
Cyrus Abdollahyan
Numa eleição à Presidência, os candidatos (quase) nunca são candidatos de si mesmos. Eles são a personificação de um projeto de país e de sociedade. Eles são os representantes dos interesses de setores da sociedade, de classes ou frações de classe, e suas plataformas de governo são fortemente determinadas por esses interesses que representam.
Por isso voto em Dilma. Dilma é a candidata que representa um projeto claro e diferente dos outros dois principais candidatos: o do crescimento com distribuição de renda. Trata-se de um projeto que não começou – e, espero, ainda não terminou – com Dilma, mas que deve ser avaliado em sua perspectiva histórica, desde sua origem, com a eleição de Lula, até hoje. O projeto é o mesmo. Dilma representa a continuidade desse projeto. Projeto este que mudou profundamente o país – e para melhor – ao longo desses 12 anos.
O projeto neo-desenvolvimentista não é de ruptura com o sistema. Mas é um projeto de mudança, à esquerda, em relação ao neoliberalismo implantado nos 12 anos anteriores.
Voto em Dilma porque seu projeto tem na inclusão social um elemento constitutivo e indissociável de seu modelo de crescimento, de seu projeto de país e de sociedade. Não se trata apenas de discurso, mas de prática.
Caminhamos, nos últimos anos, para um país sem miséria. Entre 1995 e 2003, as taxas de pobreza extrema se mantiveram praticamente estagnadas (em torno de 15%). Hoje, essa taxa é de 1,7%. O Brasil saiu do “Mapa da Fome” da FAO. Isso é uma mudança brutal. Dilma representa essa mudança.
Voto em Dilma porque com ela o país atingiu o menor nível jamais registrado de desigualdade de renda, medida pelo índice de Gini. Esse feito não está, de modo algum, consolidado. Uma mudança de volta ao projeto neoliberal, encarnado por Aécio e Marina, pode não só interromper esse avanço mas também pode significar a reversão da tendência. Isso não é paranoia, ou “terrorismo”. Isso já acontece em países desenvolvidos como Suécia e EUA.
Voto em Dilma porque, dentre os três candidatos principais, é aquela cuja política econômica (no sentido amplo) é a mais favorável para a classe trabalhadora. É a perspectiva do “crescimento rico em trabalho” (job-rich growth, como gostam de falar os economistas).
Muitos eleitores talvez sejam novos demais para lembrar, mas não faz muito tempo, o país convivia com altas taxas de desemprego, que vinham acompanhadas de rebaixamento de salários, arrocho salarial e um quadro muito desfavorável para as negociações dos trabalhadores. Na Região Metropolitana de São Paulo, o desemprego total, medido pelo DIEESE, chegou a 20,2% em abril de 2002. Sob Dilma, essa taxa chegou a um dígito, as mais baixas já registradas desde 1985, quando a medição começou. No plano nacional, o país alcançou, com Dilma, a menor taxa de desemprego já registrado na história do país. Isso sob um contexto da maior crise econômica internacional desde 1929.
Voto em Dilma porque seu projeto tem na valorização do poder de compra dos assalariados, dos trabalhadores, um importante motor do crescimento. O nível de inflação, apesar da grita, vem se mantendo dentro do limite da meta por 11 anos seguidos. Sob FHC, o salário mínimo aumentou, em termos reais, cerca de 40%, entre 1994-2002. Sob Lula e Dilma, com uma base de comparação maior, esse aumento foi de cerca de 85% entre 2002-2013. O salário médio vem subindo ano a ano em termos reais.
Voto em Dilma, porque nesse contexto político, a correlação de forças entre capital e trabalho tem sido mais favorável para o trabalho: as negociações dos sindicatos vem resultando em aumentos iguais ou acima da inflação em mais de 90% dos casos. Sob esse contexto favorável, dois importantes marcos jurídicos foram aprovados pelo Congresso: a PEC das Domésticas e a PEC do Trabalho Escravo. Não se trata de “feitos” da presidente, mas são dois marcos que vão ao encontro do espírito do tempo (e dos interesses políticos) da política nacional hoje. Se os países do mundo hoje DESregulam cada vez mais seus respectivos mercados de trabalho em favor de formas de “flexibilizar” (precarizar) o trabalho, sob Dilma, as mudanças que afetam os trabalhadores foram sempre no sentido de REGULAR e proteger o trabalho.
É essa melhoria na renda do trabalho (mais do que o Bolsa Família) que mais impactou a desigualdade. E, se o Bolsa Família é hoje “imexível”, diria Magri, os avanços na renda do trabalho trazidas pela atual política econômica, não são.
