Fundamentalistas encamparam uma verdadeira cruzada contra o que consideram ser anomalias da sociedade
Um especial de fim de ano produzido pelo canal Porta dos Fundos e exibido pela Netflix (A Primeira Tentação de Cristo) deixou religiosos católicos e evangélicos revoltados. Bispos, padres, pastores e, claro, os pastores-deputados chamando os cristãos para boicotar a Netflix, como processar Porta dos Fundos.
Não é novidade o canal provocar a ira de religiosos produzindo esquetes que brincam com o cristianismo. Uns questionam o humor com a fé alheia e os mais fundamentalistas acusam o canal de blasfemar a religião cristã porque os sócios são ateus. E questionam não mexer com Maomé. Mas é fazer uma busca rápida no canal e conferir vários vídeos zoando a religião islâmica. A proporção não é a mesma pelo motivo do Brasil ser um país que a população é 90% cristã e logicamente um vídeo zoando o islã não engaja como um vídeo de humor com católicos e evangélicos.
Mas é justo fazer humor com religião? Não sei se é justo. Cada pessoa sabe da sua religiosidade e pode se sentir ofendida. Depende da pessoa. Eu, por exemplo, não me ofendo. Sou católico não religioso e isso pode refletir no meu sentimento. O que é inconcebível é sair atacando artistas e as empresas ou partindo para censura do conteúdo. Não pode legalmente (Constituição está aí para barrar qualquer tipo de censura) e filosoficamente – aí mais pessoal – acho abjeto.
O humor é para divertir e ser contestador. Para ser um ou outro e até os dois, precisa ser livre – arcando com as consequências quando extrapolar dentro das leis. Os mesmos que criticam o politicamente correto são os primeiros a pegar em pedras quando o humor atinge sua religião. No meu conceito blasfêmia é um pastor quebrar uma santa ao vivo na TV e criticando a cor dela (negra). Mais que blasfêmia, racismo. Blasfêmia é usar a fé das pessoas para construir verdadeiros impérios em nome de Deus e usando os fieis como escada eleitoral.
Vivemos tempos estranhos que em pleno 2019 quase 2020 religiosos fundamentalistas encamparam uma verdadeira cruzada contra o que consideram ser anomalias da sociedade. Tudo em nome de Deus e para preservar o que eles consideram ser a única concepção de família.
A censura de Marcelo Crivella contra a Bienal do Livro do Rio de Janeiro é absurda, tonta (HQ vendeu como água e esgotou o estoque em horas), inconstitucional, preconceituosa. Seja por questão eleitoral (Crivella está com sua gestão muito mal avaliada) ou religiosa (Bispo licenciado e sobrinho de Edir Macedo). Nada justifica mandar fiscais da prefeitura apreender livros ou revistas que firam a sensibilidade de um grupo como se fosse uma ditadura. Tudo por uma passagem do quadrinho que dois jovens gay se beijam.
Não tem nada pornográfico e não fere a legislação. O que vai contra as leis e a Constituição é a censura praticada pelo prefeito.
Mas Crivella não está só. O governador João Doria mandou recolher material escolar que seria distribuído nas escolas de São Paulo para alunos do 8º ano do ensino fundamental por conter a famosa ideologia de gênero. A prefeitura de Fortaleza também está envolvida em uma polêmica parecida e com uma profusão de notícias falsas ou deturpadas. E o governo federal anda vetando filmes com temáticas LGBTQ+ a captar verba via Lei de Incentivo à Cultura.
Doria faz isso como bom oportunista que é e tenta ganhar a confiança do eleitorado conservador, embora conservador não seja isso, está mais para reacionários de extrema direita, escancarando que o discurso de um novo PSDB de centro não passa de falácia para enganar incautos tentando se descolar de Jair Bolsonaro como se não tivesse existido o “BolsoDoria”. No caso do Crivella também conta o lado religioso.
“Guerra cultural”, assim como “ideologia de gênero”, são nomes pomposos que usam para justificar barbaridades do tipo que aconteceu na Bienal do Rio. É verdade que existem grupos organizados que tentam empurrar agendas progressistas para toda a sociedade e é mundial. Mas falar em “guerra cultural” é bobagem. Se empresas de qualquer ramo investem em diversidade é por ter demanda. É capitalismo, estúpido!
Liberdade sem responsabilidade abriria o caminho para quem prega ódio de raças e todo tipo de preconceito
Associação católica Dom Bosco está processando o canal de humor no Youtube Porta dos Fundos pelo vídeo publicado em outubro de 2016. No vídeo, os ateus Gregório Duvivier e Fábio Porchat (o último coincidentemente apresenta um talk show na Record, que pertence ao Bispo Macedo, da Universal do Reino de Deus) satirizam como seria o céu católico.
