
Prezado prefeito João Doria, vou tomar a liberdade de chamá-lo nesta carta de João, meu xará. Eu entendo perfeitamente seu discurso e sua posição de cautela em não embarcar na euforia de quem pede que você saia candidato em 2018, embora o senhor não descarte, e reafirma que o governador Geraldo Alckmin é seu candidato e está cedo para falar das eleições. Se declarar agora que tem pretensão de colocar seu nome à disposição do partido para disputa presidencial ou ao governo do Estado o tornaria alvo de adversários e até de fogo-amigo, principalmente se tratando de PSDB. Só que as circunstâncias são diferentes dos outros anos pré-eleitorais.
A Lava Jato colocou todos os políticos de todos os partidos – inclusive o seu PSDB – e matrizes ideológicas na lama. É claro que não pode ter pré-julgamento contra ninguém e é preciso diferenciar crimes de crimes. Mas a tendência é forte para uma renovação do quadro político em 2018. Renovação nos Legislativos e Executivos. É aí que mora o perigo. Em momentos como este, propício para aventureiros que se declaram “salvadores da pátria”, que surge o medo do caminho que o eleitor vai seguir.
João, eu sei que você foi eleito com 53% dos votos válidos no primeiro turno, um fato inédito em São Paulo, para um mandato de quatro anos, está muito bem aprovado nos primeiros meses de gestão e o paulistano quer que você complete o mandato. É compreensível, já que muitos políticos usaram a prefeitura de São Paulo como um trampolim político. Só que você, João, já é o melhor tucano posicionado nas pesquisas – 9%, no último Datafolha -, o que mostra que seu desempenho como prefeito é bem recebido em todo país. Nas redes a campanha “Doria presidente” e “Doria 2018” ganha cada vez mais adeptos. São pessoas que estão cansados dos mesmos candidatos de sempre e alguns estão com medo de novos nomes com posições extremistas como o deputado Jair Bolsonaro, por exemplo. Ou a volta de Lula, em caso dele se livrar de Sérgio Moro e da justiça.
João, você é diferente dos candidatos tucanos que disputaram as últimas eleições presidenciais, inclusive “seu padrinho” Alckmin. Você não tem medo de encarar o PT e sua militância organizada e não tem medo de falar abertamente em privatizações. Eu sei que você nunca vestiria um agasalho com banners de estatais como Geraldo Alckmin, em resposta à campanha petista de que ele privatizaria a Petrobras, Banco do Brasil, Caixa e Correios. O Resultado desse marketing furado foi menos votos no segundo turno comparado com o resultado que obteve do primeiro turno, em 2006. Não faria o que fez José Serra: propor décimo terceiro salário para o programa Bolsa Família, nem acabaria com o programa reconhecido mundialmente, talvez aperfeiçoasse, também como resposta às calúnias que acabaria com ele na campanha de 2010 ou propor aumentar o salário mínimo sem calcular o impacto nas contas públicas. E não faria como Aécio Neves: fugiria de um confronto mais direito e duro com o candidato do PT.
É claro que administrar uma cidade é diferente de administrar um país continental com os problemas do Brasil, mesmo uma cidade enorme e complexa como São Paulo. Principalmente em crise(s) gravíssima(s). Os problemas de São Paulo são difíceis de resolver, mas nem se comparam com os do país. E você, João, precisaria mudar um pouco o estilo de governar – reuniões com chefes de Estado vestido de gari nem pensar. Mas não precisaria fugir muito da característica que fez você ganhar muito admiradores.
Pensa com carinho na ideia de morar em Brasília, no Palácio da Alvorada, o cavalo selado passa só uma vez na nossa frente. Não é sempre que o bilhete da loteria é premiado, e você ganhou um, João, não deixe o Brasil voltar a ser governado pelos extremos da direita e da esquerda, o dever cívico lhe chama. Vai recusar?