Daniel Coelho: “Não podemos generalizar”

O deputado Daniel Coelho (Cidadania/PE) muito solicito com este blog deu uma breve entrevista sobre alguns assuntos na ordem do dia do país.

daniel-cidadania23

A reforma da Previdência passa na Câmara com as mudanças propostas por partidos que tem 90% dos votos necessários para ser aprovada no plenário?

Pode ser aprovada, mas isso depende muito do convencimento da sociedade. Dizer que não precisa convencer o povo, que é só Congresso, é um erro. Todos lutamos para que o Congresso represente a sociedade, os deputados foram eleitos pelo povo, é natural que a opinião de suas bases influenciem no voto. Estamos trabalhando para conscientizar as pessoas da importância da reforma.

Sabe o que realmente deixou o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, revoltado com o governo, foi só os ataques na rede bolsonaristas ou teve algo mais?

Maia tem compromisso com a reforma. Não posso responder por ele, mas sei que é ruim para o Brasil essa briga. Espero este episódio esteja superado.

Como avalia a falta de articulação política do governo Jair Bolsonaro?

Temos que abandonar a velha política. As velhas formas de articular com o toma lá, dá cá. Mas, de forma republicana é possível dialogar, convencer, prestigiar quem defende a reforma com palavras de apoio. Parar de criar conflitos que não constroem nada também faz parte. Temos que buscar soluções para o país.

O que o governo poderia fazer para melhorar a relação com o Congresso sem que o presidente quebre a promessa de campanha de não seguir o modelo tradicional, tem outro modelo?

Ir às ruas, igrejas, universidades, ocupar os espaços na imprensa e rede social defendendo o projeto. Se algum partido ou parlamentar fizer pedidos indecentes, denuncie, mas diga quem foi. Não podemos generalizar. Quando alguém apoiar, elogie. Nunca vi o presidente elogiar e reconhecer o trabalho de alguém que não seja do PSL, por defender a reforma. Nós do Cidadania não queremos cargo, nem vantagens e apoiamos a reforma. O que recebemos em troca foram ataques nas redes sociais vindo de parlamentares do PSL. Não muda nossa opinião, mas claro, não ajuda.

A criminalização da política pelo Judiciário, pelo atual governo, prejudica a democracia representativa?

Os poderes tem que funcionar de forma respeitosa e harmônica. Há erros, corrupção e coisas erradas em todos eles. O caminho para pacificar, é fazer críticas sem generalizar. Claro, respeitar a constituição.

Revolucionários da boleia ameaçam parar o país de novo

O Brasil ainda sente os efeitos da “revolução da boleia” de 2018

paralisacao-protesto-caminhoneiros

Caminhoneiros ameaçam nova paralisação se o governo não resolver os problemas da categoria. Reivindicações são as mesmas da paralisação de meados do ano passado. Reclamam do fim do subsídio do diesel que vigorou de junho a 31 de dezembro de 2018, como parte do acordo com o governo anterior para terminar com a paralisação que deixou o Brasil em um caos semelhante ao que vive a Venezuela e com reflexos na economia. O governo do presidente Michel Temer demorou para agir e quando sentou para negociar com representantes dos caminhoneiros não tinha o que fazer e entregou quase tudo que pediram.

Jair Bolsonaro apoiou as paralisações de 2018 e 2015. Em 2018, inclusive, Gustavo Bebianno chegou a discursar para caminhoneiros parados parabenizando a paralisação e usando em favor de Bolsonaro. Quando os prejuízos para população e o transtorno para o cidadão com consequências catastróficas para o futuro governo, Bolsonaro pediu para os caminhoneiros pensar no país sem deixar de parabenizá-los por “mostrar as entranhas do poder”.

Caminhoneiros também ficaram irritados com a fala do presidente e a tímida resposta para suas demandas. Acharam insuficientes a nova política de preços da Petrobras e o cartão-caminhoneiro, que entendem que já são três meses de governo e Bolsonaro não cumpriu a promessa de campanha de resolver o problema do diesel e a tabela de frete – outra reivindicação aceita pelo governo Temer – não está sendo respeitada. O Brasil ainda sente os efeitos da “revolução da boleia” de 2018, uma nova paralisação seria tão ou mais apocalíptica.

