Carandiru carioca

Não é fácil escrever o que aconteceu no Rio de Janeiro entre ontem e hoje. Não existe mais possibilidade de conversa e debate. O debate público virou torcida no pior sentido. As pessoas passaram a defender a sua opinião independente dos fatos e defendem o seu lado ideológico com mais vontade do que o seu time de futebol ou a seleção em copa do mundo.

Governador Cláudio Castro (PL), que já possuía as operações policiais mais letais do RJ, conseguiu superar o massacre do Carandiru de São Paulo. 121 a 111. É o placar do campeonato da carnificina.

Para o secretário de Polícia Civil do Rio, Felipe Curi, quem reclama da operação é “narcoativista”. É para aplaudir uma operação que resultou em mais de uma centena de cadáveres, com 4 policiais que deixaram famílias chorando, o palanque perfeito para as eleições.

Mais de uma centena de cadáveres que, mesmo que de alguma forma faziam parte do Comando Vermelho, não é assim que devem ser tratados: condenandos à morte de forma sumária, sem investigação e julgamento. (PS: NÃO EXISTE PENA DE PENA MORTE NO BRASIL e mesmo em países que aplicam a pena capital existem trâmites legais)

Definitivamente, não é esse o modelo bem sucedido de combater o crime.

Licença para matar de Witzel não é política de segurança pública

A eleição do atual governador fluminense veio na onda de um discurso de confronto contra a bandidagem e entendo o sentimento dos cariocas e fluminenses cansados de tanta violência. Dos brasileiros. Só que não se combate criminalidade com mais violência e é tão óbvio que virou clichê. De tanto se martelar que direitos humanos são para proteger bandidos de um lado, uma certa indulgência de alguns da esquerda para quem comete crimes, descaso na segurança pública por autoridades, criou-se um clima que só na bala para resolver o problema.

A política de segurança “mirando na cabecinha” e dando autorização para atirar em qualquer um que seja suspeito de carregar um fuzil, mesmo se o “fuzil” for um guarda-chuva ou um tripé de uma câmera, é a política da barbárie. Não tem nada de uma política de segurança pública séria e responsável. Sair do helicóptero comemorando que um sequestrador de um ônibus foi executado pela polícia mostra o caráter de um governante e do ser-humano que se diz cristão. Independentemente se a ação foi legítima e necessário (no caso em tela, foi), não é papel de um governador sair como uma gazela saltitante brindando a morte.

A política séria e responsável de segurança aposta na inteligência, no preparo profissional, financeiro, condições de trabalho e psicológico das forças de segurança. A política de segurança que não coloca em risco a vida da população da favela e do asfalto é a que combate o tráfico de armas do crime organizado e de milícias.

A morte de Agatha Vitória Sales Félix, de apenas 8 anos, é de revoltar, um braço do Estado matou uma criança que deveria proteger. Não consigo classificar a gravidade. Sabe o que é ainda pior? Vai ficar por isso mesmo e logo será esquecida virando um mero número na estatística dos cadáveres (entre civis, policiais e bandidos) contabilizados. Só restará a lembrança e a dor dos pais, familiares, amigos e conhecidos. Não tem argumento que justifique a política fascistoide e sanguinária do governador Wilson Witzel, que está com as mãos suja do sangue de Agatha e outros.

Temer faz história

O presidente Michel Temer faz história. Depois da intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro, agora a criação do Ministério da Segurança Pública e um militar, por enquanto interinamente, para comandar o Ministério da Defesa. Raul Jungmann passa da Defesa para Segurança Pública, dentre os nomes que a imprensa especulava é o melhor para o cargo por ter liderado várias GLOs (Garantia da Lei e da Ordem). Desde a criação do Ministério da Defesa, em 1999, no governo FHC, nunca um militar havia chefiado o ministério que comanda as Forças Armadas.

É claro que teria o “choro” da turma que acha um “retrocesso” um militar comandar a pasta dos militares. A turma que ainda teme que os militares tomem o poder novamente. Já passou da hora de deixar essa mania de demonizar o Exército, Marinha e Aeronáutica, que existem para proteger a nação.

Além da esquerda revolucionária e “caviar”, os “zé planilhas” criticam a criação de um novo ministério por receio de aumentar o custo público. O certo seria ter no mínimo 20 ministérios. Ao assumir a presidência, Temer trabalhava com a ideia de ter de 22 a 25 ministros, mas por foça maior está chegando ao 29º – 10 a menos que Dilma.

Mas o novo ministério não vai aumentar custos. A nova pasta vai incorporar atribuições do Ministério da Justiça, como PF, PRF, Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN) e Secretaria Nacional de Segurança Pública (Força Nacional). O objetivo é fazer um trabalho interligado com secretarias estaduais para começar tardiamente reorganizar a segurança pública no combate ao crime organizado. É o governo federal depois de anos a violência crescente e homicídios por ano chegar ao inacreditável 60 mil mortes no país, muito mais que em países em guerra, tomando as rédeas desse problema que fugiu do controle.

