Falsa dicotomia

Está sendo discutido no Congresso Nacional projeto de lei para criminalizar a misoginia, o ódio às mulheres. Pronto, já vem um monte de políticos, influenciadores e religiosos para atacar o projeto acusando de ser uma mordaça, um projeto para censurar a internet e até igrejas.

Vira aquela dicotomia falsa de defensores da liberdade e censores. A defesa da liberdade de expressão acaba sendo usada por quem quer ser livre para propagar opiniões que não são opiniões, mas discursos de ódio contra negros, homossexuais, mulheres e outros grupos da sociedade, como para praticar ações que alimentam a violência contra as mulheres que vem em uma escalada assustadora.

Ninguém vai perder a liberdade de se expressar na internet ou em qualquer lugar, a não ser se for da turma red pill. Se você for dessa turma de machos, repense as suas ideias.

O jurista defensor de delinquentes

A partir da última década os brasileiros passaram a se interessar mais por política e até sobre decisões judiciais. Os ministros do STF são mais conhecidos pela população do que os atuais jogadores da seleção brasileira.

Isso se deve ao surgimento das redes sociais que aproximaram a população da política, da operação Lava Jato que fez recrudescer o surgimento antipolítica o que parece uma contradição, fez a política mais popular ao mais tempo que cresceu o ódio aos políticos. E também juristas e mais juristas para referendar decisões judiciais ou criticar dependendo do gosto de cada um.

André Marsiglia é advogado e atuante nas redes. Vive em podcasts e dando entrevistas. É um crítico dos ministros do STF e de suas decisões que as chama de ilegais e inconstitucionais. É um ardoroso defensor da liberdade de expressão e considera que ela está sendo enterrada pelo STF no Brasil.

Marsiglia não passa de um legitimador de delinquentes que usam as redes para atacar, formular teorias conspiratórias, mentir e desestabilizar instituições com o propósito político. Ele é um daqueles que pensam que a primeira emenda da Constituição americano garantindo plena liberdade de expressão é válida mundialmente.

Apesar de concordar que os ministros do STF ultrapassam suas funções em muitos casos, Marsiglia insufla seu público contra autoridades para deslegitimar suas decisões.

Javier Milei toma posse como novo presidente da Argentina

O sucesso do governo Milei pode ser propulsor de uma onda à direita no continente

O presidente eleito na eleição presidencial da Argentina, realizada em segundo turno no dia 19 de novembro de 2023, Javier Milei tomou posse hoje, dia 10 de dezembro de 2023, para um mandato de 4 anos. Milei surpreendeu ao vencer as prévias (PASO) em agosto, terminou o primeiro turno em outubro em segundo lugar atrás do candidato e atual ministo da Economia Sergio Massa. No segundo turno, Milei venceu Massa por 56% a 44% dos votos.

Com seu jeito diferente e linguajar fora da política tradicional, o liberal-libertário Javier Milei convenceu os argentinos que era a hora de mudar, de tentar algo novo fora do peronismo/kirchnerismo ou de uma direita/centro-direita tradicional. Mas Milei precisou se aliar justamente com a direita tradicional para vencer a eleição. O apoio da terceira colocada Patricia Bullrich e do ex-presidente Mauricio Macri foi fundamental para a consagradora vitória de Milei.

Agora vem a parte mais complicada que é administrar um país quebrado, com inflação anual na casa dos três dígitos, a pobreza assolando quase metade da população, um país viciado em subsídios e sindicalizado. O novo presidente tem uma tarefa árdua que é fazer mudanças drásticas sem pensar em popularidade e reeleição, porque o que a Argentina precisa é de uma ruptura com um modelo econômico fracassado.

Macri fracassou porque lhe faltou ousadia. Tentou fazer mudanças graduais. O gradualismo não tirou a Argentina da crise. Milei sabe disso e em seu discurso alertou: “Hoje começa uma nova era na Argentina. Hoje terminamos com uma história de decadência e damos início à reconstrução do nosso país (…) Nenhum governo recebeu uma herança tão maldita do que a que estamos recebendo (…) ideias empobrecedoras do coletivismo adotadas pelos ex-presidentes. Insistem há mais de cem anos na defesa de um modelo que só produz pobreza. (…) Não há espaço para discussão entre o impacto [do ajuste] e gradualismo (…) É a última bebida amarga para iniciarmos a reconstrução da Argentina”.

O povo argentino vai precisar ser paciente porque mudanças bruscas não se fazem sem turbulências. A bebida amarga que o presidente empossado diz é necessária para curar o país que está em crise há décadas. Se a popularidade de Milei resistir aos primeiros anos que serão conturbados, vai precisar costurar uma base de apoio no Congresso para implementar suas ideias, além de medidas impopulares sem necessidade de aprovação no Parlamento, aí sim pode pensar na reeleição.

Mas Milei precisa pensar primeiro em curar o paciente mesmo que isso lhe custe um grande pedaço da sua popularidade em um período curto. Parece que ele tem isso como compromisso com a nação argentina. Se fazer o ajuste fiscal que precisa ser feito, aprovar no Congresso reformas e sua popularidade não cair muito nos dois primeiros anos, nos dois anos finais já pode surfar em resultados positivos na economia.

