Bolsonarismo

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Na “guerra cultural” do bolsonarismo, para se chegar na “revolução cultural conservadora”, existem três grupos de inimigos no caminho: globalismo, imprensa e a elite política “corrupta”. Globalismo são organismos internacionais (exemplo: ONU) que pretendem acabar com a soberania de países por meio de ONGs internacionais e nacionais que são braços do comunismo. A imprensa seria aliada do globalismo por ter jornalistas militantes de esquerda. Já a classe política “corrupta”, quem não está alinhado com a revolução precisa ser aniquilado. Para isso, a ala anti-establishment aliou-se ao “Partido da Polícia” formado por membros do Ministério Público e juízes que querem formar uma nova elite política e manter privilégios do Judiciário.

Na guerra cultural ONGs de proteção ao meio-ambiente são inimigas. O presidente queria fundir o Ministério do Meio Ambiente com o da Agricultura, teve que recuar após forte repercussão negativa internacional. Mas indicou um ministro antiecológico, Ricardo Salles. Salles está desmontando toda a política de proteção ambiental desde a constituinte de 1988. E não, ser antiecológico não significa ser aliado do produtor rural e do agronegócio. Com o meio-ambiente devastado todos perdem e o produtor rural também. O mundo está cada vez conectado com a sustentabilidade e o Brasil pode ser punido se começar a afrouxar muito a proteção ao meio-ambiente, o agronegócio é quem sofreria como consequência. É possível ser a favor do agronegócio, criticar o radicalismo de ecologistas e não ser antiecológico.

Outra frente de batalha é com a acadêmia. Olavo culpa os militares de ter deixado a esquerda dominar a cultura e a imprensa. O contingenciamento no orçamento do MEC afetou em cheio universidades e IFs. A medida foi para o governo não descumprir a regra de ouro e não cair no crime de responsabilidade. Para se ter ideia, o governo precisa que o Congresso autorize crédito suplementar no valor de quase 250 bilhões para não faltar dinheiro já em julho. O contingenciamento do MEC foi um dos menores. Mas a forma e a comunicação errática deixaram a impressão que os cortes são, na verdade, uma revanche contra universidades que na campanha fizeram eventos contra o então candidato Jair Bolsonaro e trocar uma doutrina por outra.

Sou da filosofia de que os governos devem priorizar o ensino básico e deixar o superior com o livre mercado – mas com regulação e ajuda do governo. Do jeito que está sendo proposto pelo governo, sem um plano consistente para a educação básica, só está bagunçando o que já é uma bagunça.

Enquanto o bolsonarismo está na “guerra cultural” com os filhos do presidente de líderes e Olavo de Carvalho como mentor intelectual, o Brasil real sofre com desemprego, recessão econômica, reformas por fazer, uma articulação política amadora e desastrosa. Para completar, a inflação volta a ameaçar. O índice em abril subiu 0,57%, muito próximo de abril de 2016, marcado por turbulências políticas e o impeachment. Fechou os últimos 12 meses em 4,94%, mais próximo do teto da meta do BACEN (6,50%) do que no centro (4,25%). Quase 5% de inflação. Ainda está longe dos 10% de 2015, mas em um país assustado pelo passado crônico da hiperinflação qualquer resquício de “febre” assusta.

A prioridade é vetar comercial do Banco Brasil e facilitar o acesso de armas de fogo para a população por decretos, ultrapassando limites constitucionais dentro dos mesmos. O decreto que liberou geral o porte de arma para mais categorias pode atingir quase 20 milhões de pessoas e até autorização para crianças atirar em clubes de tiro.

Há tempo para o presidente Jair Bolsonaro corrigir a rota de seu governo. Precisa, porém, se livrar dessa figura nefasta que é Olavo de Carvalho e conter o ímpeto dos filhos, principalmente Eduardo, que seu desejo por poder transparece e parece não ter limite. Só que o presidente parece “refém” da agenda do grupo anti-establishment, um grupo que não tem 20% do eleitorado que o elegeu.

Vitória na CCJ foi possível graças à articulação política

Depois de dias de embates, protelação provocada pela oposição e pela bateção de cabeça dos líderes do governo, a CCJ da Câmara aprovou o relatório do deputado Marcelo Freitas (PSL/MG), encaminhando a reforma da Previdência para uma comissão especial ainda por instaurar.

