Sai Duda Mendonça e seu telefone preto. Entram meninos modernos que editam vídeos virais em aplicativos

Maria Carolina Gontijo
O mineiro tem um jeitinho inconfundível. O mineiro de Belo Horizonte então, nem se fala. Talvez porque Belo Horizonte seja uma mini-Minas, cheia de forasteiros unidos pelo amor ao pão-de-queijo. É só perceber que Belo Horizonte não tem um sotaque de Belo Horizonte. Tem um sotaque de Minas inteira. Que puxa o r, que arrasta o r, que come o r. Ao mesmo tempo. É BH. É “Beozonte”. É “Belorizonte”. Ao mesmo tempo. É cidade grande com jeitinho de cidade pequena.
Por que toda essa introdução? Porque não dá pra falar de política em Minas sem entender Minas. E mesmo sendo mineira e morando em Belo Horizonte desde 2006, taí uma coisa que eu ainda não consegui fazer.
O ano é 2008 e Fernando Pimentel é quase uma unanimidade na cidade (acreditem, existiu esse dia). O Governador é Aécio Neves, o sujeito que voltou a pagar o funcionalismo público no 5o dia útil (acreditem, existiu esse dia). A missão? Eleger para prefeitura de Belo Horizonte Márcio Lacerda, carinhosamente apelidado de poste ou “telefone preto”, que até 2007 não era absolutamente ninguém na ordem do dia. Ele se distraiu tanto com Jô Moraes que quase não viu quando a verdadeira ameaça chegou. Um político jovem, bonito, com bela família e que fazia joinha no horário eleitoral (a gente sabe como mineiro gosta de gente bonita, com família bonita e que faz joinha). Mas aí o moço foi gravado dizendo que iria “chutar a bunda” dos adversários. E de chute na bunda, mineiro não gosta. Quer dizer, mineiro não gostava.
O ano é 2016 e não deu para eleger o telefone preto da vez. O novo candidato queridinho agora fala vários palavrões de menor potencial ofensivo. Manda Pimentel e Aécio para o inferno ao vivo (como se eles já não estivessem lá, enviados pelos próprios mineiros). Provoca. Ri. Pavimenta um caminho que os caciques partidários barrigudos e bebedores de uísque menosprezaram. Esse negócio de chute na bunda provavelmente traumatizou alguns deles. Mas no século XXI, oito anos representam uma vida inteira quando esse espaço de tempo separa um aparelho que só faz ligações de um smartphone.
O que se viu até agora na disputa da prefeitura de Belo Horizonte passa muito longe de um suposto enfrentamento entre a velha política e a nova política. No máximo, temos a velha política contra a política mais velha. No máximo, temos um mineiro cansado de ser enganado, mas que no fundo sabe que será enganado de novo. Sai Duda Mendonça e seu telefone preto. Entram meninos modernos que editam vídeos virais em aplicativos, mas que a gente sabe que guardam no armário aquele bom e velho chapéu da tradicional família mineira. Sai mais do mesmo e entra o mesmo, mas mais engraçadinho.
O mineiro cansou. Cansou de condenar o mau vocabulário. Cansou do pó de arroz três tons mais claro que a pele do candidato. Cansou da fala mansa (justo ele, o mineiro!). Cansou de duvidar do joinha. Cansou de sempre pegar o trem no horário para depois descobrir que a linha Barreiro/Savassi nunca vai sair do papel.
O mineiro cansou de usar chapéu. Mas assistindo a tudo que o próprio mineiro fez nas eleições de 2014, seria bom que ele aprendesse a usar filtro solar.
Maria Carolina Gontijo é mineira e advogada tributarista