A foto e a narrativa

Uma imagem na capa do jornal Folha de São Paulo da última quarta-feira comoveu a internet. Crianças tiveram mochilas revistadas por soldados do Exército. É comum traficantes usarem crianças para várias funções no tráfico, inclusive usar bolsas de estudantes para transportar drogas. Por que não? Quem suspeitaria?

Não aconteceu nada com as crianças. A imagem de uma garotinha negra com cara de espanto olhando para um soldado choca no primeiro momento. Quem garante, porém, que o olhar dela é de medo? Pode ser até de admiração e, mais provável, de curiosidade.

Mas a imagem viralizou na velocidade de uma bala e oportunistas contrários a usar Forças Armadas no papel de polícia e contra a intervenção federal na segurança do Rio logo ficaram revoltados com tal procedimento. Mais engraçado é a revolta por vistoria nas mochilas de crianças e nada de se revoltar contra traficantes que usam crianças para vários serviços do tráfico, inclusive transportar drogas na mochila de estudantes.

Para essa turma de revoltadinhos traficante é “vítima” de uma política que fracassou – guerra às drogas – e o melhor é liberar ou descriminalizar a maconha, até drogas pesadas. Para essa turma se combate o crime organizado com vídeo de imagens bonitas ao som de Imagine, flores, texto e hashtag em rede social.

No fundo, artistas como Gregorio Duvivier e os playboy da zona sul estão com medo da intervenção sufocar o comércio de drogas e do preço da maconha subir ou ficar escasso. Quem compra drogas financia o tráfico e suja as mãos de sangue das vítimas de bala perdida, dentre elas crianças, centenas de polícias mortos só em 2017.

Os “descolados” estão pouco se importando com o Rio, se a cidade, o estado e o país vivem uma guerra civil não declarada. A turma só quer “fumar, cheirar, lacrar, comer, berber e meter” ouvindo Pabllo Vittar e Anitta. Quem explora a foto não está nem aí com a criança, desde que ajude a propagar as ideias e a vencer a narrativa.

Menos bravatas; mais ação

Mais um caso de rebelião em presídios e delegacias no Brasil. A bola da vez é a cidade de Itapajé, a 125 quilômetros da capita Fortaleza/CE. Fações rivais entraram em luta sangrenta e muitos presos aproveitaram para fugir. O mesmo Ceará que teve a maior chacina de sua história dias antes.

No início do ano foi em Aparecida de Goiânia/GO. Em 2017, Manaus/AM e Natal/RN sofreram com rebeliões.

Não é de hoje, nem de ontem, que os presídios brasileiros são medievais e a carnificina rola solta. Sempre surgem discussões inócuas e soluções fáceis para problemas complexos.

De um lado gente vibrando com presos sendo mortos nas cadeias “um bandido a menos”. Do outro lado tem a turma “libera geral”. Prender por prender não vai resolver a violência. Não prender e soltar porque o Estado não consegue administrar os presídios é que não vai resolver mesmo. Vai aumentar a sensação de criminalidade e violência.

Brasil vive uma crise crônica de criminalidade com 60 mil homicídios/ano sem perspectiva de uma solução que alimenta o medo das pessoas.

São Paulo é um exemplo para outros membros da federação em segurança pública. Lá está longe de ser prefeito, mas perto dos demais entes federados é um oásis. É o estado com menos índice de homicídios do país, mas a turma que diz defender os direitos humanos acha a polícia paulista “fascista”, “genocida”. Gente estúpida que tenta desarmar a polícia e acha que se combate a violência com flores e mensagens em rede social.

Outro ponto é o estatuto do desarmamento instituído em 2003, no primeiro ano do governo Lula, com uma campanha maciça da TV Globo via novela Mulheres Apaixonadas (escrita por Manoel Carlos), dificultou o pote de armas de fogo e só não proibiu a fabricação e venda porque essa parte teve que passar por um referendo, em 2005, onde o “não” teve uma vitória avassaladora – 64% x 36%.

Não acho que armar o cidadão, como pregam os armamentistas, seja a solução. Por outro lado, a liberdade da pessoa ter uma arma regularizada e dentro da lei é um direito dificultado pelo estatuto cheio de travas justamente para desarmar a população. Já os bandidos têm até fuzil de propriedade exclusiva do Exército, porque o governo não consegue fiscalizar as fronteiras secas – enormes, verdade, porém não é impossível.

Sobre a questão das drogas, não tenho uma opinião formada e deixo para especialistas. Por princípio, não sou muito favorável descriminar ou legalizar. No entanto, é preciso rever a política de enfrentamento.

Uma política de segurança pública integrada, planejada, de inteligência é possível, inclusive aconteceu durante a realização da Copa do Mundo e Olimpíada, com sucesso. Só a promessa de ampliar durante a campanha da reeleição de Dilma, não passou de mais uma promessa.

O governo fica enxugando gelo a cada rebelião. Passou da hora de presidente, governadores, legisladores, secretários de segurança, ministro da justiça realmente formularem um plano viável de segurança pública. Um programa que de fato combata facções que mandam nos presídios. A Justiça também precisa fazer sua parte e não deixar presos esperando julgamento até “cumprir a pena”.

Enquanto isso, a guerra civil não-oficial segue ceifando vidas aqui fora e dentro dos presídios e cadeias.