
Do mesmo autor que levou ao público o caso Snowden, Glenn Greenwald, o site Intercept Brasil revelou mensagens privadas que demonstram que juízes e procuradores colaboraram mutuamente na Lava Jato desde o início, inclusive no caso que levou Lula para prisão e o impediu de disputar a eleição presidencial, uma tentativa de sabotar entrevistas com ele de dentro da prisão para não ajudar a campanha do Fernando Haddad, o candidato substituto do PT, que pode caracterizar no mínimo quebra de isonomia. A operação sempre foi acusada de parcialidade e trabalhar fora da lei, mas ficava na retórica das defesas de poderosos políticos presos.
Após o impeachment de Dilma, procuradores e juízes passaram a fazer uso do populismo para prevalecer suas vontades. Qualquer movimentação do Congresso Nacional para mudanças na legislação ou aperfeiçoamento na lei de abuso de autoridade, criam e manipulam narrativas nas redes sociais no intuito de jogar a população contra toda classe política em fantasiosos complôs para barrar investigações. Foram cometidas muitas irregularidades desde 2014, em nome do combate aos corruptos e uma “purificação” da política. Tentaram aprovar as “10 Medidas” anticorrupção em uma lei de iniciativa popular que recolheu mais de 2 milhões de assinaturas para pressionar os políticos na aprovação sem mudar nada do que foi elaborado pelo MPF.
Mas os políticos fizeram valer o seu poder constitucional de legislar e mudaram o projeto na noite que o Brasil velava os mortos da tragédia aérea da Chapecoense, na Colômbia, e o episódio foi usado para criminalizar prerrogativas do parlamento, que deu resultado nas urnas em outubro de 2018.
Com a ida do juiz Sergio Moro para o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o sonho da institucionalização da Lava Jato começava a se concretizar. A batalha sairia dos tribunais e passava para a arena política. Mas, apesar da grande renovação na Câmara e Senado, ainda há focos de resistência. O objetivo agora é trocar todo o sistema e substituir a elite política por representantes do “lavajatismo”.
Ninguém que não deve é contra mecanismos para inibir a corrupção. O grande problema é quando tais mecanismos se voltam contra a própria Constituição do país ou quando viram projeto de poder de indivíduos. Prisões preventivas e temporárias viraram regra pós-lava jato, a presunção de inocência passou a ser ignorada personificada na inconstitucional prisão após segundo grau de jurisdição e abuso no uso de mandados para coercitivas, que levou o STF a torná-las inconstitucionais.
Também o uso de operações circenses achincalhando e destruindo a reputação de suspeitos em julgamentos sumários levando até a suicídio de reitor de universidade. Destruíram empresas e milhões de empregos, ao invés de punir quem cometeu crimes, usaram as colaborações premiadas como prova ou manipulando delações para destruir alvos específicos e indesejados, como no caso JBS.
Desnudaram a “majestade lava jato” mostrando que é mais do que uma luta entre o bem contra o mal, como seus defensores tentam classificar seus abusos.