O sucesso do governo Milei pode ser propulsor de uma onda à direita no continente. O presidente brasileiro sabe disso e por isso se engajou na campanha derrotada. Lula não estava muito preocupado com o Mercosul – acredito que sobre o bloco Milei não vai retirar a Argentina dele, mas tomar novos rumos até porque juntando Argentina, Paraguai e Uruguai forma-se maioria -, mas com a “frente fria” vinda do país vizinho que pode influenciar já nas eleições municipais de 2024 e na presidencial de 2026.

Para a eleição argentina influenciar na eleição brasileira de 2026, porém, vai depender de como estará nossos hermanos até lá e como estará o Brasil.

A cruzada moderna dos fundamentalistas

Vivemos tempos estranhos que em pleno 2019 quase 2020 religiosos fundamentalistas encamparam uma verdadeira cruzada contra o que consideram ser anomalias da sociedade

Um especial de fim de ano produzido pelo canal Porta dos Fundos e exibido pela Netflix (A Primeira Tentação de Cristovídeo) deixou religiosos católicos e evangélicos revoltados. Bispos, padres, pastores e, claro, os pastores-deputados chamando os cristãos para boicotar a Netflix, como processar Porta dos Fundos.

Não é novidade o canal provocar a ira de religiosos produzindo esquetes que brincam com o cristianismo. Uns questionam o humor com a fé alheia e os mais fundamentalistas acusam o canal de blasfemar a religião cristã porque os sócios são ateus. E questionam não mexer com Maomé. Mas é fazer uma busca rápida no canal e conferir vários vídeos zoando a religião islâmica. A proporção não é a mesma pelo motivo do Brasil ser um país que a população é 90% cristã e logicamente um vídeo zoando o islã não engaja como um vídeo de humor com católicos e evangélicos.

Mas é justo fazer humor com religião? Não sei se é justo. Cada pessoa sabe da sua religiosidade e pode se sentir ofendida. Depende da pessoa. Eu, por exemplo, não me ofendo. Sou católico não religioso e isso pode refletir no meu sentimento. O que é inconcebível é sair atacando artistas e as empresas ou partindo para censura do conteúdo. Não pode legalmente (Constituição está aí para barrar qualquer tipo de censura) e filosoficamente – aí mais pessoal – acho abjeto.

O humor é para divertir e ser contestador. Para ser um ou outro e até os dois, precisa ser livre – arcando com as consequências quando extrapolar dentro das leis. Os mesmos que criticam o politicamente correto são os primeiros a pegar em pedras quando o humor atinge sua religião. No meu conceito blasfêmia é um pastor quebrar uma santa ao vivo na TV e criticando a cor dela (negra). Mais que blasfêmia, racismo. Blasfêmia é usar a fé das pessoas para construir verdadeiros impérios em nome de Deus e usando os fieis como escada eleitoral.

Vivemos tempos estranhos que em pleno 2019 quase 2020 religiosos fundamentalistas encamparam uma verdadeira cruzada contra o que consideram ser anomalias da sociedade. Tudo em nome de Deus e para preservar o que eles consideram ser a única concepção de família.

Felipe Neto ganhou meu respeito!

Felipe agiu como um cidadão consciente que sabe o senso de responsabilidade que tem como influenciador

Sim, já fui detrator do youtuber Felipe Neto e continuo tendo sérias discordâncias de suas visões políticas, sociais e econômicas. Mas é de tirar o chapéu, aplaudir de pé, reverenciar a sua participação no episódio envolvendo o prefeito Marcelo Crivella e a Bienal do Livro. Não sei se de forma genuína e por convicção, se o comportamento dele de uns anos pra cá seja reposicionamento estratégico de carreira ou oportunismo, o que não importa.

O que importa é que Felipe encarou uma autoridade do Estado brasileiro para defender a nossa liberdade e em defesa de um segmento da sociedade ainda tão marginalizado que enfrenta preconceitos e discriminação. Usou seu poder financeiro e midiático para mobilizar pessoas em defesa da liberdade, de ser o que a pessoa quer ser, ler, ouvir, assistir, ser livre.

Felipe Neto usou seu canhão de popularidade para enfrentar uma violação à Constituição brasileira, a vedação de qualquer tipo de censura. Encarou o prefeito da cidade do Rio de Janeiro que na sua visão fundamentalista confunde um beijo gay em um gibi de super heróis com pornografia. Felipe agiu como um cidadão consciente que sabe o senso de responsabilidade que tem como influenciador e pode influir nos rumos do país contra pequenos gestos que podem ser o ovo da serpente.

Sua voz ecoa pela internet, sua popularidade é enorme e ele viu que pode fazer muito pelo Brasil, ao invés de apenas usar esse poder para ganhar dinheiro. E se ganhar dinheiro com suas ações, junta o útil ao agradável. Felipe Neto ganhou meu respeito com seu senso de cidadania.