Huck acertou sobre o BF

O apresentador Luciano Huck fez um comentário sobre o programa Bolsa Família desagradando muitos e, óbvio, distorceram a sua fala na pura maldade para farmar likes, views e para discurso político. Aliás, o programa Bolsa Família tem gênese liberal e muitos economistas de esquerda criticavam a ideia de uma renda básica.

A ideia de unificar os programas sociais aconteceu porque o Fome Zero foi um fracasso retumbante no primeiro governo Lula, que aceitou o conselho do então governador de Goiás, Marconi Perillo, sob críticas desses mesmos economistas e pessoas do próprio governo.

Voltando ao Huck, a sua fala foi apontando problemas no programa que afetam o desenvolvimento do país. Não pediu o fim dele. Vários municípios nos rincões o BF virou o carro-chefe da economia local e os dependentes do auxílio perderam o estímulo de procurar trabalho seja por falta dele ou acomodação.

Mas é mais fácil acusar o apresentador de ser elitista preconceituoso divulgando o seu alto salário, explorando itens caros que os filhos usam como se fosse crime ser rico.

Tejuçuoca completa 30 anos de emancipação política

Tejuçuoca completa 30 anos de emancipação política. É ainda uma jovem cidade no meio do semiárido nordestino na parte cearense, mas Tejuçuoca entrou na fase adulta com conquistas e derrotas.

Desde 13 de janeiro de 1988 (foi emancipada em 28 de dezembro de 1987, pela lei 11.414, mas saiu no Diário Oficial do Estado no ano seguinte) muita coisa aconteceu e, ao mesmo tempo, a mesmice continua reinando.

Já foram realizadas 8 eleições para eleger o prefeito, vice-prefeito e vereadores. Apesar de ser tempo suficiente para um amadurecimento político, inclusive elegendo a primeira mulher prefeita na eleição de 2016, o caciquismo político ainda é forte.

O poder Executivo de Tejuçuoca é dominante e a Câmara de Vereadores é um mero carimbador de projetos da prefeitura. A prefeitura é o grande polo concentrador da economia – junto com aposentados do INSS e Bolsa Família – do município, com comércios de pequeno e médio porte.

Há pequenas indústrias de confecções, mas a industrialização não chegou e não tem sinal que vai chegar tão cedo. Enquanto isso, o sonho de muitos é ter um emprego público. O brasileiro é concurseiro nato, o tejuçuoquense eleva isso a enésima potência com uma economia muito dependente do Estado até pela carência de infraestrutura e condição de vida um pouco melhor. O voto não é um ato de cidadania e sim uma obrigação para tal candidato depois de eleito retribua a ajuda na eleição.

Mas o povo de Tejuçuoca é, na média, um povo batalhador que precisa matar um leão por dia para sobreviver. E com conscientização mudaremos a mentalidade clientelista dominante para, de fato, uma cidadania plena. Pode parecer clichê e otimismo, mas precisamos de otimismo e até um pouco de utopia às vezes para transformar realidades desfavoráveis em algo melhor.

Que os próximos 30 anos sejam de mais vitórias do que derrotas e das derrotas se extraia aprendizado.

Manga com leite para os pobres não mata

Fábio Piperno

O Bolsa Família é um manancial de votos. O Mais Médicos, idem. Só que não há nenhum motivo para não tê-los, como aliás reconhecem até mesmo críticos do governo. Aécio Neves é um deles. Falou que se eleito vai reformular o Mais Médicos. Pretende fazer ajustes e garante que até os médicos cubanos apoiarão as mudanças que promete fazer. Eduardo Campos criticou o que chama de “ausência de porta saída” para o Bolsa Família. No entanto, em momento algum ousa defender a extinção do programa. Mas ambos apoiam com moderação. Afinal, a tradição no Brasil indica que o investimento em programas sociais, benefícios trabalhistas ou mesmo em educação gratuita é alvo certo para os críticos equivocados.

Foi assim, por exemplo, quando Getúlio Vargas patrocinou a legislação trabalhista em grande parte ainda vigente. Naquele tempo, de relações menos sofiscadas e de desprezo pelas práticas democráticas, GV aprovou na marra e de forma autocrática as regras que modernizaram as relações entre capital e trabalho. Ele optou pela via autoritária para criar a CLT, por meio da qual o operário nacional ganhou o direito de gozar férias, descanso semanal remunerado e de, enfim, escapar da condição de semi-escravidão em que se encontrava. Benefícios que, infelizmente, a nascente burguesia tupiniquim se negava a conceder a quem trabalhava em suas empresas.

Décadas mais tarde, o governador Leonel Brizola, forjado nos fornos do varguismo, lançou no Rio de Janeiro os Cieps, as escolas de tempo integral que ficariam conhecidas como ´brizolões´. A iniciativa foi combatida à esquerda pelo PT e à direita pelos partidos conservadores. O argumento que unia os críticos dos dois lados condenava a escola de tempo integral por ser cara demais para um estado que tinha outras prioridades. Até porque, pecado extremo, aquelas unidades de ensino tinham até piscina à disposição daqueles filhos das favelas cariocas. E assim que o segundo governo Brizola chegou ao fim, o ensino público de tempo integral recebeu o atestado de óbito. Desativadas, algumas daquelas escolas ainda hoje resistem. Mas são apenas fantasmas de concreto, sem condições para receber crianças de comunidades onde o tráfico recrutava soldados mirins em cada viela.