Voto em Dilma porque o PT tem os quadros mais capazes para formular, aperfeiçoar e implementar as melhores políticas públicas sociais. Desde o Bolsa Família, que foi incorporado ao inovador (e negligenciado) Brasil Sem Miséria, passando pelo Pronatec e pelos Mais Médicos, este governo deixou marcas no campo das políticas públicas sociais que não podem mais ser apagadas no curto prazo. Voto em Dilma porque nos últimos 12 anos, o gasto social cresceu em termos reais num ritmo significativamente mais rápido que antes – o governo federal triplicou o gasto em Educação, duplicou o gasto em Saúde em termos REAIS. Não há nada de automático nisso: é uma decisão política.
Voto em Dilma porque, sob seu governo, o déficit habitacional caiu 5% entre 2009 e 2012. O programa Minha Casa, Minha Vida ajudou, de maneira incontestável, na redução brutal no número de famílias vivendo em moradias precárias – o déficit deste componente caiu quase 20% entre 2009 e 2012. Há problemas e outros desafios (como o do aluguel e do preço da terra que essa política não dá conta), mas o avanço é inegável. E é preciso seguir avançando.
Voto em Dilma porque foi graças a ELA (aí falando dela pessoalmente) que duas políticas fundamentais demandadas e construídas pela sociedade civil, no campo dos direitos humanos: foi ela que bancou a Comissão Nacional da Verdade e o Marco Civil da Internet. Foram políticas importantes, vitórias da sociedade civil, mas que tiveram apoio decisivo da presidente, desagradando interesses poderosos (militares e teles). Poucos políticos (incluindo dentro do PT) teriam a coragem de criar a CNV.
Voto em Dilma porque ela é favorável à política de conteúdo nacional para a exploração do Prá-Sal. É a política que será estruturante e dinamizadora da reindustrialização no médio prazo. Essa política, assim como o regime de partilha, deve acabar se o governo mudar.
Voto em Dilma porque, ao contrário do que Aécio gosta de repetir, ela não “afugenta investidores”. De fato, com ela, nunca houve tanto investimento – produtivo – na história recente. Sob FHC, o país recebia US$ 1,7 bilhão por mês (incluindo dinheiro para privatizações); sob Lula, a média mensal foi de US$ 2,3 bilhões. Sob Dilma, o país passou a receber, em média, US$ 5,4 bilhões. Isso tem muito a ver com o projeto de inclusão social. É a demanda (mais trabalho, mais renda)que puxa o investimento estrangeiro. Sob Dilma, estamos MENOS vulneráveis a choques externos: nossas reservas internacionais nunca estiveram tão elevadas.
Voto em Dilma porque a política externa é baseada no diálogo e no reforço dos laços regionais, entre emergentes e países do Sul, em detrimento de uma política baseada apenas na abertura comercial e assinatura de tratados bilaterais de livre-comércio. Voto em Dilma porque foi sob seu governo que o país coprotagonizou uma dos maiores mudanças da ordem econômica mundial: a criação do Novo Banco de Desenvolvimento (Banco dos BRICS) e de um fundo de reservas do bloco.
Voto em Dilma porque seu projeto é o melhor para que o Brasil retome o crescimento. A crise econômica internacional atingiu seu ponto mais agudo no país em 2009. Graças às políticas defendidas por esse governo, o país superou esse momento difícil já em 2010. Agora, na fase “crônica” da crise internacional, apenas uma concepção de política econômica que tem no Estado um agente indutor do desenvolvimento seria capaz de retomar o crescimento.
A direita gosta de dizer que “o modelo se esgotou”. Não concordo. O CICLO de crescimento, iniciado em 2004, pode ter se esgotado, em 2011. Independentemente de quem vença, um novo ciclo de crescimento deve ser iniciado no 2º semestre de 2015, com a melhoria do cenário externo, com a maturação das obras de infraestrutura do PAC 2, do investimento estrangeiro e com o avanço na extração de petróleo do Pré-Sal.
Essas eleições serão decisivas para determinar se esse novo ciclo de crescimento será inclusivo, com redução da pobreza e da desigualdade, ou se será o ciclo do aumento da desigualdade, do arrocho e da precarização. São caminhos que não estão fadados ser trilhados, nem para um lado, nem para o outro.
O país não pode se dar ao luxo de mudar para pior, de voltar ao neoliberalismo. Eleger Dilma é dar um voto de confiança em um projeto que trouxe benefícios históricos para o país, em especial para os mais pobres e para a classe trabalhadora, e que ainda tem muito a contribuir para avançar nessas mudanças por um país mais inclusivo e com mais justiça social.
Por isso, meu voto para presidente é em Dilma Rousseff 13.


