Moro é uma ameaça ao projeto de poder de Bolsonaro

Moro é um ativo valioso e um grande problema para Bolsonaro

João Doria, Luciano Huck, Ciro Gomes, PT? A real ameaça ao projeto de poder de Jair Bolsonaro está próximo dele. É Sergio Moro. Mesmo atingido pelo vazamento de mensagens que colocam em dúvida sua atuação como juiz, Moro mantém grande apoio popular e é mais aprovado que o presidente. Bolsonaro sabe da ameaça que o ex-juiz representa e passou a fustigar com declarações e tirando o super poder que tinha concedido a ele para aceitar trocar uma carreira de 22 anos no magistrado por um cargo político. Também voltou atrás de indica-lo ao STF ao abrir uma vaga no tribunal negando que o tinha prometido.

Bolsonaro já ordenou que Moro voltasse atrás de uma indicação para suplente de um conselho opiniativo por a indicada ser desarmamentista e ter uma visão de segurança pública distinta do presidente. Ultimamente está fazendo mudanças na PF e querendo trocar o diretor-geral que é homem de confiança de Moro. Mandou uma MP para o Congresso transferindo o COAF para o Banco Central, que o Congresso já tinha devolvido para a pasta da Economia, trocou o nome para Unidade de Inteligência Financeira e demitiu Roberto Leonel, que assim como Mauricio Valeixo na PF, também foi colocado no governo por Moro e de confiança da força-tarefa da Lava Jato.

As interferências de Bolsonaro na PF e na Receita não são apenas para enfraquecer Moro. Há algo mais que envolve o filho Flavio e sua conexão com Fabrício Queiroz e milícias. Queiroz é uma “caixa preta” e uma sombra para a família Bolsonaro. Assim, Bolsonaro elimina dois problemas (familiar e político) com uma jogada.

Desde o início Moro vem engolindo moscas e humilhações que não estava acostumado. No Parlamento o seu projeto anticrime não recebeu atenção que o ministro desejável nem por parte do governo que tinha outras pautas prioritárias (Previdência e decretos para flexibilizar o porte e posse de arma de fogo), a má vontade de deputados e senadores com o ex-juiz, levando a um embate de declarações públicas com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. O projeto foi fatiado e tramita paralelamente na Câmara e Senado. Vários pontos caros ao ministro já caíram.

Mas o apoio popular a Moro está mostrando uma resistência difícil de quebrar e o presidente tenta passar a imagem que está alinhado ao ministro, trabalhando em sincronia. Por outro lado, O dilema de Moro é se pedir demissão não volta a ser juiz e a eleição está longe para se lançar na política. Fora que sem um cargo público de destaque sumiria da mídia e entrando para política partidária com pretensões eleitorais claras seria bombardeado por todos os lados sem poder se defender. Por isso é que Sergio Moro enfrenta o desgaste e humilhações quase que diariamente.

Moro é um ativo valioso e um grande problema para Bolsonaro, ao mesmo tempo.

A conversão de Moro

moro

Mais de oito horas foi o tempo da sabatina de Sergio Moro no Senado. Foram 40 inscritos para falar e questionar o ministro sobre os vazamentos de mensagens em doses homeopáticas do site Intercept Brasil. Desses 40, só 12 foram de oposição ao ministro e pouco souberam explorar as suas contradições. Talvez o que mais chegou perto de emparedar Moro foi Renan Calheiros, o que os inquéritos contra o senador favorecem o ministro nesse embate junto à opinião pública.

Sergio Moro pode sair fortalecido de tudo isso, assim como Jair Bolsonaro saiu fortalecido da campanha “ele não”, porque a esquerda e seus opositores estão errando aqui como erraram lá atrás. Apesar do impacto inicial ter derrubado a popularidade de Moro, a sua credibilidade não foi arranhada no núcleo duro de apoio da Lava Jato. O lado ideológico do site e o método questionável de ir divulgando as mensagens que estão em poder dos jornalistas ajudam os defensores do ex-juiz na sua defesa e o próprio a ganhar anticorpos a futuros vazamentos.

Sergio Moro já demonstrava como juiz ser um estrategista digno de um veterano da política. Nos primeiros meses como ministro da Justiça e Segurança Pública estava um pouco perdido no trato com políticos e protagonizou embates com Rodrigo Maia, por causa do pacote anticrime, mas aos poucos foi entendendo como funciona o jogo político. Com esse episódio e a tentativa de desgastar sua imagem, precisando ganhar a opinião pública no duelo de narrativas, a impressão é que mudou seus planos esquecendo a cadeira de Celso de Mello no STF – até porque ficou difícil – para um novo objetivo: sucessão presidencial.

Moro está cada vez mais político, o que ele sempre rechaçou e disse que era um “ministro técnico”. Sempre tive um pouco de dúvida se Moro realmente tinha intenção de virar ministro do STF ou trilhar uma carreira política. Se tivesse que arriscar hoje, apostaria na segunda opção.

