
Gustavo Vaz
Após muitas piadas após o conclave (no qual, dom Odílio Scherer era apontado como favorito) e para desespero geral de alguns antiargentinos, Jorge Mario Bergoglio, o Papa argentino autonomeado como Francisco comandou com absoluto sucesso a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro. Não restam dúvidas do sucesso da sua passagem por solo brasileiro, onde Vossa Santidade conquistou a simpatia dos católicos desconfiados e até de ateus, agnósticos e evangélicos.
A personalidade aparentemente humilde, despojada de luxos e avessa aos protocolos católicos – um dos motivos que afastam fieis da Igreja atualmente – tocou o coração do povo. A visita de um Papa por si só já provoca rebuliço na população, principalmente num país de predominância da fé católica apostólica romana, entretanto, Francisco conseguiu, com sua simplicidade e seu discurso muito próximo aos fieis, trazer toda a atenção do país para si e para o evento (a JMJ almeja aproximar a Igreja Católica de seus seguidores mais joviais, sendo criada pelo altamente popular e carismático João Paulo II).
É nítido que o catolicismo vive uma crise, por causa dos inúmeros escândalos clericais, e pela conversão de hordas ou ao ateísmo, ou para as igrejas pentecostais. Francisco aparenta ser um Papa “melhor que a encomenda”. Proveniente de uma experiência pastoral, na Arquidiocese de Buenos Aires, era esperado que Bergoglio explorasse uma aproximação com os fieis, porém, não se esperava que o carisma do argentino fosse tanto. Quando João Paulo II faleceu, pessoalmente, pensava que demoraria muito para outro Papa atingir sua popularidade. Com Francisco começo a pensar que me enganei. Antes visto como um cardeal conservador e até amigo da ditadura argentina dos anos 1970, Bergoglio consegue sepultar todas essas más impressões com seu carisma, simplicidade e despojamento – apesar de ainda seguir um discurso adequado com os dogmas da Igreja e que não agrada aos liberais.
Não há dúvidas de que Francisco pode ser a pessoa que a Igreja precisava para reaver fieis, conquistar jovens e até modernizar a religião (ele abdicou de vários costumes luxuosos e contradizentes com o discurso de humildade que o catolicismo prega). Sua falta de medo em estar junto ao povo – com quem Bergoglio parece bem mais confortável do que com as autoridades – conquistou a todos. Era possível ver nas redes sociais pessoas não-católicas tocadas por cada parada do Papa para beijar alguma criança, ou pela sua entrada nas casas populares como se fosse um visitante qualquer (por mais que isso causasse princípios de enfarte diários em todos os seguranças que acompanhavam o pontífice, vale lembrar o trauma causado pelo ataque do turco Ali Agca a João Paulo II, em 1981, em plena Praça São Pedro).
Em termos nacionais, a Jornada evidenciou o mesmo de sempre. Muitas pessoas gritando contra os gastos públicos e contra certas medidas sem um conhecimento aparente. Claro que supostos superfaturamentos deveriam ser apurados, mas a principio me parece prudente gastar uma grana num evento que recebeu UM MILHÃO E MEIO de pessoas, tanto para comportar essa gente, adequar a logística da cidade e, após tudo isso, proporcionar retorno financeiro ao local. Os feriados decretados, segundo conhecidos cariocas, foram um tremendo acerto, dado o fluxo de pessoas atraídas pela Jornada e pelo pontífice. A crítica aos governantes fica no “elefante branco” de Guaratiba, onde a Jornada deveria ter acontecido. Porém, um fator completamente desconhecido e quase imprevisível chamado chuva forçou a mudança do evento para a praia de Copacabana.
Outro fato triste foi a intolerância cada vez mais latente de alguns movimentos minoritários que, na ânsia de conquistar direitos completamente justos, atacam seus “opressores” com a mesma estupidez com que são atacados. Cito como exemplo a Marcha das Vadias e algumas ativistas que tripudiaram e destruíram objetos sagrados no meio dos fieis. É impossível pedir respeito, se você sequer respeita o outro.
De saldo da JMJ fica a curiosidade de ver um argentino ser aclamado por todo um país e parar a segunda maior cidade do Brasil, algo que deve ter desesperado alguns que supervalorizam a rivalidade futebolística com os hermanos. Vamos ver até onde a personalidade do pontífice levará o catolicismo, uma religião que necessitava de um fôlego destes, após um êxodo de fieis durante a regência do intelectual, porém, introvertido Bento XVI. A dúvida fica na idade de Bergoglio, eleito com avançados 76 anos, algo que pode indicar um segundo papado curto consecutivo, quando a Igreja necessitava justamente o contrário.