Javier Milei toma posse como novo presidente da Argentina

O sucesso do governo Milei pode ser propulsor de uma onda à direita no continente

O presidente eleito na eleição presidencial da Argentina, realizada em segundo turno no dia 19 de novembro de 2023, Javier Milei tomou posse hoje, dia 10 de dezembro de 2023, para um mandato de 4 anos. Milei surpreendeu ao vencer as prévias (PASO) em agosto, terminou o primeiro turno em outubro em segundo lugar atrás do candidato e atual ministo da Economia Sergio Massa. No segundo turno, Milei venceu Massa por 56% a 44% dos votos.

Com seu jeito diferente e linguajar fora da política tradicional, o liberal-libertário Javier Milei convenceu os argentinos que era a hora de mudar, de tentar algo novo fora do peronismo/kirchnerismo ou de uma direita/centro-direita tradicional. Mas Milei precisou se aliar justamente com a direita tradicional para vencer a eleição. O apoio da terceira colocada Patricia Bullrich e do ex-presidente Mauricio Macri foi fundamental para a consagradora vitória de Milei.

Agora vem a parte mais complicada que é administrar um país quebrado, com inflação anual na casa dos três dígitos, a pobreza assolando quase metade da população, um país viciado em subsídios e sindicalizado. O novo presidente tem uma tarefa árdua que é fazer mudanças drásticas sem pensar em popularidade e reeleição, porque o que a Argentina precisa é de uma ruptura com um modelo econômico fracassado.

Macri fracassou porque lhe faltou ousadia. Tentou fazer mudanças graduais. O gradualismo não tirou a Argentina da crise. Milei sabe disso e em seu discurso alertou: “Hoje começa uma nova era na Argentina. Hoje terminamos com uma história de decadência e damos início à reconstrução do nosso país (…) Nenhum governo recebeu uma herança tão maldita do que a que estamos recebendo (…) ideias empobrecedoras do coletivismo adotadas pelos ex-presidentes. Insistem há mais de cem anos na defesa de um modelo que só produz pobreza. (…) Não há espaço para discussão entre o impacto [do ajuste] e gradualismo (…) É a última bebida amarga para iniciarmos a reconstrução da Argentina”.

O povo argentino vai precisar ser paciente porque mudanças bruscas não se fazem sem turbulências. A bebida amarga que o presidente empossado diz é necessária para curar o país que está em crise há décadas. Se a popularidade de Milei resistir aos primeiros anos que serão conturbados, vai precisar costurar uma base de apoio no Congresso para implementar suas ideias, além de medidas impopulares sem necessidade de aprovação no Parlamento, aí sim pode pensar na reeleição.

Mas Milei precisa pensar primeiro em curar o paciente mesmo que isso lhe custe um grande pedaço da sua popularidade em um período curto. Parece que ele tem isso como compromisso com a nação argentina. Se fazer o ajuste fiscal que precisa ser feito, aprovar no Congresso reformas e sua popularidade não cair muito nos dois primeiros anos, nos dois anos finais já pode surfar em resultados positivos na economia.

O sucesso do governo Milei pode ser propulsor de uma onda à direita no continente. O presidente brasileiro sabe disso e por isso se engajou na campanha derrotada. Lula não estava muito preocupado com o Mercosul – acredito que sobre o bloco Milei não vai retirar a Argentina dele, mas tomar novos rumos até porque juntando Argentina, Paraguai e Uruguai forma-se maioria -, mas com a “frente fria” vinda do país vizinho que pode influenciar já nas eleições municipais de 2024 e na presidencial de 2026.

Para a eleição argentina influenciar na eleição brasileira de 2026, porém, vai depender de como estará nossos hermanos até lá e como estará o Brasil.

Polarização entre extremos

isa penna

Mais um capítulo do Brasil polarizado nos extremos foi visto na Assembleia Legislativa de São Paulo. A deputada estadual Isa Penna (PSOL) subiu à tribuna na discussão de um projeto de lei que pretende estabelecer critério biológico para jogadoras de esportes, já batizada de “Lei Tiffany“. Isa leu da tribuna o poema “sou puta, sou mulher“, de Helena Ferreira, com palavras que ferem o decoro que o cargo exige.

