
Marlos Ápyus
Quando eu tinha 17 anos, eu queria ser uma estrela do rock, assim como a maior parte dos meus amigos mais próximos. Diferentemente de mim, boa parte desses amigos tentavam espelhar seus ídolos. Daí passavam a cortar o cabelo imitando-os. E vestiam camisas pretas no verão nordestino. E tome tatuagem, piercing, correntes e caras feias nas fotos (sorrir não é coisa de roqueiro). Quando olho pra trás, acho tudo um tanto ingênuo, bobo e patético. Mas, ao mesmo tempo, invejo certa fé em acreditar que aquilo os levariam a algum lugar.
Jovens como a Sininho também têm ídolos e buscam espelhá-los. Contudo, em vez de capas de LPs, eles se encontram em capítulos de livros de história. E tentam viver uma fantasia que aproxime suas biografias, mesmo que o contexto seja totalmente distinto (enquanto a geração anterior se bicou com uma ditadura, essa molecada está brincando de revolta numa democracia). E tome fantasia de derrubar o sistema, lutar contra forças superiores, se exilar aqui e ali. No meu entendimento, pouca coisa além de delírio.
Num dos trabalhos que tenho mais orgulho, por 75 dias minha vida pertenceu à campanha de um deputado federal. Foram 80 municípios visitados em 120 viagens. Nesse meio tempo, sentamos para conversar com todo tipo de grupo engajado: de sem-terra a militares aposentados. Cada um buscava seus direitos. Todos eles por vias que a própria democracia fornece. Mudar um país como o Brasil é complicado. São 200 milhões de sócios. Enquanto todos estes sócios, por intermédio de seus representantes, não der o OK para a mudança proposta, nenhuma mudança deve ser feita. Alguns desses grupos com os quais conversávamos lutavam por suas causas há anos. E sabiam que mais alguns anos seriam necessários para que cada representante público fosse dando o “sim” para suas reivindicações. Parecia que não, mas todo ano as suas causas avançavam um pequeno degrau, venciam uma pequena etapa rumo à vitória.
O melhor exemplo disso talvez seja o Marcio Civil da Internet, e olha que sou contrário a ele. Na primeira vez que tive contato com o projeto, apresentaram suas ideias na Campus Party (se não me engano) de 2012. Já estavam nessa luta há alguns anos e comentaram na palestra que pelo menos mais dois anos seriam necessários até se atingir o que queriam. Dito e feito. Foram aprovadas com algumas ressalvas em 2014.
Democracia é lenta. Quer rapidez? Ditadura é o seu caminho. Não é o que eu quero. Eu quero que as coisas sejam bem feitas. Quando sininhos, black blocs, passes livres, etc, propõem fazer o que pedem ou param a cidade, se aproximam de uma ditadura, não de uma democracia. E desrespeitam todos os demais grupos engajados que estão buscando suas causas por vias legais e aguardam o devido processo legal.
Em resumo: são jovens que se interessam mais por imitar seus ídolos do que entender como funciona o mundo que querem mudar.