Governo Bolsonaro está para pagar uma conta que o candidato Bolsonaro ajudou a criar. Não sei se o presidente se arrepende de ter apoiado a paralisação dos caminhoneiros, eu me arrependo de ter feito postagens neste blog achando que nossos caminhoneiros estavam ajudando a mudar o país. A paralisação transformou em vilão Pedro Parente, o responsável por reerguer as finanças e credibilidade da Petrobras, derrubou a tímida recuperação da economia e deixou uma bomba armada pronta para explodir. Fora oportunistas encontrando na paralisação a grande chance da vida e virando deputado, como André Janones.

Claro que é preciso olhar com cuidado os problemas de quem leva os produtos e mercadorias para o comércio. A sua importância foi comprovada na paralisação de 10 dias. Resta saber se a convenção ao liberalismo econômico por parte de Jair Bolsonaro personificada em Paulo Guedes é pra valer ou de ocasião e se vai saber desarmar a bomba que ajudou a criar não caindo na tentação do populismo fácil e maléfico.

Grupos duelam quem tem mais força no governo Bolsonaro

O governo Bolsonaro está dividido em vários macros grupos: militar; olavista; liberais; agronegócio; Lava Jato

olavo

O suposto “guru” do presidente Bolsonaro atribuído pela imprensa e negado pelo próprio de que não é, Olavo de Carvalho não está muito feliz com o vice-presidente Hamilton Mourão e com os militares. Olavo anda fazendo duras críticas ao vice-presidente e chegou a teorizar um complô dos militares contra o presidente. Essa conspiração teria a participação até da China.

Olavo é da tese que o impeachment de Dilma foi uma jogada dos políticos para afastar a população das ruas. O filósofo apoiava uma intervenção militar no lugar do impeachment. Também defende que a direita chegou ao poder sem tomar a narrativa cultural e da mídia.

O governo Bolsonaro está dividido em vários macros grupos: militar; olavista; liberais; agronegócio; Lava Jato. Os grupos dos militares e da Lava Jato são os pilares institucionais, quem faz o meio-campo com os outros poderes. Um dos pilares representado pelo Sérgio Moro (Lava Jato) representa o apoio popular ao governo. Já o agronegócio é sustentação política via bancada ruralista e dos liberais, o pilar de apoio do mercado financeiro. Se um pilar ruir, o governo fica capenga e não sei se consegue se manter.

Desde o governo de transição os grupos já vinham se chocando. Paulo Guedes x Onyx Lorenzoni andaram corrigindo um ao outro sobre o melhor modelo e momento para apresentar a reforma da Previdência. Mourão já falou publicamente que o Chanceler Ernesto Araújo (pupilo de Olavo) não tem inteligência para o cargo. Aliás, o vice-presidente, deliberadamente ou não, tenta passar a imagem de ser o avesso do presidente, o que anda desagradando o próprio Jair Bolsonaro ao ponto de não passar o comando para Mourão no período pós-operatório e vai despachar em um gabinete especial montado no hospital Albert Einstein, em São Paulo.

Os militares estão incomodados com o trânsito livre dos filhos do presidente no governo, tanto Eduardo opinando como ministro, como Carlos administrando as redes do pai na internet. A cúpula militar no governo não gosta dessa simbiose filhos do presidente e governo, principalmente após Flávio ser envolvido no caso do COAF-ALERJ.

Vai chegar o momento que os conflitos internos – muitos provocados de fora pra dentro – vão se acentuar e o presidente Bolsonaro vai ter que definir qual grupo predomina em seu governo.

Deixa o homem trabalhar

Jair Bolsonaro foi eleito com quase 60 milhões de votos

bolsonaro-posse

Que a turma da “resistência” não aceitou o resultado do segundo turno de 28 de outubro de 2018, não é novidade. Temos nessa irmandade parte da grande mídia, artistas preocupados com o social liderados por Chico e Caetano, youtubers em busca de fama, intelectuais de esquerda, estes preocupados com a democracia e direitos resolveram ser a “resistência”.

Também eleitores do Alckmin que não se conformaram até hoje do pífio desempenho do seu candidato e assistiram o PSDB desmoronar tendo a pior votação para presidente desde a Constituição de 1988, a bancada no Congresso Nacional diminuir drasticamente, o tucanato só não foi pior graças a João Doria mantendo São Paulo com o partido contra o grão-tucanato e esses eleitores envergonhados.

Se fingem de “isentões” para criticar tudo que vem do governo e o presidente Bolsonaro. Não aceitam o conservadorismo de costumes do novo governo e o jeito popular do presidente, criticam até da mesa de refeições de sua residência particular, criticam tudo e mais um pouco; fazem piada, debocham, ridicularizam suas falas e de alguns ministros. Pegam fala fora de contexto para tripudiar. Maior exemplo é o que fizeram com a Ministra Damares Alves, quando há assuntos mais sérios e urgentes a debater.