Foi suficiente para o outro lado do extremo ficar em ebulição e já avisou que entrará no conselho de ética da ALESP pedindo a cassação do mandato da deputada. A deputada realmente ultrapassou o seu direito de expressão ao proferir palavras de baixo calão no Parlamento paulista, mas não acho que seja motivo para cassação. Acredito que ela fez justamente pelo alvoroço que geraria na mídia atraindo atenção para o projeto de lei em discussão, e, claro, uma chuva de likes e de seguidores para ela no seu lado da guerra virtual ideológica.

Segue um extremo alimentando o outro. É a esquerda identitária dando substância para a direita reacionária e moralista, o contrário também. Polarização não é um mal que precisa ser enfrentado. A polarização é importante para o debate político-ideológico, é imperativo para a própria democracia. O problema na polarização está quando ocorre entre extremos que encolhe o centro e não é o “centrão fisiológico”, mas convivência com múltiplas ideias, diálogo com quem pensa diferente e a busca por consensos. É pegar o que é bom na direita e o que é bom na esquerda, fugindo de bolhas fechadas.

A esquerda se acha protetora das minorias; a direita se acha guardiã da família tradicional e dos bons costumes; um lado precisa do outro.

Teoria da ferradura

Quem usa um grupo minoritário pedindo fechamento do Congresso, STF e intervenção militar para deslegitimar as manifestações de direita normaliza agressão verbal e até física a jornalistas nas manifestações de esquerda. É o “dois pesos e duas medidas”. Pior: distorcem palavras para acusar os outros daquilo que as palavras distorcidas representam. Radicalismos de direita e esquerda acabam se encontrando na famosa teoria da ferradura.

Mas o pior nem é o radicalismo de um ou de outro campo ideológico. O prior é a esquerda que finge não ser radical. Não finge ou acha que não é radical, que seu radicalismo é normal e necessário para combater os inimigos.

No segundo dia de manifestações contra o contingenciamento do MEC – que, aliás, ficou abaixo do das de 15/05, ficar convocando manifestação uma atrás da outra acaba tirando gás das mesmas -, que mais uma vez foram usadas para defender a liberdade de Lula, contra a reforma da Previdência, contra o presidente Bolsonaro e seu governo. Um jornalista da rádio Jovem Pan foi cobrir a manifestação em São Paulo e foi insultado de “fascista” quando fazia seu trabalho. No Twitter, teve quem justificasse alegando que era uma estratégia do grupo de mídia para acontecer justamente isso e teve quem aplaudiu o linchamento.

O debate político brasileiro está toxicado por causa da polarização que os dois lados não querem afrouxar porque se alimentam dela. Pedidos de fechamento do Congresso é tão autoritário quanto bradar que Lula é um preso político, porque ambos são desrespeito às instituições. Lula foi condenado em três instâncias, teve e continua tendo amplo direito de defesa. E sua prisão já passou por avaliação de duas dezenas de juízes diferentes. Agredir um repórter que está fazendo o seu trabalho por não gostar da linha editorial da empresa dos patrões dele é que representa o fascismo.

“Os infiltrados”

Direita e esquerda precisam de uma militância acesa pronta para os combates ideológicos e criam inimigos

olavo-eduardo-bannon

A deterioração da política avançou nos últimos anos. Pontes foram destruídas e o diálogo foi substituído por uma guerra ideológica que o vencedor não é conhecido com argumentos, mas por quem “lacra” ou “mita” por último. A conflagração das redes sociais já transbordou para o mundo real. E o pior é que tem gente que deseja esticar mais a corda da conflagração da discórdia, da intolerância, da falta de diálogo com quem pensa diferente.

Direita e esquerda precisam de uma militância acesa pronta para os combates ideológicos e criam inimigos, muitas vezes imaginários. Listarei dois exemplos atuais – um de cada lado – de como os extremos buscam inimigos até no seu próprio campo de batalha.

