Ao conceder indulto, Bolsonaro mente, viola a Constituição e beneficia milicianos

O presidente Jair Bolsonaro assinou decreto concedendo perdão aos agentes de segurança pública que tenham cometido crimes culposos (sem intenção) no exercício da função, em decorrência dela ou até mesmo fora do serviço. O indulto de natal livra da condenação policiais militares, civis, bombeiros, agentes penitenciários e militares do Exército que preencherem os requisitos estabelecidos no decreto, dentre eles o cumprido um sexto da pena.

O ministro da Justiça, Sérgio Moro, foi ao Twitter para justificar a decisão do presidente.

“Em substituição aos generosos indultos salva-ladrões ou salva-corruptos dos anos anteriores, o governo do presidente Jair Bolsonaro concedeu indulto humanitário a presos com doenças terminais e indulto específico a policiais condenados por crimes não intencionais”, afirmou Moro.

Quem acompanha a trajetória de Bolsonaro sabe perfeitamente que ele sempre deixou claro seu pensamento de que “bandido bom é bandido morto”. Apesar de não concordar com tal pensamento, até mesmo eu achei que Bolsonaro seria intransigente em sua forma de pensar e não seria complacente com agentes que praticavam crimes. Ledo engano!

Os discursos anticorrupção e anticrime de Bolsonaro cativaram muitos brasileiros, compreensivelmente cansados de tanta roubalheira dos cofres públicos e da violência que reina em nosso país. Se ele está hoje na presidência, foi através do voto de pessoas que acreditaram em seus discursos radicais.

Dentre as promessas de Bolsonaro aos seus eleitores, encontra-se a de que acabaria com a tradição da concessão de indulto natalino, tendo afirmado em 2018 que o decreto editado pelo ex-presidente Michel Temer em 2017 “seria o último”, pois ele abriria mão de realizar o ato em seu governo.

“Fui escolhido presidente do Brasil para atender aos anseios do povo brasileiro. Pegar pesado na questão da violência e criminalidade foi um dos nossos principais compromissos de campanha. Garanto a vocês, se houver indulto para criminosos neste ano, certamente será o último”, declarou Bolsonaro.

Como se observa, o presidente eleito não cumpriu com sua promessa de campanha. Ao contrário do que argumenta Sérgio Moro, pouco importa se o indulto concedido por Bolsonaro foi mais generoso ou não em relação aos governos anteriores. O que importa de fato é que Bolsonaro mentiu aos seus eleitores, fazendo uso de uma prerrogativa que prometeu não utilizar. Por onde anda hoje o interesse do presidente em “atender aos anseios do povo brasileiro” e em “pegar pesado na questão da violência e criminalidade”? Persiste o interesse do presidente e de Sérgio Moro em acabar com a corrupção mesmo após o caso de Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiros? Encorajo e desafio os eleitores de Bolsonaro a buscarem respostas para essas perguntas. Mas creio que recusarão a proposta, o que faz deles hipócritas, igualmente aos seus representantes!

Além de ter mentido, o presidente violou a Constituição Federal ao assinar decreto que restringe o indulto a agentes de segurança que tenham sido condenados por crimes culposos ou excesso culposo em excludente de ilicitude. Por mais que seja um ato discricionário do presidente da República, Bolsonaro não pode arbitrariamente selecionar um determinado segmento da sociedade (policiais, advogados, jornalistas, etc.) para indultar. Portanto, em estrita obediência aos princípios da igualdade e impessoalidade, ou ele extingue a pena de todos os condenados por crimes ou excesso culposo ou estará violando o texto constitucional. Cabe agora ao Supremo Tribunal Federal, ao ser provocado, corrigir a ilegalidade praticada.

Além da questionada constitucionalidade, a edição do decreto concedendo o indulto é uma afronta ao Congresso Nacional, que recentemente impôs uma derrota ao governo quando rejeitou o excludente de ilicitude, regra que permitiria aos juízes isentar de culpa policiais e militares que praticam violência ou matam sempre que o “excesso decorrer de escusável medo, surpresa ou violenta emoção”.

Ante a relação próxima da família Bolsonaro com milicianos, não é de se admirar que o presidente queira de todas as formas beneficiar agentes de segurança que tenham praticado crimes. Tanto o indulto quanto o excludente de ilicitude favorecem milicianos e dão o recado errado de que excessos podem ser cometidos e tolerados.

Por Ágatha Félix, Luciano Macedo, Evaldo Santos e tantos outros, não podemos permitir a prevalência da criminalidade, da política de extermínio e da impunidade.

‘Licença para matar’ de Witzel não é política de segurança pública

A eleição do atual governador fluminense veio na onda de um discurso de confronto contra a bandidagem e entendo o sentimento dos cariocas e fluminenses cansados de tanta violência. Dos brasileiros. Só que não se combate criminalidade com mais violência e é tão óbvio que virou clichê. De tanto se martelar que direitos humanos são para proteger bandidos de um lado, uma certa indulgência de alguns da esquerda para quem comete crimes, descaso na segurança pública por autoridades, criou-se um clima que só na bala para resolver o problema.

A política de segurança “mirando na cabecinha” e dando autorização para atirar em qualquer um que seja suspeito de carregar um fuzil, mesmo se o “fuzil” for um guarda-chuva ou um tripé de uma câmera, é a política da barbárie. Não tem nada de uma política de segurança pública séria e responsável. Sair do helicóptero comemorando que um sequestrador de um ônibus foi executado pela polícia mostra o caráter de um governante e do ser-humano que se diz cristão. Independentemente se a ação foi legítima e necessário (no caso em tela, foi), não é papel de um governador sair como uma gazela saltitante brindando a morte.

A política séria e responsável de segurança aposta na inteligência, no preparo profissional, financeiro, condições de trabalho e psicológico das forças de segurança. A política de segurança que não coloca em risco a vida da população da favela e do asfalto é a que combate o tráfico de armas do crime organizado e de milícias.

A morte de Agatha Vitória Sales Félix, de apenas 8 anos, é de revoltar, um braço do Estado matou uma criança que deveria proteger. Não consigo classificar a gravidade. Sabe o que é ainda pior? Vai ficar por isso mesmo e logo será esquecida virando um mero número na estatística dos cadáveres (entre civis, policiais e bandidos) contabilizados. Só restará a lembrança e a dor dos pais, familiares, amigos e conhecidos. Não tem argumento que justifique a política fascistoide e sanguinária do governador Wilson Witzel, que está com as mãos suja do sangue de Agatha e outros.