Revolucionários tentam pautar governo

Não se governa um país do tamanho do Brasil apenas com grupos ideológicos “sangue puro” nem se governa com o fígado

olavo-mourao-moro

A turma revolucionária que pensa que elegeu Bolsonaro e por isso quer pautar o governo tem novo alvo: Sérgio Moro. Tudo porque o ministro nomeou como suplente no Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária a especialista em segurança pública Ilona Szabó.

Tenho opiniões e ideias opostas sobre política de segurança pública em relação a Ilona Szabó, o que não significa que não posso convergir com ela em alguns pontos e muito menos querer vetar sua nomeação para um cargo público. Muito menos por ela ter fotos e contato com George Soros e FHC. Mais engraçado é essa mesma turma não ter a mesma sanha inquisitória contra a permanência do cada vez mais indefensável ministro do Turismo, Marcelo Alvaro Antonio.

Conselhos são para assessorar o poder público em políticas públicas e suas formações obrigatoriamente precisam contemplar todas as vozes da sociedade civil, inclusive quem pensa diferente do seu grupo político, não tem poder de decisão e os conselheiros não são remunerados.

Quem trata adversário político como inimigo é ditador. Agindo como selvagens, essas milícias digitais estão alimentando a falsa narrativa que eleitores do presidente Bolsonaro são fascistas. E quem puxa a fila é Olavo de Carvalho, que resolveu mirar sua arma giratória retórica contra o vice-presidente Hamilton Mourão e, agora, para o ministro Sérgio Moro.

Não se governa um país do tamanho do Brasil apenas com grupos ideológicos “sangue puro” nem se governa com o fígado criando inimigos fantasmas até quado vai no banheiro. Deu certo na eleição, mas governar é mais complicado.

Grupos duelam quem tem mais força no governo Bolsonaro

O governo Bolsonaro está dividido em vários macros grupos: militar; olavista; liberais; agronegócio; Lava Jato

olavo

O suposto “guru” do presidente Bolsonaro atribuído pela imprensa e negado pelo próprio de que não é, Olavo de Carvalho não está muito feliz com o vice-presidente Hamilton Mourão e com os militares. Olavo anda fazendo duras críticas ao vice-presidente e chegou a teorizar um complô dos militares contra o presidente. Essa conspiração teria a participação até da China.

Olavo é da tese que o impeachment de Dilma foi uma jogada dos políticos para afastar a população das ruas. O filósofo apoiava uma intervenção militar no lugar do impeachment. Também defende que a direita chegou ao poder sem tomar a narrativa cultural e da mídia.

O governo Bolsonaro está dividido em vários macros grupos: militar; olavista; liberais; agronegócio; Lava Jato. Os grupos dos militares e da Lava Jato são os pilares institucionais, quem faz o meio-campo com os outros poderes. Um dos pilares representado pelo Sérgio Moro (Lava Jato) representa o apoio popular ao governo. Já o agronegócio é sustentação política via bancada ruralista e dos liberais, o pilar de apoio do mercado financeiro. Se um pilar ruir, o governo fica capenga e não sei se consegue se manter.

Desde o governo de transição os grupos já vinham se chocando. Paulo Guedes x Onyx Lorenzoni andaram corrigindo um ao outro sobre o melhor modelo e momento para apresentar a reforma da Previdência. Mourão já falou publicamente que o Chanceler Ernesto Araújo (pupilo de Olavo) não tem inteligência para o cargo. Aliás, o vice-presidente, deliberadamente ou não, tenta passar a imagem de ser o avesso do presidente, o que anda desagradando o próprio Jair Bolsonaro ao ponto de não passar o comando para Mourão no período pós-operatório e vai despachar em um gabinete especial montado no hospital Albert Einstein, em São Paulo.

Os militares estão incomodados com o trânsito livre dos filhos do presidente no governo, tanto Eduardo opinando como ministro, como Carlos administrando as redes do pai na internet. A cúpula militar no governo não gosta dessa simbiose filhos do presidente e governo, principalmente após Flávio ser envolvido no caso do COAF-ALERJ.

Vai chegar o momento que os conflitos internos – muitos provocados de fora pra dentro – vão se acentuar e o presidente Bolsonaro vai ter que definir qual grupo predomina em seu governo.

