Manga com leite para os pobres não mata

Fábio Piperno

O Bolsa Família é um manancial de votos. O Mais Médicos, idem. Só que não há nenhum motivo para não tê-los, como aliás reconhecem até mesmo críticos do governo. Aécio Neves é um deles. Falou que se eleito vai reformular o Mais Médicos. Pretende fazer ajustes e garante que até os médicos cubanos apoiarão as mudanças que promete fazer. Eduardo Campos criticou o que chama de “ausência de porta saída” para o Bolsa Família. No entanto, em momento algum ousa defender a extinção do programa. Mas ambos apoiam com moderação. Afinal, a tradição no Brasil indica que o investimento em programas sociais, benefícios trabalhistas ou mesmo em educação gratuita é alvo certo para os críticos equivocados.

Foi assim, por exemplo, quando Getúlio Vargas patrocinou a legislação trabalhista em grande parte ainda vigente. Naquele tempo, de relações menos sofiscadas e de desprezo pelas práticas democráticas, GV aprovou na marra e de forma autocrática as regras que modernizaram as relações entre capital e trabalho. Ele optou pela via autoritária para criar a CLT, por meio da qual o operário nacional ganhou o direito de gozar férias, descanso semanal remunerado e de, enfim, escapar da condição de semi-escravidão em que se encontrava. Benefícios que, infelizmente, a nascente burguesia tupiniquim se negava a conceder a quem trabalhava em suas empresas.

Décadas mais tarde, o governador Leonel Brizola, forjado nos fornos do varguismo, lançou no Rio de Janeiro os Cieps, as escolas de tempo integral que ficariam conhecidas como ´brizolões´. A iniciativa foi combatida à esquerda pelo PT e à direita pelos partidos conservadores. O argumento que unia os críticos dos dois lados condenava a escola de tempo integral por ser cara demais para um estado que tinha outras prioridades. Até porque, pecado extremo, aquelas unidades de ensino tinham até piscina à disposição daqueles filhos das favelas cariocas. E assim que o segundo governo Brizola chegou ao fim, o ensino público de tempo integral recebeu o atestado de óbito. Desativadas, algumas daquelas escolas ainda hoje resistem. Mas são apenas fantasmas de concreto, sem condições para receber crianças de comunidades onde o tráfico recrutava soldados mirins em cada viela.

No caso das escolas em tempo integral, venceu a tradição nacional de achar que investimento em pobre é sempre caro. Afinal, aprendemos que os miseráveis podem sempre esperar mais um pouco, que a vez deles um dia vai chegar. Não podemos esquecer, claro, da teoria predominante durante o Milagre Econômico, em pleno ciclo militar. Dizia o célebre ministro Delfim Netto que era necessário primeiro fazer o bolo crescer, para depois reparti-lo. Quatro décadas depois, milhões ainda seguem na fila em busca do seu pedaço.

O tempo passa, mas os costumes resistem. Lembro daquela música do Chico Buarque, que sugeria jogar pedras na Geni. O Bolsa Família e o Mais Médicos são as atuais Genis, na mira do alto escalão e da classe média, que se negam a olhar para o andar de baixo. No Brasil, os miseráveis só merecem as mangas que apodrecem no pé e jamais o leite que alimenta. E se ousarem misturá-los, correm risco de morte, como na falsa lenda desmitificada por Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala.

Miseráveis que se sustentam dos favores de um governo perdulário e demagogo, independente do partido que esteja no comando, são seres indolentes que não se esforçam para sair pelos próprios méritos do estado de indigência, nos ensinam os críticos esclarecidos. Como se alguém no Brasil tenha prosperado sem algum empurrão do Estado! Não quer acreditar? Então diga uma coisa: quem recebe mais privilégios, o funcionário público que tem sua aposentaria integral preservada até morrer (e até depois dela por meio de pensões) ou o beneficiário do Bolsa Família?

Quem se beneficia mais com o rico e suado dinheiro dos impostos recolhidos dos brasileiros, o paciente do Mais Médicos ou o empresário que foi sacar dinheiro barato no caixa do BNDES? O gabiru do Bolsa Família está realmente custando mais caro para o Estado do que o filho do figurão que ingressa na universidade pública para receber, GRATUITAMENTE, o melhor ensino que o Brasil é capaz de oferecer? E qual a contrapartida para o país de quem tem recursos, mas estuda sem pagar nas universidades públicas, mantidas com os impostos de ricos e de pobres?

Estava me esquecendo daquela elite de trabalhadores privados que se beneficia, via incentivos fiscais, dos tíquetes refeição, alimentação, transporte e, agora, cultura. Tudo isso custa dinheiro para o erário, que aceita pagar a conta porque sabe que essas iniciativas têm grande retorno social. Bom, mas por que esses felizardos do mercado formal podem receber os tais benefícios e os do Bolsa Família não? Nem quero entrar no terreno das benfeitorias que o Estado proporciona a proprietários da cidade e do campo, sempre com recursos públicos. Mas deveria!

A verdade é que, desde que Cabral aqui desembarcou, o Estado brasileiro sempre foi pródigo em distribuir favores, recursos e oportunidades ao topo e, mais tarde, ao meio da pirâmide. Mas sempre que faz algum aceno para a base, estimula a indolência, se beneficia da ignorância e desperdiça energia e dinheiro com quem não merece. Se quiser mesmo resolver, “tem que promover o desenvolvimento”. E para solucionar o déficit de atendimento na saúde, “precisa adotar uma política para o setor”.

