regime totalitário. Esse artigo abrange o radicalismo que tem sido visto com alguma frequência na sociedade brasileira (como no caso dos linchamentos públicos recentes).

A questão é: em quê acrescenta o revanchismo? O que isso pode engrandecer a resolução de crimes, saber os paradeiros de desaparecidos, fazer justiça a quem deve ser feita? A troca de nome da escola seja uma decisão bastante acertada. Sempre fui contra decisões autoritárias de nomes de ruas, escolas, viadutos, etc. Não vejo nenhum sentido em ter uma escola com um nome de ditador, eleito sem legitimidade e provavelmente o mais cruel de todos os generais brasileiros.

Porém, meus questionamentos apontam contra a escolha feita: um indivíduo que optou pela luta armada, cometendo crimes contra a vida em prol de uma pretensa liberdade. Comunista, Marighella pretendia adotar no Brasil o mesmo regime opressor de seus inspiradores, uma ditadura de esquerda. Existe diferença? Ditaduras são iguais, sejam de direita ou de esquerda. Qual referencial para os jovens em se adotar como símbolo de uma escola uma pessoa que, a despeito de estar lutando contra um regime totalitário, optou pelo lado do crime?

A História (essa com “H”) nos mostra diversos exemplos de pessoas que se posicionaram contra a opressão, injustiça e desigualdade trilhando por caminhos não-violentos, de diálogo ou confronto de ideias. Martin Luther King Jr., Mahatma Gandhi, Nelson Mandela são expoentes da Desobediência Civil, da Luta Pacífica. Formas não-violentas de buscar um mundo melhor.

A mensagem da comunidade do outrora Colégio Médici assusta pelo radicalismo. Um sentimento de “desforra” que não poderia estar imbuído em um ambiente escolar. Marighella não pode ser um exemplo inspirador digno de receber o nome de uma escola. A sociedade brasileira já superou a ditadura. Agora deve buscar suas respostas, mas sem “ir a forra”. Esse tempo, felizmente, já passou.

E o Orlando Pinto Saraiva do título do texto? Era o nome do guarda civil paulista que viu um assalto a banco do grupo de Carlos Lamarca (outro líder guerrilheiro), que visava bancar as ações de guerrilha. Ao chegar ao local do crime, levou dois tiros pelas costas de Lamarca, atirador de elite, e morreu sem poder se defender. Um esquecido nome de um período obscuro da sociedade brasileira. Não vemos escolas, pontes e viadutos com seu nome. Poucas dezenas de pessoas sabem quem foi.

A verdade não está nem no preto, nem no branco, e sim em tons de cinza.

Orlando não foi um guerrilheiro. Um revolucionário. Orlando não foi um opressor. Um torturador. Orlando era um trabalhador. Um brasileiro comum. Orlando era um ninguém. Ou seja, Orlando era todos nós.

Alexandre Perin é filho de militar, que entrou como soldado em 1970 e se aposentou em 2004 no posto de capitão. E um dos maiores ensinamentos dele é a tolerância e observar todos os lados antes de opinar (@perin1979)

Carta a um ministro da Ditadura

Fábio Piperno

Caro ministro Célio Borja, li com muita atenção sua entrevista publicada hoje na Folha de São Paulo. Lamentei, e me solidarizo, com sua bem-intencionada e ingênua crença sobre a duração do Golpe de 64. Foi assim que interpretei aquele trecho em que o senhor falou que “supunha que seria uma intervenção cirúrgica”. Pois é, muitos como o senhor também acreditaram na história de que os “militares de formação democrática, Castello à frente, encurtariam a permanência no poder”.

O senhor vê, né ministro, quantos enganos de avaliação o senhor e seus parceiros (comparsas?) foram capazes de cometer!! O senhor acreditou que tudo seria “cirúrgico”, que Jango, “um pobre homem… um aprendiz de caudilho despreparado para governar”, como o senhor mesmo definiu, fosse um golpista e que as torturas, ou “brutalidades” como as classificou, ocorriam porque os facínoras “agiam à revelia”.

Bem, ministro, a longa escuridão que durou 21 anos, foi mesmo uma guerra!!! Na sua definição, é claro! E como guerra é guerra, o senhor honestamente admite que “às vezes havia conivência”, ao referir-se às torturas como prática de Estado. Eles (os torturadores) “achavam que tinha que ser assim. Senão, não ganhavam a guerra”.

Como o senhor foi candidamente induzido a tantos enganos de avaliação, permita-me imaginar que mais um entre os seus equívocos foi quando disse que a visão que se tem do regime é “absolutamente distorcida”. Afinal, o senhor cunhou um eufemismo para negar a ocorrência de uma ditadura no Brasil. “Ditadura nunca houve. O que se podia dizer é que havia um REGIME DE PLENOS PODERES”.

Certo! Isso, ministro, me remete mais àquela música PODRES PODERES, mas como imagino que o senhor esteja em uma fase mais para Lobão, não vai acabar se lembrando qual é. Sem contar que também não podemos esquecer que suas credenciais democráticas não são tão notáveis assim. Claro que induzido por enganos conjunturais, o senhor não apenas apoiou a ditadura, como presidiu a Câmara dos Deputados nos bons tempos do general Geisel, quando a ditadura matou, entre outros, Vladimir Herzog e o operário Manoel Fiel Filho. E, de quebra, novamente como ministro, atuou na frustrada operação para salvar do impeachment o presidente Collor de Mello. Mas nada como ser fiel aos pares. Afinal, ele era um dos seus desde os velhos tempos, não é?

Mas foi bom esse diálogo, ministro. Ah, imagino que o senhor não tenha lido a entrevista daquele coronel reformado, chamado Paulo Malhães, que outro dia confessou ter participado de muitas sessões de tortura e de assassinatos de presos políticos. Com muita expertise no tema, ele contou que arrancavam as arcadas dentárias e os dedos dos mortos para não permitir a identificação, e extraíam as vísceras para evitar o incômodo dos corpos ficarem boiando nos rios para onde era atirados.

Claro que o senhor, muito temente a Deus, certamente não ficou sabendo que seus comparsas (como é mesmo o coletivo de golpistas e de torturadores?) de regime eram capazes dessas atrocidades. E como tudo isso acabou ministro, certamente não vou desejar que seus filhos e netos um dia passem pela mesma dor. Não vou não, ministro. Nem tanto pelo senhor, mas pela história desse país, por formação humanista e por defender até a morte que mesmo a mais imperfeita das democracias é sempre muito melhor que qualquer REGIME DE PLENOS PODERES.

No fundo, ministro, desejo apenas que o senhor se recolha também ao mesmo sarcófago para onde foram seus renitentes parceiros da Marcha da Família. Porque para o lixo da história, o senhor já foi!