Um cristão chega ao tal céu católico encontrando Deus e (pasmem) Adolf Hitler, enquanto muitos ícones da humanidade não estão no céu católico na visão de Duviver e Porchat, o segundo foi quem escreveu o esquete.
Essa polêmica entra em vários debates que são travados. Entra na questão qual é o limite do humor, o limite do humor em brincar com religiões e, claro, a liberdade de expressão como um todo. Como diria Jack, o Estripador, vamos por partes.
Limite do Humor
Acredito, sim, que existe um certo limite ao humor. O limite é não usar uma piada, um deboche como um disfarce para discriminação, preconceito, racismo, homofobia. E como saber até onde vai esse limite? Algumas pessoas são mais sensíveis e se ofendem com uma piada. Enquanto outras, não. Por exemplo, Danilo Gentili foi processado e condenado por, a princípio, uma piada que parecia inofensiva, mas custou um dano moral e físico a uma doadora de leite do Recife. Outro caso discutido aqui, foi o caso Levy Fidélix e o “aparelho excretor que não reproduz” em pleno debate presidencial, em TV aberta. O humorista/comediante e qualquer pessoa sarcástica precisa sentir se a piada que pensou não contém danos colaterais em terceiros. Alguns chamam de “auto patrulhamento”. Palavras ditas não voltam mais e podem devastar a vida de uma pessoa.
Limite do Humor nas Religiões
É mais sério porque mexe com a fé de outras pessoas. Se você não crê, não tem fé, não zoe quem tem. Defendo a crítica via humor para acontecimentos históricos e dogmas das religiões, de qualquer fé. O problema é quando carregam na tinta da crítica e é o caso do vídeo que resultou em processo contra o canal Porta dos Fundos. Apelaram a Hitler e Mussolini para debochar de certos costumes da Igreja católica para alcançar o céu. Será que não tinha um jeito não agressivo de brincar com tais costumes? Precisa meter Hitler na parada ou como a Revista Piauí satirizando Lula como Cristo na cruz, rodeado por Sergio Moro, Gilmar Mendes, Paulo Skaf, João Doria e Jair Bolsonaro com lanças em mão? Uma capa carregada de ideologia e verdadeira acinte contra a fé cristã.
Liberdade de Expressão
Sobre o terceiro tópico, vou colocar o artigo 5º da Constituição Cidadã, que é cristalino e dispensa mil palavras.
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
I – homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição;
II – ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei;
III – ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante;
IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
V – é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem;
VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;
VII – é assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva;
VIII – ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei;
IX – é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;
X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação
Os incisos 9 e 10 garantem tanto a liberdade de expressão, pilar basilar de uma democracia, como deixam claro que essa liberdade não é absoluta. Para libertários, a liberdade de expressão tem que ser absoluta ou não é liberdade. Liberdade sem responsabilidade abriria o caminho para quem prega ódio de raças e todo tipo de preconceito, a barbárie contra a cidadania.
É um perigo muito grande tanto poder nas mãos de uma turma que pode destruir o Estado laico
Em uma democracia participativa todos têm direito a ter representante no Parlamento. Mas a bancada religiosa (católicos + evangélicos) ultrapassa o limite desse direito. Não só ela como toda bancada BBB (Boi, bala e bíblia). Nenhum segmento da sociedade deve passar do limite que tem direito no Parlamento.
Existe uma onda conservadora que invade a sociedade e, consequentemente, o Parlamento. Deputados e Senadores são eleitos pelo povo, então a política é reflexo da população. O brasileiro é, na média, conservador. A prova disso é encontrada na pesquisa em que 87% da população é favorável a redução da maioridade penal.
Sou contra reduzir a maioridade penal para todos os crimes porque se essa proposta passar eles logo vem com a pena de morte e certeza terá apoio de boa parcela da população. Pode não ter o apoio absoluto como o tema da redução da maioridade penal, mas o apoio será grande e pode até acontecer uma divisão.
É um perigo muito grande tanto poder nas mãos de uma turma que pode destruir o Estado laico, que existe para que não se repita erros do passado onde religião e política se misturavam e provocou grandes tragédias.
