Ambição de Moro

Imprensa teve papel importante na construção da lava jato e na popularidade de Moro

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O Congresso Nacional aprovou o pacote chamado anticrime enviado no início do ano pelo ministro de Justiça e Segurança Pública Sergio Moro. Como tinha itens bastante polêmicos o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, levou o projeto para um grupo de trabalho para destrinchar e anexou com outro elaborado por Alexandre de Moraes. Moro e Maia travaram discussões, algumas acaloradas, pela demora da Câmara em analisar o projeto. A prioridade era a reforma da Previdência, mas o ministro queria pressa e pretendia que aprovassem na íntegra.

A Câmara aprovou no apagar das luzes de 2019 e o Senado confirmou o projeto de Moro, sem as suas estrovengas. O problema é que a imprensa noticiou o fato como se o projeto tivesse sido “desidratado” não levando em conta o perigo que representava os pontos expurgados. Alguns órgãos da grande mídia rastejam aos pés do ex-ministro em uma verdadeira adoração por sua figura. A mesma imprensa que critica quase tudo que sai da boca de Jair Bolsonaro aplaude o que Moro diz sem contestação.

Sergio Moro agradeceu os parlamentares pela aprovação do projeto deixando transparente sua irritação com as retiradas de pontos que formavam a sua espinha dorsal. A permissão de prisão em segunda instância; o excludente de ilicitude; a chamada plea bargain, espécie de acordo para o acusado que confessa o crime; e a regra que previa audiência por videoconferência.

Moro tem dificuldade em compreender o processo legislativo de uma democracia, como disse Maia nas trocas de palavras que teve com o ministro. Moro também ficou incomodado pela inclusão de alguns jabutis. Ele recomendará o presidente Bolsonaro a vetar partes do que foi aprovado no Congresso, inclusive o “juiz de garantias”, que seria uma resposta pela sua atuação pouco imparcial na 13ª VF de Curitiba.

Dos quatro principais itens não aprovados, a prisão em segunda instância, por projeto de lei, entra em choque com a Constituição; a excludente ilicitude ampliada era uma licença para matar (pobres e negros), um absurdo ter defensores desta proposta – o que não surpreende -; plea bargain daria mais poder ao juiz e faria um inocente aceitar a culpa para ter uma pena leve ou não ir preso. E a videoconferência ser regra também prejudicaria presos sem tanto poder aquisitivo.

Sergio Moro tem ambição por poder e tem zero apreço pelas instituições que o afrontam. Escancarou na entrevista que deu para Folha. Um texto escrito pelo então juiz em 2004 que o jornalista Reinaldo Azevedo resgatou no seu blog no UOL mostra o método usado pelo agora ministro e como a imprensa teve papel importante na construção da lava jato e na popularidade de Moro, que também dialoga com uma parcela da população reacionária e vingativa, com uma diferença em relação ao Bolsonaro: seu apoio popular é maior que a do presidente.

Bolsonaro já percebeu e se arrependeu de tê-lo trazido para o governo. Só que como o lava-jatismo é mais forte que o bolsonarismo, ele vai aturando e vigiando de perto os passos de seu maior adversário.

Moro, a pedra no caminho de Bolsonaro

O grande obstáculo no caminho de Bolsonaro está no próprio governo: Sergio Moro. A popularidade do ministro é bem superior a do presidente

Quem acha que Jair Bolsonaro vai rever sua tática e passar a comunicar com o todo da população depois da pesquisa Datafolha mostrando que parou de subir a rejeição ao seu governo é melhor rever seu diagnóstico. É simples: por que me comunicar com todos se tenho uma base segura fidelizada? Antes de produzir um anúncio para clientes publicitários fazem um minucioso estudo para descobrir o público-alvo do produto de um comercial. Bolsonaro trabalha nessa lógica até por ser mais fácil do que dialogar com um contingente maior e algumas parcelas bastante hostis a ele.

A Folha divulgou meses atrás uma pesquisa que mostrava que 32% da população pensa igualmente com o presidente. Esse percentual bate com o ótimo-bom de avaliação do governo desde o início. Se ele conseguir manter esse público fidelizado até o final de seu mandato pode continuar as turbulências, os testes das instituições, propostas muito questionáveis jogadas para testar a reação e caso seja negativa recuar, que estará seguro no cargo e muito forte pela reeleição em 2022. Para provar meu ponto, basta olhar a pesquisa que a Veja divulgou na última edição da revista.

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Jair Bolsonaro tem 32% de intenções de voto para 2022 na pesquisa de Veja, mesmo tamanho do segmento que tem as mesmas opiniões dele. Lula fica com 29%, o mesmo tamanho que o PT saiu da urna no primeiro turno. Todos os outros postulantes não passam de um dígito e perdem para “nenhum” como opção de voto. Ou seja, a polarização da última eleição segue intestada e sem sinal de que esse cenário vá mudar.

O grande obstáculo no caminho de Bolsonaro está no próprio governo: Sergio Moro. A popularidade do ministro é bem superior a do presidente e suas negativas de que não pensa em disputar eleições não enganam. Moro ainda tem desempenho melhor que Bolsonaro no duelo com Lula (48% x 39% e 45% x 40%). Os dois empatam (36% x 36%) no confronto direto. O ex-juiz ainda representa a imagem que muitos brasileiros admiram nele: super-herói que prende corruptos e é fortalecido pela queda de homicídios, mesmo a queda tenha iniciado no governo anterior e seja por vários fatores.