Nada mais perverso que esse discurso que olimpicamente se distancia e faz de conta que essas mazelas não são problemas nossos. Ninguém nega que desenvolvimento e políticas de saúde sejam fundamentais. Mas enquanto isso não vem, a fome e a dor não podem mais esperar. Enquanto se espera, que se comam as mangas e se beba o leite. Porque juntos, não fazem mal a ninguém.

Medicina aloprada

Medicos protestando contra o ministro da saúde, Alexandre Padilha (Daia Oliver/R7)

Gustavo Vaz

A classe médica brasileira vêm ganhando muitos holofotes nos últimos meses, principalmente, pelas atitudes tomadas diante do Programa ‘Mais Médicos’, lançado por Dilma Rousseff. A rejeição da classe ao programa supera de longe o discurso da própria oposição, especialista em ‘cornetar’ qualquer movimento que Dilma e seus blue caps pensem em fazer. Entretanto, tamanha revolta vem causando uma péssima imagem dos médicos perante a sociedade em geral.

Nossos nobres médicos passam por uma seleção selvagem para entrar em universidades (qualquer uma de boa qualidade tem concorrências imensas, sejam públicas ou privadas), e quando entram passam seis anos se matando de estudar para na sequência enfrentar mais uns anos em residência, após tudo isto, finalmente poderão conseguir um posto de médico no mercado. Pois bem, todo esse processo parece destruir alguns neurônios desses cidadãos, além de causar uma mentalidade individualista, aborrecida, gananciosa e corporativista, tudo ao contrário do cuidado e altruísmo que a profissão médica requisita.

Para passar todas essas etapas descritas acima, o pretendente à medicina precisará ter recursos financeiros para bancar cursinho, material e mensalidade (em caso de instituições particulares). Desta maneira, a maioria dos jovens que se tornam médicos acaba vindo das classes mais abastadas do país. Ora, todas as pessoas esclarecidas desta nação conhecem o pensamento preguiçoso e elitista que as pessoas destas classes conservam. A partir daí se explicam algumas atitudes vistas nas últimas semanas, com uma dose cavalar de corporativismo, é claro.

Há um desejo geral dos médicos brasileiros de montar seu consultório particular, depender apenas dele, e que seja num centro urbano grande, de preferência. Ir para o interior, mesmo com salários nas casas das dezenas de milhar, nem pensar. Pelo sistema público, então… Pode esquecer. “Ah, mas estas cidades não têm estrutura”, dirão alguns. Concordo, a estrutura médica brasileira é deficitária e vexatória, para dizer o mínimo, e apoio completamente à luta para que haja uma melhora neste ponto. Porém, nada justifica o deserto de médicos nas cidades interioranas deste país dadas. No Paraná (estado em que vivo), por exemplo, 36 cidades não têm sequer um médico trabalhando pelo SUS.

Para tentar suprir esta falta de profissionais nos rincões do Brasil, Dilma e seu governo criaram o Programa ‘Mais Médicos’ que prevê a importação de profissionais estrangeiros, além de outros pontos como a passagem obrigatória dos estudantes pelo SUS antes da formatura (posteriormente revogado). O que se viu após a tomada destas medidas foi um show de xenofobia e até racismo. Os episódios ocorridos em Fortaleza, na última semana, são um exemplo claro desta ideologia. Há um preconceito claro contra cubanos, em especial, com a justificativa de que são profissionais inferiores e de que a medicina deles é reconhecida apenas popularmente, mas não pelas instituições do setor. Nada que justifique, mais uma vez, as vaias e ofensas gratuitas aplicadas aos estrangeiros.

Pode-se discutir a maneira como os salários serão pagos a estes cubanos? Sim, sem dúvida, afinal dar a verba para o governo de lá repassar aos profissionais é discutível. Há também o problema de possíveis deserções, que o governo brasileiro poderá ter que lidar, com a possibilidade de tomar atitudes de plena fraternidade diplomática. Mas, rechaçar uma ajuda a lugares não ocupados pela medicina é deplorável.

Além dos problemas aqui listados, pode-se questionar a classe médica por diversos outros defeitos. Falta de conhecimento no atendimento, relação fria com o paciente, qualificação questionável, padronização nos diagnósticos, erros médicos crassos… Enfim, o corporativismo é apenas um defeito na formação aparentemente falha dos profissionais da saúde do Brasil. Provavelmente, o lado humano da profissão é pouquíssimo abordado durante as graduações país afora.

Fica também a reflexão de que a sociedade paga (via impostos) para uma educação superior que forme profissionais de qualidade, dentre eles, médicos. O que se espera é que estes profissionais retribuam a população o que ela gastou, em forma de bons serviços (como citado neste texto do site Ouro de Tolo). A atitude dos médicos atuais parece mais preocupada em retribuir apenas às suas próprias contas bancárias. Enquanto isso acontecer, veremos absurdos, como hospitais de alta demanda, e que já oferecem consultas uma vez a cada morte de papa, parados por causa de uma ideologia egoísta, pra dizer o mínimo.

Quem vêm de longe para se consultar num hospital da cidade grande, num espaço conquistado há meio ano, é obrigado a voltar de mãos vazias, porque os médicos que não querem ir até a cidade destes pacientes, também querem impedir que importem gente de fora para ocupar este vazio. Nada mais simbólico.