No caso das escolas em tempo integral, venceu a tradição nacional de achar que investimento em pobre é sempre caro. Afinal, aprendemos que os miseráveis podem sempre esperar mais um pouco, que a vez deles um dia vai chegar. Não podemos esquecer, claro, da teoria predominante durante o Milagre Econômico, em pleno ciclo militar. Dizia o célebre ministro Delfim Netto que era necessário primeiro fazer o bolo crescer, para depois reparti-lo. Quatro décadas depois, milhões ainda seguem na fila em busca do seu pedaço.

O tempo passa, mas os costumes resistem. Lembro daquela música do Chico Buarque, que sugeria jogar pedras na Geni. O Bolsa Família e o Mais Médicos são as atuais Genis, na mira do alto escalão e da classe média, que se negam a olhar para o andar de baixo. No Brasil, os miseráveis só merecem as mangas que apodrecem no pé e jamais o leite que alimenta. E se ousarem misturá-los, correm risco de morte, como na falsa lenda desmitificada por Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala.

Miseráveis que se sustentam dos favores de um governo perdulário e demagogo, independente do partido que esteja no comando, são seres indolentes que não se esforçam para sair pelos próprios méritos do estado de indigência, nos ensinam os críticos esclarecidos. Como se alguém no Brasil tenha prosperado sem algum empurrão do Estado! Não quer acreditar? Então diga uma coisa: quem recebe mais privilégios, o funcionário público que tem sua aposentaria integral preservada até morrer (e até depois dela por meio de pensões) ou o beneficiário do Bolsa Família?

Quem se beneficia mais com o rico e suado dinheiro dos impostos recolhidos dos brasileiros, o paciente do Mais Médicos ou o empresário que foi sacar dinheiro barato no caixa do BNDES? O gabiru do Bolsa Família está realmente custando mais caro para o Estado do que o filho do figurão que ingressa na universidade pública para receber, GRATUITAMENTE, o melhor ensino que o Brasil é capaz de oferecer? E qual a contrapartida para o país de quem tem recursos, mas estuda sem pagar nas universidades públicas, mantidas com os impostos de ricos e de pobres?

Estava me esquecendo daquela elite de trabalhadores privados que se beneficia, via incentivos fiscais, dos tíquetes refeição, alimentação, transporte e, agora, cultura. Tudo isso custa dinheiro para o erário, que aceita pagar a conta porque sabe que essas iniciativas têm grande retorno social. Bom, mas por que esses felizardos do mercado formal podem receber os tais benefícios e os do Bolsa Família não? Nem quero entrar no terreno das benfeitorias que o Estado proporciona a proprietários da cidade e do campo, sempre com recursos públicos. Mas deveria!

A verdade é que, desde que Cabral aqui desembarcou, o Estado brasileiro sempre foi pródigo em distribuir favores, recursos e oportunidades ao topo e, mais tarde, ao meio da pirâmide. Mas sempre que faz algum aceno para a base, estimula a indolência, se beneficia da ignorância e desperdiça energia e dinheiro com quem não merece. Se quiser mesmo resolver, “tem que promover o desenvolvimento”. E para solucionar o déficit de atendimento na saúde, “precisa adotar uma política para o setor”.

Nada mais perverso que esse discurso que olimpicamente se distancia e faz de conta que essas mazelas não são problemas nossos. Ninguém nega que desenvolvimento e políticas de saúde sejam fundamentais. Mas enquanto isso não vem, a fome e a dor não podem mais esperar. Enquanto se espera, que se comam as mangas e se beba o leite. Porque juntos, não fazem mal a ninguém.

A VARA DE PESCAR

Aloisio Villar

Uma amiga minha chamada Victória sempre comenta comigo dos textos que escrevo para cá, no Ouro de Tolo e em meu blog. São seis inéditos e três republicações por semana juntando os três então é coisa pra caramba.

Gostei que nessa última semana ela veio me dar uma dica de texto. Tirando o dono do Ouro de Tolo e deste espaço, que às vezes dão dicas, é a primeira vez que recebo uma. A primeira de um leitor e foi bastante interessante. Achei que tinha tudo a ver com o Brasil Decide.

Ela veio falar comigo sobre assistencialismo. Que sempre lhe procuram devido a esse assunto e às vezes ela fica de saco cheio. Acha que está fazendo um papel que não é o dela e decidiu que não iria mais ajudar.

Atitude polêmica que ela tem todo o direito de tomar. Ela então pediu que eu escrevesse sobre o assunto. Procurei em textos antigos e vi que resvalei no assunto, mas nunca falei dele especificamente. Estava aí a oportunidade e agradeço a Victória pela sugestão.