Moro é uma ameaça ao projeto de poder de Bolsonaro

Moro é um ativo valioso e um grande problema para Bolsonaro

João Doria, Luciano Huck, Ciro Gomes, PT? A real ameaça ao projeto de poder de Jair Bolsonaro está próximo dele. É Sergio Moro. Mesmo atingido pelo vazamento de mensagens que colocam em dúvida sua atuação como juiz, Moro mantém grande apoio popular e é mais aprovado que o presidente. Bolsonaro sabe da ameaça que o ex-juiz representa e passou a fustigar com declarações e tirando o super poder que tinha concedido a ele para aceitar trocar uma carreira de 22 anos no magistrado por um cargo político. Também voltou atrás de indica-lo ao STF ao abrir uma vaga no tribunal negando que o tinha prometido.

Bolsonaro já ordenou que Moro voltasse atrás de uma indicação para suplente de um conselho opiniativo por a indicada ser desarmamentista e ter uma visão de segurança pública distinta do presidente. Ultimamente está fazendo mudanças na PF e querendo trocar o diretor-geral que é homem de confiança de Moro. Mandou uma MP para o Congresso transferindo o COAF para o Banco Central, que o Congresso já tinha devolvido para a pasta da Economia, trocou o nome para Unidade de Inteligência Financeira e demitiu Roberto Leonel, que assim como Mauricio Valeixo na PF, também foi colocado no governo por Moro e de confiança da força-tarefa da Lava Jato.

As interferências de Bolsonaro na PF e na Receita não são apenas para enfraquecer Moro. Há algo mais que envolve o filho Flavio e sua conexão com Fabrício Queiroz e milícias. Queiroz é uma “caixa preta” e uma sombra para a família Bolsonaro. Assim, Bolsonaro elimina dois problemas (familiar e político) com uma jogada.

Desde o início Moro vem engolindo moscas e humilhações que não estava acostumado. No Parlamento o seu projeto anticrime não recebeu atenção que o ministro desejável nem por parte do governo que tinha outras pautas prioritárias (Previdência e decretos para flexibilizar o porte e posse de arma de fogo), a má vontade de deputados e senadores com o ex-juiz, levando a um embate de declarações públicas com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. O projeto foi fatiado e tramita paralelamente na Câmara e Senado. Vários pontos caros ao ministro já caíram.

Mas o apoio popular a Moro está mostrando uma resistência difícil de quebrar e o presidente tenta passar a imagem que está alinhado ao ministro, trabalhando em sincronia. Por outro lado, O dilema de Moro é se pedir demissão não volta a ser juiz e a eleição está longe para se lançar na política. Fora que sem um cargo público de destaque sumiria da mídia e entrando para política partidária com pretensões eleitorais claras seria bombardeado por todos os lados sem poder se defender. Por isso é que Sergio Moro enfrenta o desgaste e humilhações quase que diariamente.

Moro é um ativo valioso e um grande problema para Bolsonaro, ao mesmo tempo.

A conversão de Moro

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Mais de oito horas foi o tempo da sabatina de Sergio Moro no Senado. Foram 40 inscritos para falar e questionar o ministro sobre os vazamentos de mensagens em doses homeopáticas do site Intercept Brasil. Desses 40, só 12 foram de oposição ao ministro e pouco souberam explorar as suas contradições. Talvez o que mais chegou perto de emparedar Moro foi Renan Calheiros, o que os inquéritos contra o senador favorecem o ministro nesse embate junto à opinião pública.

Sergio Moro pode sair fortalecido de tudo isso, assim como Jair Bolsonaro saiu fortalecido da campanha “ele não”, porque a esquerda e seus opositores estão errando aqui como erraram lá atrás. Apesar do impacto inicial ter derrubado a popularidade de Moro, a sua credibilidade não foi arranhada no núcleo duro de apoio da Lava Jato. O lado ideológico do site e o método questionável de ir divulgando as mensagens que estão em poder dos jornalistas ajudam os defensores do ex-juiz na sua defesa e o próprio a ganhar anticorpos a futuros vazamentos.

Sergio Moro já demonstrava como juiz ser um estrategista digno de um veterano da política. Nos primeiros meses como ministro da Justiça e Segurança Pública estava um pouco perdido no trato com políticos e protagonizou embates com Rodrigo Maia, por causa do pacote anticrime, mas aos poucos foi entendendo como funciona o jogo político. Com esse episódio e a tentativa de desgastar sua imagem, precisando ganhar a opinião pública no duelo de narrativas, a impressão é que mudou seus planos esquecendo a cadeira de Celso de Mello no STF – até porque ficou difícil – para um novo objetivo: sucessão presidencial.

Moro está cada vez mais político, o que ele sempre rechaçou e disse que era um “ministro técnico”. Sempre tive um pouco de dúvida se Moro realmente tinha intenção de virar ministro do STF ou trilhar uma carreira política. Se tivesse que arriscar hoje, apostaria na segunda opção.

Zorra debocha de Moro e Deltan

O programa “Zorra” fez o melhor esquete de política desde a sua reformulação e resumiu em forma de paródia o escândalo da Lava Jato. Deve ter doído em Sergio Moro e Deltan Dallagnol tamanha gozação em plena rede de televisão “parceira” da operação policial. Mas a Globo separa o núcleo artístico (progressista e de esquerda) do jornalismo (lavajatista).

Também doeu em quem acha que um juiz deve aliar-se à acusação para enfrentar corruptos, mesmo que isso fira a fundamental isonomia da Justiça, as leis e códigos de conduta.

O humor é um dos combustíveis da democracia e da liberdade. E, bem calibrado, faz bem para saúde.

Assista aqui.