
Leonardo Dahi, @dahileonardo
Chegou ao Brasil, nesta segunda-feira, Yoaní Sanchez. A blogueira-dissidente-popstar desembarcou no Aeroporto dos Guararapes, em Recife, para dar início ao seu giro pelo mundo, que vai durar 80 dias.
Para quem não sabe, Yoaní é uma cubana que criou um blog onde relata o dia-a-dia de sua terra natal, Cuba, principalmente no que tange a falta de liberdade de expressão. Em pouco tempo, a blogueira ganhou fama internacional e fez muito barulho. Chegou a ser presa e por várias vezes teve sua página retirada do ar.
E, por consequência, ganhou admiradores e detratores. No primeiro grupo, em geral, temos direitistas que se opõem ferrenhamente ao fechado regime cubano, enquanto, o segundo, é composto por esquerdistas que tem Fidel Castro como ídolo e veem o modus operandi do país centro-americano como “uma ditadura do bem”.
Ditadura do bem…
É claro que ninguém usa essa expressão abertamente, mas não é incomum ouvir, como argumentos de defesa ao regime cubano, os índices bastante razoáveis de qualidade de vida (baixo analfabetismo, baixa mortalidade infantil, etc.). Ou seja: ao contrário do que dizia Nelson Rodrigues, “a liberdade não vale mais do que o pão”.
Mas isso é muito curioso. Grande parte dos que bradam “viva la revolución” e tem um pôster de Che Guevara no quarto, lutaram contra um cruel regime militar que controlou o Brasil nas décadas de 60 e 70. Alguns deles foram presos, torturados e, fosse em 2013, talvez tivessem criado um blog para manifestar sua indignação perante à censura e a falta de liberdade. Muitos se esquecem, que, embora o motivo não tenha sido nobre, o Brasil cresceu durante o Regime Militar, graças ao apoio dos Estados Unidos, que lutavam na Guerra Fria contra a União Soviética.
Mas aí não tem “ditadura do bem”. E não tem mesmo. Assim como não tem em Cuba. A liberdade não é um bem material que se troque por um pedaço de pão. É preciso ter o pão e poder dizer se ele estava gostoso ou não. E, por isso, o papel de Yoaní é muito importante. Não, eu não sou fã dela, acho que ela não é a mártir que quer parecer e fala muita besteira. Contudo, ninguém tem o direito de proibi-la de dizer essas besteiras. E, você, seja de direita ou esquerda, certamente já lutou por isso.

Não deixa de ser curioso como, ao mesmo tempo em que causa pesadelos, a palavra “ditadura” é, de certo modo, perseguida por muitas pessoas. Quantas vezes você não ouviu uma pessoa mais velha falar que queria a volta do regime militar porque, naquela época, “não tinha bagunça”? Ou seja: ditadura de esquerda é pecado, de direita é “necessário”.
Do outro lado, tem muita gente vendo fantasma de ditador, onde não há. Dias atrás, o ator José de Abreu, sempre ele, disse que foi “desconvidado” do camarote da Revista Contigo, na Marquês de Sapucaí, por motivos de “censura”, já que várias vezes criticou Roberto Civita, o chefe da Editora Abril, que publica a revista. Ou seja: se você tem um camarote e não quer que um desafeto seu entre nele, você é um “ditador”.
O centrismo
Outro dia, fiz um destes testes para “descobrir minha posição política” e o resultado não foi nem um pouco surpreendente: de acordo com minhas respostas, eu sou um “centrista”.
Essa posição política é vista com maus olhos por muitos, já que todo mundo se diz “de centro” para poder jogar na situação e na oposição. Contudo, ser centrista não significa estar “em cima do muro” e sim ter uma mente aberta.
Eu queria, sim, ter um partido político. Tenho afinidade com o PT (até acho que sou de “centro-esquerda”), mas, no jogo político, é impossível levantar uma bandeira e sair a defendendo acima de tudo, sendo que, para isso, você precisa estar cego aos trambiques de José Dirceu e companhia. Ser centrista me permite votar no PT e querer a condenação dos envolvidos no Mensalão. Me permite criticar atitudes da blogueira-popstar sem precisar defender a patética hegemonia da família Castro.
E, principalmente, me permite ter horror da ditadura (que, graças a Deus, não vivi), sem que, para isso, eu tenha que criar novos fantasmas de um regime, que, espero eu, está enterrado nos livros de história.