Jorge Mario Bergoglio, o Papa argentino autonomeado como Francisco
Gustavo Vaz
Após muitas piadas após o conclave (no qual, dom Odílio Scherer era apontado como favorito) e para desespero geral de alguns antiargentinos, Jorge Mario Bergoglio, o Papa argentino autonomeado como Francisco comandou com absoluto sucesso a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro. Não restam dúvidas do sucesso da sua passagem por solo brasileiro, onde Vossa Santidade conquistou a simpatia dos católicos desconfiados e até de ateus, agnósticos e evangélicos.
A personalidade aparentemente humilde, despojada de luxos e avessa aos protocolos católicos – um dos motivos que afastam fieis da Igreja atualmente – tocou o coração do povo. A visita de um Papa por si só já provoca rebuliço na população, principalmente num país de predominância da fé católica apostólica romana, entretanto, Francisco conseguiu, com sua simplicidade e seu discurso muito próximo aos fieis, trazer toda a atenção do país para si e para o evento (a JMJ almeja aproximar a Igreja Católica de seus seguidores mais joviais, sendo criada pelo altamente popular e carismático João Paulo II).
É nítido que o catolicismo vive uma crise, por causa dos inúmeros escândalos clericais, e pela conversão de hordas ou ao ateísmo, ou para as igrejas pentecostais. Francisco aparenta ser um Papa “melhor que a encomenda”. Proveniente de uma experiência pastoral, na Arquidiocese de Buenos Aires, era esperado que Bergoglio explorasse uma aproximação com os fieis, porém, não se esperava que o carisma do argentino fosse tanto. Quando João Paulo II faleceu, pessoalmente, pensava que demoraria muito para outro Papa atingir sua popularidade. Com Francisco começo a pensar que me enganei. Antes visto como um cardeal conservador e até amigo da ditadura argentina dos anos 1970, Bergoglio consegue sepultar todas essas más impressões com seu carisma, simplicidade e despojamento – apesar de ainda seguir um discurso adequado com os dogmas da Igreja e que não agrada aos liberais.
Não há dúvidas de que Francisco pode ser a pessoa que a Igreja precisava para reaver fieis, conquistar jovens e até modernizar a religião (ele abdicou de vários costumes luxuosos e contradizentes com o discurso de humildade que o catolicismo prega). Sua falta de medo em estar junto ao povo – com quem Bergoglio parece bem mais confortável do que com as autoridades – conquistou a todos. Era possível ver nas redes sociais pessoas não-católicas tocadas por cada parada do Papa para beijar alguma criança, ou pela sua entrada nas casas populares como se fosse um visitante qualquer (por mais que isso causasse princípios de enfarte diários em todos os seguranças que acompanhavam o pontífice, vale lembrar o trauma causado pelo ataque do turco Ali Agca a João Paulo II, em 1981, em plena Praça São Pedro).
Em termos nacionais, a Jornada evidenciou o mesmo de sempre. Muitas pessoas gritando contra os gastos públicos e contra certas medidas sem um conhecimento aparente. Claro que supostos superfaturamentos deveriam ser apurados, mas a principio me parece prudente gastar uma grana num evento que recebeu UM MILHÃO E MEIO de pessoas, tanto para comportar essa gente, adequar a logística da cidade e, após tudo isso, proporcionar retorno financeiro ao local. Os feriados decretados, segundo conhecidos cariocas, foram um tremendo acerto, dado o fluxo de pessoas atraídas pela Jornada e pelo pontífice. A crítica aos governantes fica no “elefante branco” de Guaratiba, onde a Jornada deveria ter acontecido. Porém, um fator completamente desconhecido e quase imprevisível chamado chuva forçou a mudança do evento para a praia de Copacabana.
Outro fato triste foi a intolerância cada vez mais latente de alguns movimentos minoritários que, na ânsia de conquistar direitos completamente justos, atacam seus “opressores” com a mesma estupidez com que são atacados. Cito como exemplo a Marcha das Vadias e algumas ativistas que tripudiaram e destruíram objetos sagrados no meio dos fieis. É impossível pedir respeito, se você sequer respeita o outro.
De saldo da JMJ fica a curiosidade de ver um argentino ser aclamado por todo um país e parar a segunda maior cidade do Brasil, algo que deve ter desesperado alguns que supervalorizam a rivalidade futebolística com os hermanos. Vamos ver até onde a personalidade do pontífice levará o catolicismo, uma religião que necessitava de um fôlego destes, após um êxodo de fieis durante a regência do intelectual, porém, introvertido Bento XVI. A dúvida fica na idade de Bergoglio, eleito com avançados 76 anos, algo que pode indicar um segundo papado curto consecutivo, quando a Igreja necessitava justamente o contrário.