
Fábio Piperno
O cientista russo Ivan Pavlov utilizou cachorros nas célebres pesquisas que fazia sobre reflexo condicionado. Nas experiências pavlovianas, os animais começavam a salivar em reação ao toque da sineta, pois associavam o som ao momento da distribuição de comida. Assim como os cães de Pavlov, os parlamentares brasileiros também são muito sensíveis aos estímulos, como novamente demonstram as eleições para as mesas diretoras da Câmara e do Senado.
Entre os deputados, o favorito é Eduardo Cunha (PMDB/RJ), que tem como principal adversário o petista Arlindo Chinaglia (SP). Também candidatos, Júlio Delgado (PSB/MG) e Chico Alencar (PSOL/RJ) são meros figurantes que, no máximo, podem empurrar a disputa para o segundo turno.
No Senado, a disputa fica entre o PMDB e o PMDB do B. Com apoio oficial, Renan Calheiros (AL) tenta manter a presidência da Casa. Contra ele, o desafiante Luiz Henrique abriu uma dissidência na base governista, fato bem longe de ser novidade na vida do velho PMDB.
Na Câmara, votarão 513 deputados, dos quais 196 são parlamentares de primeira viagem ou que estão de volta. Eles são filiados a 28 partidos, quase todos com o apetite estimulado pela chance de mais cargos, visibilidade, vagas na mesa diretora, nas comissões temáticas, melhores apartamentos funcionais, gabinetes mais bem localizados, fartura nas verbas de representação e trânsito por ministérios.
Preferido entre algumas legendas da base de apoio, embora seja encarado como inimigo pelo governo, Eduardo Cunha promete maior independência da Câmara em relação ao Planalto e, claro, mais atenção aos deputados, o que inclui vários itens do parágrafo acima.
Contra ele, o núcleo mais palaciano do governo escalou uma milícia de ministros, assessores e parlamentares para pressionar indecisos, lembrar aliados dos cargos que ocupam e controlar arroubos de rebeldia.
Do lado oposicionista, o PSDB se esforça para lembrar a própria bancada de que o partido tem um aliado na disputa – o deputado Júlio Delgado, conhecido por abater petistas na Comissão de Ética e que apoiou Aécio na recente eleição presidencial. E nem assim as credenciais do pessebista parecem suficientes para impedir traições em favor de Cunha na trincheira de oposição.
Conhecedor da lógica que rege as amizades e alianças no parlamento, Aécio sabe que uma onda de defecção em massa dos Tucanos na direção do candidato do PMDB pode reabrir o caminho de volta do PSB para o ninho do governo federal, abrigo que o então partido de Eduardo Campos abandonou em 2013.
Entre os senadores, Luiz Henrique começa perdendo a disputa por 15×4, provável placar entre os eleitores do PMDB. Os três senadores do partido que declararam voto no catarinense não compareceram à reunião da bancada, em que os outros 15 ratificaram apoio a Calheiros. A situação do desafiante estaria melhor se pudesse contar com a totalidade dos votos das siglas que anunciaram estar com ele – PSDB, DEM, PDT, PSOL, PP e PSB, algo que beira a utopia.
O confronto Calheiros x Henrique resgata ainda um certo passado, já muito distante. Na efervescente Brasília do final dos anos 80, época da Nova República e da Constituinte, Luiz Henrique era um dos membros da “turma do poire”, que gravitava em torno de Ulysses Guimarães e da aguardente que batizava o grupo. Mais tarde, todos eles ajudaram a escorraçar Fernando Collor de Mello da presidência da República. Na mesma época, Calheiros era um proeminente integrante da República de Alagoas, condição que manteve até se desentender com o líder.
O certo mesmo é que tanto na Câmara, quanto no Senado temas como as reformas política e tributária foram ignorados. Deputados e senadores têm outras urgências e prioridades. Em breve, a Operação Lava Jato deverá apontar os indiciados do núcleo político. E o Espírito de Corpo do parlamento terá que estar forte e coeso para resistir e preservar a espécie, sem tempo para se dedicar às grandes reformas.
Com vocação para se garantir e reagir quando bem estimulados, Câmara e Senado seriam inspiradores campos de observação para Pavlov. Sem saber, o russo entendeu como poucos o parlamento brasileiro.