‘Zorra’ debocha de Moro e Deltan

O programa “Zorra” fez o melhor esquete de política desde a sua reformulação e resumiu em forma de paródia o escândalo da Lava Jato. Deve ter doído em Sergio Moro e Deltan Dallagnol tamanha gozação em plena rede de televisão “parceira” da operação policial. Mas a Globo separa o núcleo artístico (progressista e de esquerda) do jornalismo (lavajatista).

Também doeu em quem acha que um juiz deve aliar-se à acusação para enfrentar corruptos, mesmo que isso fira a fundamental isonomia da Justiça, as leis e códigos de conduta.

O humor é um dos combustíveis da democracia e da liberdade. E bem calibrado faz bem para saúde.

“Partido da Polícia” quer COAF e Receita Federal

Membros do Ministério Público e Sergio Moro fizeram o governo entrar na batalha para manter o COAF no Ministério da Justiça. Partidos do “centrão” e da oposição se uniram para recolocar o órgão de fiscalização em movimentações financeiras para a pasta da economia. A “bancada lavajatista” junto a parlamentares da base do governo Bolsonaro trabalham para manter o órgão com Moro e na ânsia de evitar essa mudança, já aprovada em uma comissão mista, pode comprometer toda a reforma administrativa do presidente Jair Bolsonaro.

A MP 870 foi assinada assim que Bolsonaro tomou posse e vestiu a faixa presidencial. Se não for votada até junho caduca e perde a validade voltando toda a estrutura do governo anterior, do Michel Temer. Os partidários da “bancada lavajatista” alegam que o órgão na pasta da Justiça fortaleceu o combate aos crimes de lavagem de dinheiro e terrorismo. Já a oposição e o “centrão” acham que é muito poder nas mãos do “super ministro” Moro. Há uma teoria rolando que tirar o COAF de Moro o enfraqueceria e por tabela enfraqueceria o governo.

É mentira que o COAF voltando para pasta da economia o enfraqueceria. O órgão sempre pertenceu ao antigo Ministério da Fazenda (atual Ministério da Economia) e exercia seu papel sem interferência. Paulo Guedes declarou não querer o COAF e disse que manteria a equipe atual se devolvessem para sua pasta. O argumento de combate à corrupção não se sustenta e é calunioso com Guedes, porque insinua que o ministro interferiria no órgão para beneficiar aliados do governo e prejudicar desafetos. É o mesmo argumento da oposição, de membros do “centrão” e desafetos do Moro, como Renan Calheiros.

Deltan Dallagnol e sua trupe também estão batendo as tamancas por incluírem uma emenda à medida provisória limitando ao crime fiscal o poder investigatório da Receita Federal. O MP gostaria de ter sob controle mecanismos além do que a Constituição já lhe garante.

Não vejo problema o COAF com Moro ou Guedes. O que enfraquece o governo, além de sucessivas crises internas provocadas pela banda ideológica, são parlamentares populistas errando a estratégia e comprometendo toda a reforma administrativa.

Revolucionários tentam pautar governo

Não se governa um país do tamanho do Brasil apenas com grupos ideológicos “sangue puro” nem se governa com o fígado

olavo-mourao-moro

A turma revolucionária que pensa que elegeu Bolsonaro e por isso quer pautar o governo tem novo alvo: Sérgio Moro. Tudo porque o ministro nomeou como suplente no Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária a especialista em segurança pública Ilona Szabó.

Tenho opiniões e ideias opostas sobre política de segurança pública em relação a Ilona Szabó, o que não significa que não posso convergir com ela em alguns pontos e muito menos querer vetar sua nomeação para um cargo público. Muito menos por ela ter fotos e contato com George Soros e FHC. Mais engraçado é essa mesma turma não ter a mesma sanha inquisitória contra a permanência do cada vez mais indefensável ministro do Turismo, Marcelo Alvaro Antonio.

Conselhos são para assessorar o poder público em políticas públicas e suas formações obrigatoriamente precisam contemplar todas as vozes da sociedade civil, inclusive quem pensa diferente do seu grupo político, não tem poder de decisão e os conselheiros não são remunerados.

Quem trata adversário político como inimigo é ditador. Agindo como selvagens, essas milícias digitais estão alimentando a falsa narrativa que eleitores do presidente Bolsonaro são fascistas. E quem puxa a fila é Olavo de Carvalho, que resolveu mirar sua arma giratória retórica contra o vice-presidente Hamilton Mourão e, agora, para o ministro Sérgio Moro.

Não se governa um país do tamanho do Brasil apenas com grupos ideológicos “sangue puro” nem se governa com o fígado criando inimigos fantasmas até quado vai no banheiro. Deu certo na eleição, mas governar é mais complicado.