Eu, hein

O gigante acordou berrando, sem parar para ouvir ninguém. E na base do grito, não se constrói nada

Maria Carolina Gontijo

1989. Não me convidaram ‘praquela’ festa pobre que os homens armaram pra convencer alguém. Mas minha mãe me levou assim mesmo. Aos 6 anos e quase 5 meses de idade, eu lembro de praticamente tudo daqueles momentos: lembro da árvore no pátio da escola, lembro da sala, da fila. Lembro do cheiro forte de papelão na “cabine” (inclusive lembro de pensar: “eu imaginava essa ‘cabine’ melhorzinha”). Em casa todo mundo sempre gostou de política, sempre discutiu-se política. Então lógico que eu lembro quando a mamãe me pegou no colo, protegida pela tal “cabine”, me entregou a caneta e disse, como quem adivinhava o que aquela eleição representaria em nossa história: “faz um x em tudo ali oh, tudo, rabisca tudo. Agora dobra”. Pronto. Na urna. Foi assim a minha primeira festa da democracia. Eu devia ter desconfiado dessa festa pobre.

2018. Nas redes sociais, comemora-se a recém adquirida consciência política do povo brasileiro. O gigante acordou. Acordou, catou o WhatsApp e está enchendo o grupo da família de fotos desconexas, declarações falsas e mapas do Brasil sem o Nordeste. Tem também o áudio da mãe tomando o iPhone 8 da adolescente socialista. O gigante acordou. Até aí, ok. Só que a “gigantada” é chata pra mais de metro.

Você nunca sabe quando o gigante irá aparecer. Pode ser enquanto você responde a um e-mail no trabalho. Pode ser enquanto você espera a reposição de batata frita no restaurante self service. Pode ser na apresentação da escola do seu filho. Mas quando está formado o clima, você já olha e pensa: “meu Deus, lá vem o gigante”. E o gigante chega. E grita na sua orelha (porque gigante não nasceu pra falar baixo). Quando você menos percebe ele já pegou na sua mão. Continua gritando. Gigantes suam, aquilo começa a incomodar. Ele continua gritando. Claro, você é um ignorante pro gigante, ele precisa te salvar. Salvar de quem? De você mesmo. Você é estúpido demais pra conseguir se salvar sozinho. Sabia que seu filho terá acesso ao kit gay? Sabia que será legal matar homossexuais? Ele não. Ele sim. Eu hein.

É uma eterna viagem de ônibus com destino ao colo do capiroto, regada a horas a fio de pregações não solicitadas sobre como o meu gigante é melhor que o seu gigante.

1996. Cheguei da escola muito muito entusiasmada. A professora de história e geografia, ex-militante de esquerda, presa no Chile na década de 70, e então professora de um colégio militar (pois é), tinha aberto meus olhos para a maravilha que era o socialismo. Eu fiquei extasiada. Como? Como alguém poderia ser contra aquilo? Lógico que eu tinha que contar pro papai, o cara que naquele outro-mesmo 1989 explicou pra mim a queda do muro de Berlim – versão adaptada para crianças, claro. Lembro de falar “papai, papai, Marx é lindo, é maravilhoso, todo mundo pode ser feliz”. E ele olhou bem nos meus olhinhos e, sem questionar doutrinação nas escolas, sem procurar a direção do colégio, apenas disse: “então, filha… não.”. E eu juro que aos 13 anos foi complicado ligar a ideia do Marx ao muro que caiu em 89. Mas o papai explicou.

Por que eu falei dessa história de 1996? Porque é preciso diferenciar a construção da consciência política do stand up do gigante. É preciso desatar as amarras do pré concebido, do discurso caminhão betoneira. O gigante acordou berrando, sem parar para ouvir ninguém. E na base do grito, não se constrói nada, se arranja. Se amontoa.

A julgar pelo preconceito, a excelente professora de história e geografia que tive, ex-militante de esquerda, jamais teria sido admitida no colégio conservador em que estudei. A julgar pelo preconceito, meu pai teria escolhido unicamente confrontar meu colégio, ao invés de me ensinar o outro lado da lição que (naquele momento) não havia sido mostrada. A julgar pelo preconceito, só eu, uma adolescente de 13 anos naquele 1996, sairia perdendo.

Então que o gigante acorde sim, porque o berço esplêndido para poucos não pode perdurar. Mas que saiba fazê-lo sem usar de seu tamanho para esmagar aqueles de quem discorda. E que, principalmente, respeitem aqueles que estão usando fone de ouvido no ônibus e apenas: falem baixo. Ninguém é obrigado a aturar gigante. Eu, hein.

Maria Carolina Gontijo é mineira e advogada tributarista

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Autor: Brasil Decide

Editor-chefe: João Paulo

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