Por que eu voto em Lula

Não é exagero dizer que a eleição de 30 de outubro é a mais importante desde a redemocratização do Brasil

Michel Costa

Não é exagero dizer que a eleição de 30 de outubro é a mais importante desde a redemocratização do Brasil. Além do exercício da presidência da República pelos próximos quatro anos, também está em jogo o modelo de país definido pela Constituição de 1988. Os extremos, termo tão propagado por parte da imprensa, não estão nas posições de Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro no campo político, mas no que ambos representam neste momento.

Lula nunca foi um político de extrema-esquerda. Nunca passou perto de ser comunista como muitos julgam ou temem. Lula está muito mais para centro-esquerda do que outra coisa. Caso alguém pergunte para um comunista brasileiro (sim, eles são poucos, mas existem) se Lula é comunista, provavelmente ouvirá que o petista é o maior conciliador de classes que o país já teve. E não será um elogio.

A origem de Lula é o movimento sindical, não alguma corrente marxista. Como sindicalista, dedicou-se a conseguir aumentos salariais e melhores condições para os trabalhadores. Como presidente, tentou fazer o mesmo em relação à população mais pobre. Conseguiu cumprir, pelo menos em parte, essa missão deixando o governo com 84% de aprovação, diminuindo a inflação, o desemprego e ajudando a eleger sua sucessora.

Governando entre 2003 e 2010, Lula não tentou nenhuma revolução do proletariado ou algo parecido. Construiu novas universidades e institutos federais que mudaram as perspectivas de muitos jovens, mas não aplicou nenhum modelo chavista na forma de governar. Essa preocupação com a Venezuela, aliás, nem deveria estar pesando sobre Lula, mas sobre os adversários que falaram em aumentar o número de ministros do STF, expediente típico de ditaduras.

Falando em ditaduras, esse é outro tema frequentemente usado, junto com a pauta de costumes, para tirar o foco de coisas que realmente importam como saúde, educação, emprego e segurança. Embora o PT realmente tenha trânsito com os governos cubanos e venezuelanos, o partido nem sequer tentou aplicar esses respectivos modelos aqui. E se a preocupação da direita nacional com ditaduras fosse mesmo real, haveriam de repreender Bolsonaro pela proximidade com o húngaro Viktor Orbán ou com a Arábia Saudita. Ou ditaduras de direita estão liberadas?

E antes que alguém diga que o Bolsa Família é um programa comunista, cabe esclarecer que esse tipo de ajuda para diminuir a pobreza é um conceito liberal para combater os efeitos da desigualdade no capitalismo. Para os comunistas, o ideal é buscar uma sociedade mais igualitária. Talvez essa seja a razão para quem tem mais dinheiro ter tanto medo do comunismo. Mas esse perigo os mais ricos não vão correr com Lula. Basta lembrar que os bancos nunca lucraram tanto num governo, crítica recorrente do presidenciável Ciro Gomes ao petista.

O tema corrupção precisa ser mencionado. O escândalo do Mensalão existiu. O Petrolão, durante o governo Dilma Rousseff, também existiu. Gente foi presa, gente devolveu dinheiro e muitos partidos foram envolvidos. No caso da presidenta Dilma, não houve notícia de enriquecimento ilícito, mas Lula precisou enfrentar diversos processos e acabou preso por conta de um deles. Neste momento, é preciso separar quem admite que houve algo estranho na condução do caso e quem acha que Lula é ladrão e ponto final. Quem está convicto da culpa, independente de qualquer argumento, pode saltar o próximo parágrafo.

Lula foi condenado sem provas por um juiz declarado incompetente para o caso e, posteriormente, declarado suspeito pelo STF. O ex-juiz Sergio Moro não informou em sua sentença onde estão as provas do que acusavam Lula. Há, inclusive, um desafio do jornalista Reinaldo Azevedo – insuspeito de ser petista – pedindo que enviem as provas para serem lidas no seu programa na Rádio Band News. Lula foi condenado pelo conjunto indiciário, algo que não está estabelecido na justiça brasileira. Tempos depois, descobriu-se que o juiz Moro e o procurador Deltan Dallagnol agiram em conluio para prender o ex-presidente. Não por acaso, Moro se tornou ministro de Bolsonaro e Deltan também ingressou na política, ambos fazendo militância antipetista.

