
Fábio Piperno
O PT acabou. O Partido dos Trabalhadores se esgotou enquanto alternativa de poder. Claro que não é impossível que, a partir de alguma reação da economia, ainda consiga tornar viável um retorno de Lula ao poder em 2018. Mas como projeto de longo prazo, o PT acabou. O que não significa que a esquerda ou as alternativas progressistas tenham chegado ao fim da história.
O atual PT não dá mais conta de manter o legado que ele mesmo construiu. Único partido da história do país a vencer quatro eleições consecutivas para presidente, o PT nasceu pobre, cresceu remediado e, quando fez sucesso nas urnas, achou que era um novo rico. Só não percebeu que ao se distanciar das origens, começava a escrever o próprio obituário.
Nesses 35 anos de vida, é óbvio que o PT acertou muito mais que errou. Não foi por acaso que se tornou o mais bem-sucedido partido de origem popular da história do país. Não se pode negar-lhe os méritos de ter levado para o poder quadros egressos do proletariado e de ter alçado do movimento sindical para o Planalto o presidente mais bem avaliado que o país conheceu. Também soa como farsa intelectual o não reconhecimento dos exitosos, e copiados mundo afora, programas de inclusão social. Tirar da miséria o equivalente à população da Argentina não é algo banal.
Mas inebriada pelo sucesso, a legenda foi acometida do desdém que os novos ricos passam a demonstrar em relação aos velhos ambientes e amigos. E o PT dos engravatados começou a se distanciar dos macacões de fábrica, do pensamento da academia, dos movimentos sociais e dos antigos militantes. O novo PT renegou seu DNA e ficou amigo das elites. Parte dele chegou até mesmo a achar que havia sido aceito por elas. Enganou-se.
O presidente Lula está entre os que cometeram esse equívoco. Com a popularidade nas nuvens tornou-se o grande parceiro dos magnatas, das empresas campeãs nacionais e dos maganos protecionistas. Ficou longe do capitalismo de vanguarda e próximo da vanguarda do atraso capitalista. Com a reprovação do atual governo Dilma, pediu-lhes apoio. Em troca, tomou um panelaço na cabeça e caiu na real.
Então, chegou a hora de reaglutinar forças. E onde estão elas quando se olha para o PT? Das antigas lideranças históricas, pouco sobrou. Luiz Gushiken morreu. Dirceu está de novo na cadeia. Genoíno é um ex-presidiário. Os bravos gaúchos foram varridos pelas urnas. Marta Suplicy bandeou-se para a oposição. Velhos companheiros, escanteados no partido, embarcaram no PSOL. A base parlamentar é frágil e intelectualmente pobre. De tão despreparada, está atordoada.
O PT se tornou um partido de solitários no poder, desconectados da sociedade civil e de setores com quem o partido mantinha interlocução direta. O que sobrou é uma organização partidária ainda com alguma robustez, que tem como derradeira missão tentar blindar o governo dos ataques da direita enfurecida, que armou-se para recuperar o poder, qualquer que seja o preço institucional. Só que esse papel é pouco para quem foi tão imponente.
Então, o que resta para o pós-Lula? Diante da falta de quadros, quase nada, a não ser o risco de se tornar a versão tropical do Partido Socialista Italiano, de Bettino Craxi. Na Itália do início dos anos 80, o PSI simbolizava a modernidade de um país em vertiginoso crescimento. Craxi liderava as mudanças e era o premiê que mais tempo resistia no cargo desde o final da Segunda Grande Guerra. Tudo estava bem até o vendaval provocado pelo Tangentopoli, o escândalo que varreu do mapa político os partidos tradicionais, como o PSI e a Democracia Cristã.
É possível estabelecer analogias entre o PSI de Craxi e o PT. Por isso, seria desejável que a fatia do PT que se mantém imune às práticas ilícitas que corromperam setores do partido se associe a outras correntes a fim de construir uma nova organização de esquerda. Inspirado na Frente Ampla do Uruguai, a nova agremiação poderia aglutinar vários setores progressistas que hoje estão dispersos e sem boas perspectivas eleitorais.
O carcomido e multifacetado mapa político brasileiro precisa de uma representação de esquerda sem os vícios do passado recente, não sectária e desapegada dos confortos do poder. Faz-se necessário um novo partido que possa atrair setores do PT, PDT, PSOL, PCdoB, PSB e de outras siglas menores. Uma sigla que se apresente como o polo capaz de reagrupar movimentos sociais, setores da economia criativa, intelectuais, sindicalistas, lideranças estudantis, o moderno empresariado e todos os demais setores que tenham compromisso com as reformas necessárias ao Estado, com a retomada do crescimento e com a ampliação da inclusão social.
Por mais estilhaçado que esteja o quadro partidário do Brasil, ainda há espaço para quem apresente um projeto de país e não apenas mire em um projeto eleitoral. Objetivo que o velho PT e a necrosada oposição não são mais capazes de pensar.