Guilherme Marques
Tendo alcançado a expressiva marca de 46% dos votos válidos no primeiro turno e 58% das intenções de voto de acordo com a última pesquisa do Datafolha para a disputa do segundo turno, Jair Bolsonaro impõe a seu competidor direto um cenário sombrio. Afinal, de acordo com cálculos elaborados pelo Cepesp/FGV, a probabilidade de Haddad reverter a distância de mais de 15 p.p. observada no primeiro turno é de meros 5%.
Não sendo um cenário já suficientemente sombrio, o reinício do horário eleitoral compele a Haddad um novo revés: a nítida superioridade em termos de eficiência e interlocução com o telespectador por parte do primeiro programa eleitoral da campanha de Jair Bolsonaro.
Dividido em duas partes, a primeira se destaca ao formular um duro e incisivo ataque ao PT, dando continuidade a uma estratégia reconhecidamente bem-sucedida e atestada pela expressiva votação obtida pelo candidato ainda no primeiro turno.
Começa relembrando eventos como a queda do Muro de Berlim, símbolo da Guerra Fria e marco da presença do comunismo na Europa, enquanto associa ao PT, junto com Fidel Castro, o papel de liderança na organização de uma frente comunista voltada para a doutrinação e domínio político da América Latina. Associa esta frente de esquerda ao atraso de Cuba, a devastidão da Venezuela e a crise no Brasil. Violência, corrupção e desemprego, temas que marcaram forte presença nestas eleições, ganham destaque. A propaganda induz o eleitor a se ver na beira do abismo. A possibilidade de não dar o passo final rumo ao precipício, no entanto, ainda existe. A decisão cabe a si.
Seguindo etapas do roteiro da jornada do herói (tal como descrito por Joseph Campbell em “O Herói de Mil Faces”), o programa aborda o atentado sofrido por Bolsonaro como uma provação traumática cuja árdua superação o leva a uma célebre recompensa: a expressiva votação obtida no primeiro turno.
Entramos, enfim, na segunda parte do programa. A etapa destinada não apenas a apresentá-lo, mas principalmente, humanizá-lo. Os olhos marejados de lágrimas ao falar de sua filha caçula é o principal instrumento desta estratégia. A presença de sua esposa e enteada no discurso visa aproximá-lo do público feminino, procurando amenizar as desastradas falas proferidas tanto pelo próprio candidato quanto por seu vice.
O programa eleitoral de Haddad, por sua vez, é mais fracionado. Inicia explorando os casos de violência associados a polarização política no Brasil, vinculando-os ao discurso agressivo e falas desastradas de Bolsonaro, apresentado como um propagador do ódio e um risco ao estado democrático. Na segunda parte, Haddad é apresentado ao público. São enfatizados sua sólida formação acadêmica, vida pessoal e atuação em cargos públicos, com destaque para sua experiência no Ministério da Educação e na Prefeitura de São Paulo.
Posteriormente, o programa volta a reforçar sua candidatura como alternativa democrática. E por fim, apresenta brevemente suas propostas de governo, com ênfase para a geração de empregos, aumento do salário mínimo, investimentos públicos e educação.
Ainda que superior neste último ponto, o programa de Haddad carece da carga emocional necessária para lograr uma reversão na extensão que necessita. Enquanto a propaganda de Bolsonaro se comunica diretamente com anseios diretos da população, responsabilizando o PT pela “maior crise ética, moral e financeira da história”, Haddad ainda não encontrou um ponto fraco a ser explorado no sentido de desidratar efetivamente o seu oponente direto. Seu tempo está se esgotando. Se quiser viabilizar sua candidatura, precisará usar melhor todas as ferramentas que tem. E rápido.
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Guilherme Marques é cientista político. Mestre em Economia Política Internacional. É analista da Diretoria Internacional da Fundação Getúlio Vargas e membro do Grupo Latino Americano para a Administração Pública (GLAP/IIAS).
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As opiniões expressas são de caráter pessoal e não representam a posição da FGV. O autor publica opiniões, também em caráter pessoal, em sua conta no Twitter (@grgmarques).