A pauta econômica deveria ser sempre o ponto principal de uma candidatura. Excetuando recentes medidas eleitoreiras como baixar o preço da gasolina ou distribuir auxílios perto da eleição, a agenda econômica comandada por Paulo Guedes se parece muito com a de Michel Temer que, por sua vez, não foi tão distante do que Aécio Neves prometia em 2014. Uma agenda liberal que acredita que o Estado não deve intervir para o desenvolvimento econômico, que ficaria a cargo do chamado mercado.

O discurso de Lula vai no sentido contrário. O ex-presidente acredita, como eu acredito, que o Estado deve fomentar a economia através do investimento público e, sobretudo, promovendo o aumento real do salário mínimo acima da inflação. Nas palavras do petista, é preciso colocar os pobres no orçamento porque só assim o país pode voltar a crescer. O combate à fome, flagelo que acompanhou o Brasil ao longo da história e que só foi contido nos governos petistas, seguramente será pauta. Para atingir essas metas, está bem claro que o atual teto de gastos, instituído durante o governo Temer, precisa ser revisto. Voltar a investir mantendo a responsabilidade fiscal é o desafio de um eventual governo Lula.

Logicamente, esta justificativa de voto também tem um viés antibolsonarista. O simples fato de um político de extrema-direita ser o atual presidente é, na minha opinião, bizarro, mas vai além. Jair Bolsonaro foi um mau militar, acusado de planejar explodir bombas em quartéis e na adutora que abastece o Rio de Janeiro. Depois, ao ingressar na política, foi um deputado medíocre que só aparecia quando dizia absurdos. Nessa época, estabeleceu um sistema de rachadinhas (peculato) que transmitiu para seus filhos como um legado de como fazer coisas erradas. Não por acaso, os quatro filhos adultos do presidente estão sendo investigados.

Como resultado, a família apresenta um patrimônio incompatível com os ganhos obtidos durante os respectivos mandatos eletivos, parte desse patrimônio adquirido em dinheiro vivo como demonstrou recente reportagem do UOL. São tantas evidências de crimes, incluindo ligação com milícias, que quase surpreende que seus seguidores sejam capazes de usar o tema corrupção como um ativo de campanha.

Ainda assim, nada se compara ao que foi feito (e o que não foi feito) durante a pandemia. Bolsonaro agiu de forma consciente contra as medidas sanitárias que visavam impedir a contaminação pela covid-19. Na contramão da ciência, o presidente defendeu o uso de remédios comprovadamente ineficazes, apostou na imunidade coletiva, atrasou a compra de vacinas e se colocou contra governadores e prefeitos. Como resultado, o Brasil teve uma média de mortos por habitante superior à do resto do mundo. Não é exagero concluir que Bolsonaro é responsável, ainda que indiretamente, pela morte de dezenas de milhares de brasileiros. Somente isso já deveria ser suficiente para inviabilizá-lo na tentativa de reeleição.

Acontece que Bolsonaro não só está concorrendo como está no segundo turno. Mesmo depois da péssima conduta durante a pandemia e de ter atuado para degradar instituições como a Polícia Federal, o Congresso Nacional, a Procuradoria Geral da República e até o Supremo Tribunal Federal, onde diz ter 20% após as nomeações de Kassio Nunes Marques e André Mendonça. O que aconteceria num segundo mandato é algo que o Brasil não deveria se dar ao luxo de pagar para ver.

Diante disso, reafirmo meu voto em Lula para presidente no intuito que o Brasil possa, enfim, retomar sua normalidade institucional que nunca esteve tão ameaçada.

Michel Costa é escritor. Articulista do contehistorias.com. Autor de fantasia urbana. Coautor do livro É Tetra. Rubro-negro. Pai da Lívia.

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Autor: Brasil Decide

Editor-chefe: João Paulo

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