Como eu disse ela não tem obrigação nenhuma de ajudar, de dar algo. A obrigação disso é dos governantes. Governos federal, estaduais e municipais que recebem todos os meses impostos da população para terem direitos. Direito à educação, saúde, segurança, a uma aposentadoria confortável. O direito de ter o que comer, onde morar e não viver na miséria.

O ideal seria isso né? Principalmente a população ter a consciência que nada que fazem é favor, tudo tem uma troca. Se existem escolas e hospitais públicos não é um favor que o governo faz, pagamos por isso. O policial que nos protege não protege por favor deste ou do governador. O cidadão paga para ter essa proteção e paga o salário dele. Os nossos governantes mesmo são funcionários nossos.

Só que a população esquece ou não é informada sobre isso e dessa forma não corre atrás de seus direitos. O brasileiro é um dos povos que paga mais impostos no mundo e a contrapartida é péssima. O serviço oferecido a ele é muito inferior ao que ele paga então restam duas alternativas. Para os mais pobres aturar e sofrer com essa situação. Ter que enfrentar filas, profissionais maus preparados e contar com a sorte. Muito pouco.

Quem tem grana paga por hospitais, escolas, seguranças particulares. Quer dizer, é obrigado a pagar duas vezes para ter o mesmo serviço porque o governo não dá conta.

O governo não dá conta de sua população e por isso o povo vira assistencialista. Ao mesmo tempo em que somos governados ao longo dos séculos por pessoas sem capacidade para atender as necessidades básicas da população o brasileiro tornou-se um dos povos mais solidários do mundo. São inúmeras as campanhas para ajudar a população mais pobre como “Campanha do agasalho”, “Natal sem fome”, “Criança Esperança”, “Teleton”, a própria campanha contra a fome feita pelo Betinho e fundações feitas por pessoas com mais condições como a Xuxa e Ayrton Senna.

Também é uma prática muito comum feita por políticos que abrem fundações em seu nome e de parentes para práticas assistencialistas. Aqui na Ilha do Governador , Rio de Janeiro, temos a “Fundação Graça Pereira” que tem médicos, dentistas, oculistas, etc. Antigamente tínhamos o deputado Albano Reis que ganhou a alcunha de “Papai Noel de Quintino” porque distribuía brinquedos às crianças da região.

Essa prática dos políticos é sempre interessante ver com pé atrás. Primeiro porque não sai do bolso deles o dinheiro pra manter essas fundações e segundo porque a grande maioria na verdade fermenta o “voto de cabresto”.

Ultimamente o governo também se tornou assistencialista. Primeiro com leis como a “Lei Rouanet” de incentivo à cultura que ajuda a cineastas, cantores e dramaturgos a fazerem seus filmes, shows e peças e estimula a iniciativa privada a investir em cultura e ter abatimento em impostos.

Depois vieram as cotas como para negros em universidades e por fim ações polêmicas como “Bolsa família” que dá dinheiro a famílias mais pobres.

São situações polêmicas que fazem muita gente torcer o nariz. Oposicionistas dizem que são manobras eleitoreiras e que bolsas como essa dão o peixe e não ensinam a pescar.

A velha metáfora da vara de pescar.

Eu penso que estão certos em parte. Realmente o certo é entregar a vara de pescar e ensinar a que busque o peixe para não depender de ninguém.

Mas como eu já disse inclusive aqui. Faz o que enquanto isso? Deixa morrer de fome?

Acho que as ações têm que ser em conjunto. Precisamos dar o peixe como na bolsa família e precisamos ensinar a pescar investindo em educação com eu sempre falo. Uma coisa que acho interessante é que as crianças das famílias que recebem bolsa família têm que estudar. Tá certo, mas é bom também dar boas escolas e professores qualificados e com salários dignos para elas.

Sou a favor de cotas também para diminuir a discrepância hoje existente nesse país. Mas mais que cota para negros sou a favor da cota para os mais pobres.

Mas o mais importante nisso tudo é acabar com a porcaria do “jeitinho” que tanto comanda esse país desde que Caminha em 1500 pediu na famosa carta ao rei de Portugal emprego para o sobrinho. Tem que parar essa história do brasileiro querer se dar bem em tudo.

Cota tem que ser para o beneficiado da cota. Não é uma pessoa ficar o dia todo no Sol e se declarar mulato para ter direito à cota. Não é família que tem condições financeiras se inscrever para o bolsa família. Temos inúmeros casos por aí dos dois assuntos e o que mata esse país é isso. Mania de querer se dar bem em tudo.

Os projetos bem fiscalizados, bem conduzidos são bons e já mostram reflexo quando saem reportagens que os cotistas tiram as maiores notas na faculdade e as crianças agraciadas com bolsa família vêm rendendo bem nas escolas.

Esses jovens universitários e essas crianças estão recebendo o peixe e sabendo dar valor a ele. Já sabem segurar na vara de pescar e colocar a minhoca no anzol. Vão aprender agora a jogar a linha no mar e ter paciência..

…Paciência para criar um país melhor. Um país que não necessite de tanto solidariedade.

E que a nossa pescaria seja um mar mais calmo e justo.