‘Licença para matar’ de Witzel não é política de segurança pública

A eleição do atual governador fluminense veio na onda de um discurso de confronto contra a bandidagem e entendo o sentimento dos cariocas e fluminenses cansados de tanta violência. Dos brasileiros. Só que não se combate criminalidade com mais violência e é tão óbvio que virou clichê. De tanto se martelar que direitos humanos são para proteger bandidos de um lado, uma certa indulgência de alguns da esquerda para quem comete crimes, descaso na segurança pública por autoridades, criou-se um clima que só na bala para resolver o problema.

A política de segurança “mirando na cabecinha” e dando autorização para atirar em qualquer um que seja suspeito de carregar um fuzil, mesmo se o “fuzil” for um guarda-chuva ou um tripé de uma câmera, é a política da barbárie. Não tem nada de uma política de segurança pública séria e responsável. Sair do helicóptero comemorando que um sequestrador de um ônibus foi executado pela polícia mostra o caráter de um governante e do ser-humano que se diz cristão. Independentemente se a ação foi legítima e necessário (no caso em tela, foi), não é papel de um governador sair como uma gazela saltitante brindando a morte.

A política séria e responsável de segurança aposta na inteligência, no preparo profissional, financeiro, condições de trabalho e psicológico das forças de segurança. A política de segurança que não coloca em risco a vida da população da favela e do asfalto é a que combate o tráfico de armas do crime organizado e de milícias.

A morte de Agatha Vitória Sales Félix, de apenas 8 anos, é de revoltar, um braço do Estado matou uma criança que deveria proteger. Não consigo classificar a gravidade. Sabe o que é ainda pior? Vai ficar por isso mesmo e logo será esquecida virando um mero número na estatística dos cadáveres (entre civis, policiais e bandidos) contabilizados. Só restará a lembrança e a dor dos pais, familiares, amigos e conhecidos. Não tem argumento que justifique a política fascistoide e sanguinária do governador Wilson Witzel, que está com as mãos suja do sangue de Agatha e outros.

Princípios da barbárie

Para quem já defendeu publicamente chefe de milícia e justificou “esquadrão da morte”, dizer que pretende indultar quem manchou a corporação da Polícia Militar passando do limite da lei é coerente. O presidente Jair Bolsonaro a cada dia mostra uma face perversa que despreza os direitos humanos e deseja instituir no Brasil uma licença para matar de agentes da segurança pública. Será que Sergio Moro vai aplaudir esse perdão para policiais homicidas para agradar o chefe ou seu punitivismo desenfreado vai falar mais alto?

Ao falar que planeja indulto para policiais que, segundo o presidente, estão “presos injustamente” e foram condenados “por pressão da mídia”, Bolsonaro dança sobre uma poça de sangue. O indulto para os responsáveis pela maior chacina em presídios brasileiros que resultou na morte de 111 presos no superlotado Carandiru é um prêmio à barbárie. Querer indultar policiais que participaram da emboscada que deixou 19 sem-terra mortos em Eldorado dos Carajás é tripudiar nos túmulos das vítimas que só protestavam por um pedaço de terra e um lar digno.

Querer justiça para criminosos não é ser a favor de conceder licença para matar, isso é vingança. Justiça também não é justiçamento com as próprias mãos ou pelo Estado. A declaração universal dos direitos humanos foi para que crimes contra a humanidade não voltassem a acontecer. A polícia fazer o seu dever e matando um sequestrador para salvar mais de 30 pessoas reféns em um ônibus não autoriza o governador a sair comemorando como fez Wilson Witzel, no Rio de Janeiro. Também não apaga o fato que a política de segurança de Witzel (“mirar na cabecinha e pá”) é um banho de sangue que não poupa ninguém, principalmente pobres e negros, até crianças no caminho para a escola.

Bolsonaro e Witzel têm o apoio de grande parcela da população pelo clamor por segurança. Mas não passam de dois sociopatas que não hesitam passar por cima de princípios mais básicos de civilidade – até cristãos – pelos seus objetivos pessoais e políticos.