Em Fortaleza/CE a disputa foi até as últimas urnas. Evandro Leitão (PT) obteve 716.133 votos (50,38%) e André Fernandes (PL) terminou com 705.295 votos (49,62%), uma diferença de 10.838 votos em um universo de milhões.
É a consagração do grupo político do ministro Camilo Santana, que além do governo do estado, vários prefeitos do interior sob seu domínio, passa a ter a capital que estava com o ex-aliado PDT.
André Fernandes sai gigante dessa eleição. Disputou praticamente sozinho contra o grupo dominante do estado, o governo federal, prefeitos do interior, lideranças locais e regionais que foram até Fortaleza fazer campanha para o Leitão. No fogo cruzado entre PT e PDT se enfiou no meio arrastando mais de 40% no primeiro turno e terminando com 0,76% atrás do eleito.
André é novo e tem muitas eleições para disputar. Volta para Câmara dos Deputados com um cacife político respeitável, podendo influenciar nas articulações para as eleições de 2026 no estado. Fica a frustração de chegar tão perto e não levar, mas eleição é assim: perde hoje, ganha amanhã.
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22 contra o neocoronelismo
Na eleição em Fortaleza está em jogo o futuro da democracia
Próximo domingo, dia 27, a população de Fortaleza tem uma missão: não eleger Evandro Leitão (PT), o neopetista recém chegado, prefeito da capital do Ceará. E por quê? Fortaleza é o último reduto que falta para o partido fechar o domínio absoluto no estado.
O PT já tem o governo do estado e quase a totalidade das prefeituras do interior. Só falta Fortaleza para a hegemonia ser completa. Quem manda no PT/CE e na política cearense como um todo é o ministro da educação, senador licenciado e ex-governador Camilo Santana.
A capital já era administrada pela esquerda do PDT, ex-aliado do PT. Ao romper a aliança em 2022, o PT e o grupo de Ciro Gomes entraram em choque. O governo de Elmano de Freitas e a prefeitura comandada por José Sarto não se entenderam. Ficaram um jogando responsabilidades de várias áreas para o outro. Ciro Gomes, ex-aliado de Camilo, faz duras acusações ao governo de Elmano e ao Camilo, que é o avalizador e manda-chuva do grupo político que manda na política cearaense atualmente.
Ciro acusa Camilo de querer implantar uma ditadura no Ceará. No sentido clássico, não acho que cabe a palavra ditadura. Mas é fato que Camilo age atualmente como um coronel das antigas, sua palavra e decisões são como se fosse do Papa.
O estado ter a hegemonia de um partido que sufoca oposição não é democrático. É por isso que a vitória de André Fernandes (PL), que tem seus problemas e um passado não tão distante extremista, é fundamental para ter oposição não só figurativa.
O André é jovem, parece ter vontade de mostrar trabalho e tentar resolver ou minimizar os problemas de Fortaleza. Romper com 30 anos ou mais de domínio de uma classe política que entra e sai governo não resolve. Vamos dar uma chance a ele que foi o deputado estadual (2018) e federal (2022) mais votado no Ceará.
Fortalezenses, não permitam que a cultura do coronelismo ou neocoronelismo saia vencedora. Deixar o PT ser hegemônico no Ceará não é saudável para a democracia nem para o estado em questão de administração de políticas públicas.
A narrativa do PT não colou
A narrativa de que o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, faz uso político do cargo para sabotar a economia e prejudicar o governo do PT cai por terra.
Pesquisa Quaest anota que mais da metade da população acha que o presidente do BC usa critérios técnicos na condução da preservação da moeda brasileira.
Por outro lado, 66% concordam com as críticas do presidente Lula a taxa Selic que está em 10,50%. Mas a maioria da população entende que a culpa não é de Campos Neto.
O povo sabe que os juros são altos porque é o remédio amargo para segurar a inflação. O governo gasta além da conta e não quer que os juros subam.
Para os juros caíram é necessário que as contas públicas estejam saudáveis, o que não se observa agora nem no horizonte. Teve déficit em 2023 e, provavelmente, não vai ter déficit zero prometido pelo ministro da Fazenda Fermando Haddad nem com o prometido corte de gastos.
No passado recente uma condução subserviente do BC ao governo Dilma os juros caíram e a inflação chegou a dois dígitos. Não se baixa os juros por vontade do chefe do Planalto. Para isso é preciso fazer o dever de casa e não se descuidar da rigidez do orçamento.
A autonomia do BC veio em boa hora, mas o mandato de Campos Neto vai terminar em dezembro de 2024 e Lula vai poder indicar um presidente seu.
Não gastar mais do que arrecada é da vontade política e Lula não quer sacrificar o investimento público para fazer superávit. Quer o estado indutor da economia e socorrendo os mais pobres. Mas arrombar as contas públicas acaba no fim por prejudicar a economia e os mais pobres.
Haddad e suas batalhas
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, está prometendo judicializar se o presidente do Congresso devolver a MP da reoneração da folha; governo vetando o cronograma de emendas parlamentares aprovado pelo Congresso na LDO. Este governo não está sabendo lidar com um Congresso autônomo e com viés contrário ao dele.
O presidente Lula (PT) foi eleito sem maioria no parlamento e achava que governaria como nos outros governos seus: na base da troca de cargos. Mas esse Congresso é diferente e não aceita diminuir seu poder em troca de cargos. O governo não pode segurar emendas que são impositivas para ir liberando quando quiser e convém.
Este é um Congresso Nacional de viés conservador e reformista. Claro que aceita negociar cargos em troca de apoio a pautas do governo, mas não se submete a vontades do Executivo. É preciso negociar e gastar muita saliva tantando convencer.
O que Haddad está fazendo ameaçando judicializar uma prerrogativa do Congresso que é devolver uma MP que for flagrantemente inconstitucional e/ou autoritária é prejudicando o governo em outras matérias. E não difere em nada do governo anterior que dizia que não negociaria com o parlamento – depois teve que abrir concessões.
Em outra frente de batalha – essa eu apoio o ministro – Haddad criticou o PT por comemorar resultados bons da economia e criticar a política fiscal do governo. Gleisi Hoffmann e Lindberg Farias defendem uma política fiscal expansionista enquanto Haddad defende déficit fiscal zero em 2024, mas o ministro tenta zerar o déficit pelo lado da receita e nada pelo lado das despesas, cortando gastos supérfluos.
Quem Lula vai ouvir? Por enquanto, o Haddad. Lula tem sensibilidade para escolher o lado que vai render dividendos políticos para ele, mas também já deixou claro que não vai cortar investimentos para chegar ao déficit zero. Ou seja, o presidente não vai abraçar a meta de zerar o déficit como prioritária.
A ingratidão petista
A diferença de 50,9% a 49,1% se deve muito ao eleitorado de Tebet

O PT é o partido do presidente da República eleito. Normal que o partido seja maioria nos ministérios. Mas o partido não pode esquecer que Lula só ganhou por causa da frente ampla que se formou em torno da chapa Lula-Geraldo Alckmin. Marina Silva e, principalmente, Simone Tebet foram essenciais.
Não se esquece de aliados quando você chega ao poder. A diferença mínima no segundo turno entre Lula e Jair Bolsonaro se deve ao apoio total de Tebet. A candidata entrou de corpo e alma na campanha petista no segundo turno.
A diferença de 50,9% a 49,1% se deve muito ao eleitorado de Tebet. Lula teve 48% no primeiro turno e Tebet teve 4%. Dizem que o PT é quem está dificultando e não aceitando um ministério de peso para Simone.
Se for verdade é uma tremenda ingratidão. E em política ingratidão é imperdoável.