Ajuda involuntária

A prisão de Lula, dessa forma, atropelando o devido processo legal, só beneficia o PT

Pegando todos de surpresa, o juiz Sérgio Moro expediu a ordem de prisão do ex-presidente Lula após aval do TRF4. Com habeas corpus preventivo negado pelo STF e sem salvo-conduto, o tribunal entendeu que foi exaurido o processo lá.

O problema é que não foi. No dia 26 de março, os desembargadores da 8ª turma nagaram os embargos de declaração da defesa. Só que ainda existe um último embargo – chamado de embargos dos embargos – e o prazo para a defesa entrar com ele termina no próximo dia 10/04.

Nunca que o TRF4 poderia ter dado o aval para o juiz Moro determinar o começo do cumprimento da pena ainda sendo possível recurso no tribunal de Porto Alegre. E a prova maior é uma entrevista do presidente do tribunal federal da 4ª região horas antes da notícia da prisão vir a público.

É perfeitamente aceitável concordar que embargo dos embargos é meramente protelatório. Por outro lado, não é aceitável que um tribunal ignore a lei. Ou seria um Estado de Exceção. Esse açodamento do TRF4 provavelmente vai fazer o STJ conceder habeas corpus suspendendo a prisão, Lula saindo “nos braços do povo” – bela imagem para o PT explorar na campanha eleitoral – revoltando quem quer o ex-presidente preso. Sérgio Moro e seu jeito heterodoxo de aplicar a lei brinca com fogo e joga gasolina para apagar incêndio.

Sou garantista, sou girondino, não gosto nada de jacobino. Se sou muito crítico do ministro Barroso é porque ele quer reescrever leis e a Constituição sem mandato eletivo, não posso ser incoerente e aplaudir uma pantomima do TRF4.

A prisão de Lula, dessa forma, atropelando o devido processo legal, só beneficia o PT e o “poste” que substituirá Lula na urna. TRF4 e Moro estão sendo o melhor cabo eleitoral que o PT sonhou e o candidato de Lula, quem sabe, pode até ganhar no primeiro turno. Seria uma volta triunfal do PT com ajuda imprescindível dos seus algozes.

Moro defende divulgação do “áudio-Bessias”: “interesse público”

Nesse trecho da entrevista de Sérgio Moro ao Roda Viva, que foi a maior audiência da história do programa, ele deixa claro que não se arrepende de ter divulgado trecho da interceptação telefônica entre a então presidente Dilma e o ex-presidente Lula, sobre o termo de posse como ministro da Casa Civil no qual Dilma diz que enviou o “Bessias” com o documento e deve usar em caso de necessidade. Uma ordem de prisão, por exemplo.

Na época, foi um escândalo na divulgação. A oposição pedindo renúncia de Dilma por obstrução de justiça e a situação acusando Moro de ter burlado a lei, já que o tempo dessa parte da conversa foi captado fora do prazo legal que a justiça autorizou o grampo. O ministro relator da Lava jato no STF, Teori Zavascki (1948-2017) anulou essa parte da conversa como prova e deu um “puxão de orelha” no juiz Moro.

Apesar de Moro elogiar Teori e afirma a importância do ministro na continuação da operação, o juiz federal de Curitiba nega qualquer arrependimento de ter divulgado aquele trecho alegando interesse público. A divulgação daquela conversa foi a carta que Moro usou para evitar que Lula ganhasse foro privilegiado e assim escapasse de ser julgado por ele.

No mesmo dia da divulgação milhares de pessoas protestaram nas ruas de várias cidades tendo como maior aglomeração na Avenida Paulista, com chamados de última hora de movimentos organizadores da manifestação do dia 13 daquele mesmo mês e ano. Várias liminares pelo país cancelando a posse de Lula. No STF, Gilmar Mendes acatou uma dessas liminares. A história poderia ser diferente se Moro não tivesse tomado aquela decisão em questão de horas.

De maneira ‘suave’, Sérgio Moro manda recado ao STF

Em entrevista inédita para TV aberta, no programa Roda Viva da TV Cultura (SP), o juiz Sérgio Moro reforçou o que já havia dito em entrevistas para meios impressos e palestras: nos processos da operação Lava jato verificou-se uma corrupção sistêmica.

Nessa entrevista, Moro pediu que todas as instituições, da primeira instância ao STF, sejam firmes ou afetará a fé que a população tem no sistema democrático.

Catastrófico ou não, foi um recado direto ao STF e decisões no mínimo controvérsias que ministros da Suprema Corte estão tomando e estão decidindo.