Jair Bolsonaro foi eleito com quase 60 milhões de votos, não era o presidente dos sonhos e o mais capacitado para pegar o barco do Brasil em uma tormenta. Mas o outro lado tinha um candidato que banca o intelectual progressista que prometia resgatar a política econômica de Dilma, a mesma que quase afundou o barco.

Alternância de poder é um dos pilares da democracia. A democracia brasileira era capenga por só ter representantes socialistas, comunistas, social-democratas e centristas. Faltava uma direita que não tivesse vergonha de se dizer direitista.

Bolsonaro ocupou esse espaço fazendo o papel de antagonista ao PT, soube explorar o que o PSDB não conseguiu por ter perdido sua identidade quando Lula ascendeu ao governo e rasgou a cartilha revolucionária petista vestindo o figurino da social-democracia.

Faça oposição, exerça seu direito de contestar o poder, mas não com o fígado e com ressentimento.

Quem é governo não pode ser “poliana”

O bolsonarismo institucional está aprendendo, o bolsonarismo “alborghettino” tem que entender ou vai jogar contra o Brasil

foto oficial
O time de ministros do presidente Jair Bolsonaro

A atuação política foi criminalizada nos últimos anos. É verdade que por “méritos” dos próprios políticos envolvidos em diversos escândalos de corrupção e mau uso do dinheiro público. O problema é que foi generalizado o que é crime e o que é a essência da política, da boa política, que é o diálogo, as convergências para atingir um objetivo mútuo de correntes de penamentos diversos. Pejorativamente, a articulação político-partidária foi chamada de toma-lá-dá-cá e criminalizaram até um dos ensinamentos de São Francisco de Assis, o “É dando que se recebe”.

O presidente Jair Bolsonaro usou essa ira da população contra a prática descrita no parágrafo acima para se projetar e seus apoiadores que viraram seus eleitores mais “sangue na boca” transformaram essa raiva contra os políticos contra tudo que vem da “velha política”. Justiça seja feita, não foi só Bolsonaro quem incitou essa fogueira da inquisição, Marina Silva foi quem começou a demonizar a “velha política”, Alvaro Dias turbinou nessa eleição e o Ministério público e ministros do STF institucionalizaram esse dogma. Nem sempre o que vem da “velha política” é ruim e nem tudo que é novo é bom ou ajuda a chegar a um objetivo.

Jair Bolsonaro sabe que precisa de uma base parlamentar grande e sólida ou seu governo não vai sair do lugar ou nem terminar o mandato. Sabe que só dialogar com as bancadas temáticas não adianta para ter força política no Congresso Nacional. Na verdade, quem manda lá são os partidos e seus líderes. Pensando nisso, o PSL resolveu apoiar a candidatura de reeleição do Rodrigo Maia (DEM) em troca de duas comissões importantíssimas na Câmara e um lugar na próxima mesa-diretora no biênio 2019/2020. Alguns eleitores do Bolsonaro estão revoltados e decepcionados porque não gostam do Maia e muito menos essa (e, até hoje, ninguém apresentou um modelo alternativo eficiente) forma de fazer política.

É verdade que o Rodrigo Maia está longe de ser uma grande liderança política e só chegou na presidência da Câmara por um arranjo partidário (veja só…) de quem não queria que o Eduardo Cunha fizesse o sucessor. Maia não é confiável (pergunte a ex-presidente Temer) e é da “velha política”, também implicado em delações e respondendo a inquéritos criminais. Mas, dada a circunstância é o caminho mais seguro para um mínimo de governamentalidade que o novo governo vai precisar se quiser aprovar reformas vitais e projetos caros na agenda do presidente.

No Senado, o presidente do PSL, deputado eleito Luciano Bivar, incentiva o senador eleito Major Olimpio (PSL/SP) a entrar na disputa contra o senador reeleito Renan Calheiros (MDB/AL), que tenta chegar na presidência pela 5ª vez. Deve ser muito provavelmente um “me engana” do tipo “Olha, tentamos com candidato próprio. Agora, é apoiar quem tem mais chance contra quem vocês não querem que vença, mesmo sendo do establishment”.

Chegou a hora de separar as crianças dos homens. Não é possível ser “poliana” quando se está no governo. Com grandes poderes, vêm grande responsabilidade.