Todo mundo já está cansado de saber que o governo do presidente Bolsonaro é composto por quatro núcleos centrais: militares, olavistas, liberais e lavajatistas. O grupo dos militares disputa com o chamado de grupo ideológico (olavistas) quem manda nas diretrizes do governo. O grupo dos liberais está focado em resolver os problemas na economia e dos lavajatistas, fortalecer a lava jato.

Em mais um capítulo da guerra do pessoal da caserna contra o grupo do falastrão que não mora no Brasil, Carlos Bolsonaro, 02, resolveu engrossar a artilharia de Olavo de Carvalho contra os militares e em especial contra o vice-presidente Hamilton Mourão. Eduardo Bolsonaro, 03, apoia o irmão e o “guru astrólogo”. Deputado/Pastor Marco Feliciano (Podemos/SP) foi lamber as botas do Jim Jones da Virgínia e veio com exótico impeachment do vice-presidente o acusando de conspirar contra o presidente -pasmem!- por um like que ele deu em um tuíte de uma jornalista elogiando o vice e criticando o presidente. Não enxergam que essa batalha asfixia e paralisa o governo, que faz sangrar a popularidade do pai deles. Nada importa. Há algo maior em jogo, um projeto de poder revolucionário inspirado por um extremista que nem Donald Trump aguentou por mais que seis meses, Steve Bannon.

Já no campo progressista, a disputa também é por hegemonia. A esquerda, vamos dizer, mais marxista não gosta de concorrência e acha que a deputada Tabata Amaral (PDT/SP) não é esquerda “de verdade”, porque teve estudos bancados por um empresário bilionário filantropo. Tabata, na visão pequena e estúpida desse pessoal, seria um “cavalo de troia” da direita.

Para completar a bizarrice, a deputada precisou vir a público explicar uma foto com o governador de São Paulo João Doria, o estado natural e que a deputada representa em Brasília.

Em sua coluna para Folha de S.Paulo, antes do encontro com o governador, Tabata Amaral explicou didaticamente o que é articulação política. Defensora que só com com consensos entre diversas linhas de pensamento que vamos romper essa polarização insana alimentada tanto pela direita quanto pela esquerda, mostrou em poucas linhas o que é a boa política, sem essa de “nova” e “velha”, e ainda deu uma aula sobre o tema ao presidente da República.

Não é que a polarização seja ruim. Só em tiranias que não existe debate de ideias e só existe uma ideologia única. A polarização, porém, não pode destruir pontes e o diálogo.

A direita reacionária trata Mourão como inimigo infiltrado; a esquerda marxista trata Tabata como infiltrada. E o Brasil, que se exploda com seus reais, crônicos e urgentes problemas.

Menos planilha, mais sensibilidade

Um mantra que se popularizou diz que quem é mais para direita do espectro político é insensível e tem uma pedra no lugar do coração. Por outro lado, quem é mais para o lado esquerdo não tem inteligência. Outro é que se você não foi esquerdista até os 20 anos, não tem coração; se é esquerdista depois dos 30, não tem cérebro. Todos são caricaturas.

Enquanto a direita levanta a bandeira da meritocracia, de menos estado, de menos intervenção governamental e acha assistência social demagogia, a esquerda abraça a justiça social e os desvalidos. Por outro lado, a esquerda acha que justiça social é tirar a riqueza dos ricos e entregar aos pobres nivelando todos pela pobreza, além de desconsiderar a matemática mais básica.

Tudo isso para dizer que enquanto economistas fazem discursos decorebas, textos e artigos cheios de gráficos, números de um economês chato e difícil de ser assimilado pelo cidadão médio para explicar a reforma na Previdência, os contrários apelam para a sensibilidade e linguagem popular de fácil assimilação.

Por exemplo, um jingle (abaixo) produzido para manifestações contra a reforma é uma aula de como vencer uma narrativa. Obviamente, há muita mentira e meias verdades no jingle, o que não impede de chegar nas mentes populares facilmente. A música e o ritmo popular, a letra simples com clichês cativam. Esse cenário não vai mudar enquanto um lado ficar nos gráficos e discurso chato. É preciso falar a linguagem do povo pés descalços e mãos calejadas; do chão de fábrica, do cidadão comum que luta pela sobrevivência todos os dias.