Acordo sobre programa nuclear do Irã pode ser rentável para o Brasil

Fábio Piperno

O acordo sobre o programa nuclear do Irã foi o possível para os signatários, torna o mundo um pouco menos ameaçador, enriquece a biografia do presidente Barack Obama e, quem sabe, pode até se tornar um bom negócio para o Brasil. Isso, claro, se o país souber aproveitar a janela de oportunidades que começou a ser moldada na década passada. É inútil discutir e querer comparar o acordo fechado agora entre a República Islâmica e o grupo P5+1 (que reúne os membros permanentes do Conselho de Segurança mais a Alemanha) com a Declaração de Teerã, o nome oficial do compromisso acertado em 2010 entre Irã, Brasil e Turquia.

O acerto de meia década atrás era até mais rigoroso que o atual para o Irã, como recentemente admitiu em entrevista ao jornal Folha de São Paulo o embaixador de Teerã em Brasília, Mohammad Ali Ghanezadeh. A verdade é que se o programa nuclear iraniano era uma ameaça em 2010, época em que o país dispunha de um estoque de 1.200 quilos de urânio levemente enriquecido, LEU na sigla em inglês, certamente se tornou muito mais ameaçador com os 10 mil quilos.

Então, por quê não aceitar os termos da declaração de 5 anos anos antes? Bem, até por isso o acordo de 2015 é também algo educativo. Ensina os emergentes hiperativos que no concerto das nações não basta ter as melhores propostas. O que conta mesmo é ser um dos grandes. As potências de média importância podem até ser convidadas para acompanhar os grandes conchavos. Jamais, no entanto, para influenciar nas principais decisões.

O que não as impede de fazer ótimos negócios. Talvez a grande herança da frustrada tentativa de 2010 tenha sido a inusitada aproximação do Brasil com um país que é potência regional, populoso e que na ocasião era demonizado em parcela considerável do Ocidente. E esse capital sedimentado nos encontros entre Lula e Mahmoud Ahmadinejad, o nitroglicerìnico ex-presidente do Irã, não pode agora ser escanteado por autoridades e empresários brasileiros no momento em que Teerã receberá de volta cerca de US$ 100 bilhões em dinheiro vivo, que estão congelados mundo afora.

Reinserido na economia global por conta do acordo, com capitais bilionários que podem ser repatriados e com capacidade para inundar o mercado de petróleo, o Irã obviamente será alvo de vendedores ávidos em reconquistar um mercado sofisticado, grande e que voltará a ver a cor do dinheiro.

Nesse sentido, o relacionamento com o país na década passada, tão criticado por aqui, poderá deixar o Brasil em uma posição privilegiada. Desde, é claro, que não se movimente com a morosidade dos últimos tempos. Vale recordar que a corrente comercial entre Brasil e Irã registrou aumento exponencial na década passada e resultados frustrantes nos últimos três anos.

O prestígio brasileiro em Teerã não era segredo nos meses que precederam a Declaração de Teerã, como puderam comprovar a França e o presidente Nicolas Sarkozy. Interessado na libertação da estudante Clotilde Reiss, presa no Irã sob a acusação de espionagem, o governo francês apelou a Lula para interceder pela jovem.

Em troca, a França poderia ajudar nas negociações pelo acordo sobre o programa nuclear. O Brasil pediu, Clotilde Reiss foi libertada e a França jamais cumpriu o que prometera. Aliás, os iranianos reclamam em vão da França há mais de meio século a devolução de componentes do então incipiente programa nuclear do país persa.

Mas é claro que o retorno do Irã como player do mercado global não alimenta apenas previsões favoráveis ao Brasil. Livre para exportar mais, a oferta do país pode ajudar a manter as cotações do petróleo em níveis baixos, por volta dos US$ 50. A queda recente deve-se à estagnação da demanda por conta da combinação do esfriamento da economia mundial com a redução das importações dos Estados Unidos, agora menos dependentes da commodity em razão do aumento da produção do shale. E se o Irã inundar o mercado com mais petróleo, o horizonte de recuperação de preços certamente ficará ainda mais distante. Cenário que não é, obviamente, uma boa notícia para o futuro do pré-sal, que requer cotações mais perto dos três dígitos para compensar o alto custo de produção.