Com 48 votos favoráveis, essa etapa de admissibilidade demorou mais do que o esperado e normal. E só teve esse final com essa diferença de 30 votos porque o governo resolveu fazer política. Não foi a “nova política” ou a “nova era” e lives no Youtube e Facebook. Foi articulação que o presidente e sua militância aguerrida tanto criminaliza generalizando o toma-lá-dá-cá e corrupção a atividade normal da política e relacionamento entre o executivo e legislativo.

A etapa na CCJ da Câmara foi superada com o acordo do governo com o “centrão”. Mas vai precisar de muito mais conversa e articulação política para a reforma passar pela comissão especial sem ser muito retalhada. Alguns pontos da reforma terão que ser cedidos e para manter preservados os que formam a espinha dorsal da reforma, o governo terá que compartilhar o poder com aliados e atrair mais aliados.

Chegou o momento da onça beber água. Se a oposição já usou todas as armas que estavam ao seu alcance apenas na admissibilidade, na comissão especial será guerra e ganhará o reforço de sindicatos e corporações. Perfumarias e intrigas terão que ficar de lado para o êxito da reforma que selará o destino do governo e do futuro do país.

Com Bolsonaro, propaganda institucional aumenta e Record é privilegiada

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Levantamento feito pelo portal UOL mostra um crescimento na verba de publicidade institucional do governo federal sob gestão da presidência de Jair Bolsonaro (PSL) em relação ao governo de Michel Temer (MDB). Os dados são do primeiro trimestre dos últimos três anos.

Comparando com o que recebeu cada uma das três principais redes de TV nos períodos, Record e SBT  passaram a receber muito mais do que receberam do governo anterior. Apesar  do volume destinado para Globo ficar em patamares similares, a emissora teve pequeno acréscimo em relação ao primeiro trimestre de 2018. Bolsonaro tinha falado que mexeria na distribuição da verba de publicidade para deixar mais equilibrada.

O que aconteceu, porém, foi a Record TV saltando de 1 milhão para 10 milhões só nesse primeiro trimestre de governo. Quebrou o domínio global pelo domínio da TV do Bispo e igualou os valores despendidos entre a TV de Silvio Santos e a emissora carioca. Coincidentemente – ou não -, o presidente vem privilegiando Record e SBT retribuindo a boa relação que teve com as emissoras na campanha eleitoral enquanto mantém o confronto velado e, às vezes, nem tão velado com o Grupo Globo.

O correto seria acabar com a propaganda institucional, ressalvando campanhas de utilidade pública. Ou reduzir e deixar mais igual a distribuição, o que Bolsonaro fez foi aumentar a verba da propaganda institucional até da Globo.

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População não aprova uma reforma ampla na Previdência

O brasileiro até aceita uma reforma no sistema previdenciário, desde que só no setor público privilegiado

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A pesquisa Datafolha sobre a reforma da Previdência, divulgada hoje, não é tão ruim quanto parece. Houve uma queda na resistência de uma reforma no sistema previdenciário, mas a maioria ainda é contra e não aprova a proposta enviada pelo Ministério da Economia do governo Jair Bolsonaro (PSL).

Observando com atenção a pesquisa se verifica que a população não está radicalmente contra uma reforma e a maioria que é contra não está bem informada sobre a reforma sendo debatida no Congresso Nacional. A comunicação do governo sobre a reforma está perdendo para a narrativa da oposição.

No total geral, 50% da população está contra a reforma apresentada; 41%, a favor; 9%, indiferente/não sabe.

Se olhar os pontos específicos, o apoio cresce exponencialmente. O problema é que a maioria ainda não aceita o pilar da reforma, que é uma idade mínima para se aposentar, principalmente a idade mínima para as mulheres, que também são a maior resistência à reforma. É rejeitado também ter que contribuir por 40 anos para receber a aposentadoria integral e diminuir o valor da pensão por morte.

Em compensação, aprovação recorde para a proposta de aumento de alíquota para servidores públicos que ganham muito e a favor da equidade entre funcionários do setor público e privado. Não deixa de ser uma vitória contra corporações da elite do setor público. Mas a maioria ainda é contra mexer nas corporações dos serviços públicos essenciais – policiais, professores, etc. E contra mexer na aposentadoria rural.

Como já era previsível, não caiu bem a reforma dos militares em separada e acompanhada de reestruturação de carreira (para 53% os militares deveriam estar nas mesmas regras).

Para resumir a pesquisa, o brasileiro até aceita uma reforma no sistema previdenciário, desde que só no setor público privilegiado e a proposta elaborada pela equipe do ministro Paulo Guedes para ter 1 trilhão de economia em 10 anos mexe com toda a estrutura do atual sistema – Regime Geral, Próprio, Rural e no Benefício de Prestação Continuada. Vai precisar de muita negociação para ser aprovada. Se ficar no “não negocio cargos” e articulação política é sinônimo de corrupção, não aprova reforma alguma e não só o governo como o país vai entrar em um estado de crise ainda pior.

A escolha de Bolsonaro

Está nas mãos do presidente escolher o destino do seu mandato outorgado por quase 60 milhões de brasileiros, se vai continuar no palanque e sangrando ou vai governar de fato

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Datafolha realizou a pesquisa dos 100 dias do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL), que venceu a disputa eleitoral porque atraiu eleitores de centro-direita e até de centro por uma série de fatores, o seu governo ainda mantém boa parcela dessa confiança. Só que esse contingente de eleitores que catapultou a candidatura de um deputado de baixo clero com 8 segundos na TV não seria fiel nem nos primeiros meses, este eleitor de centro anda zangado com o rumo do governo e desesperançoso.

Além disso, o amadorismo do governo tanto administrativamente quanto politicamente irrita, conflitos internos e externos agravam a situação; Bolsonaro está passando por uma desconstrução pesada diária na internet e na grande mídia, o presidente no lugar de conter danos ajuda seus adversários dando “caneladas” via imprensa e rede social, sem contar as lambaças dos filhos.

Mesmo com esse quadro, há espaço para o presidente recuperar popularidade, mas vai depender do caminho que ele escolherá a partir de agora e será sem volta.

Primeiro passo é começar a produzir pautas positivas de impacto direto na população em curto prazo, um pacote econômico que estimule a economia de forma rápida sem que comprometa o já enorme déficit fiscal, porque não adianta focar só em reformas – essenciais, sem dúvida, não só para o governo como para o país – e deixar que pautas negativas inundam o noticiário. O 13º do Bolsa Família é um início e precisa ser amplificado ao máximo até chegar principalmente no Nordeste.

O único ministério que está produzindo notícias positivas, não só perspectivas ou desgaste, graças as concessões de aeroportos, portos, rodovias, ferrovias, é o de Infraestrutura do ministro Tarcísio Gomes de Freitas, que herdou um cronograma engatilhado do governo de Michel Temer.

Mas a principal medida é arrumar o governo por dentro. É urgente formar uma base e deixar de voluntarismo no Congresso Nacional. É hora de intensificar as conversas com líderes de partidos chamados pelo bolsonarismo de “velha política” para formar uma base que aprove a reforma da Previdência, não precisa ser a íntegra da reforma que o atual governo mandou. Passou da hora de deixar o discurso da campanha de lado e abraçar o mundo real da política que salvará este governo.

Não é confortável fazer trocar de ministros em pouco tempo de governo. No entanto, se tornou imperativo uma reforma ministerial começando pelo Ricardo Vélez Rodríguez. A bagunça que se instalou no MEC já afeta políticas públicas do ministério de maior verba, por exemplo. A crise gerencial em um ministério tão importante e maior visibilidade corrói a popularidade do presidente. E está longe de ser caso isolado. Outro ministro que precisa passar pela lâmina é o do Turismo, o dono do “laranjal” do PSL mineiro, Marcelo Alvaro Antônio.

Perder popularidade não é o problema, um estadista escolhe sacrificar a sua para deixar um legado, o que não é o caso de Jair Bolsonaro perdendo o seu cacife eleitoral, a grande maioria não votou nele por guerra ideológica, para preservar uma base que sozinha não o elegeria para o cargo que ocupa. É barulhenta nas redes e inútil fora delas. Está nas mãos do presidente escolher o destino do seu mandato outorgado por quase 60 milhões de brasileiros, se vai continuar no palanque e sangrando ou vai governar de fato.

Vale a máxima: O Poder não aceita vácuo.