Biden não resiste à pressão

O presidente dos EUA Joe Biden renunciou à candidatura pela reeleição na eleição americana que será disputada em novembro. Biden vinha sofrendo muita pressão de correligionários do partido democrata, de financiadores de campanhas dos democratas e de militantes.

Biden sentiu muito o ex-presidente Barack Obama engrossar o coro pela desistência dele. Lembrando que Biden foi o vice de Obama e foi importante para ele vencer resistências nas campanhas que o ex-presidente venceu.

A pressão pela desistência começou pelo desempenho de Biden no debate na CNN e só cresceu com gafes do presidente. E o temor de Donald Trump voltar à Casa Branca. Mas nas pesquisas Biden vem mantendo uma disputa acirrada com Trump.

Na carta de renúncia Biden deu seu apoio para a vice-presidente Kamala Harris ser a indicada do partido. Vejo que, se o partido democrata indicar Kamala, vai ficar mais fácil para Trump.

Vejo ela como representante de uma esquerda radical do partido democrata e seria tudo que o republicano deseja enfrentar. Aliás, Trump já lançou pedras a ela antes mesmo de indicada.

Se o partido democrata deseja manter sua permanência na Casa Branca tem que ter um candidato que dialoga com o eleitorado conservador e de centro. Não vai adiantar ter o eleitorado democrata fiel, vencer nos estados que dão vantagem ao partido e perder nos estados que decidem eleições no colégio eleitoral.

Cuba: Melhor sem ditadura

Um país sem liberdade é um país manco

No fim de 2014, uma polêmica perto do dia de natal ferveu o Twitter. Foi no dia que o presidente Barack Obama e o presidente Raul Castro começaram a pôr fim a mais de 50 anos de um bloqueio econômico entre EUA e Cuba. Um comentário de um fã da ilha caribenha – talvez fã dos Castro – incomodou quem não gosta do regime implementado por Fidel e Che.

Os defensores do regime argumentam que Cuba é modelo em educação e saúde promovidos pelo Estado. A direita refuta e mostra dados que a miséria é grande na ilha. Como não tem liberdade de imprensa, é difícil achar dados confiáveis. A esquerda rebate usando o embargo dos EUA como fator que impediu Cuba de ser uma potência. Só que quem discorda do regime é censurado e até preso.

Cuba foi potência olímpica, mas perdeu força com deserção de atletas para países livres. Pela primeira vez desde 1967, cubanos ficarão abaixo do segundo lugar no quadro de medalhas dos jogos Pan-Americanos – ficou em primeiro quando os jogos foram em Havana, em 1991.

No Brasil, a polêmica é grande quando Cuba é assunto. Até mapa dividindo o país depois do resultado da eleição 2014 teve. O empréstimo do governo brasileiro ao governo cubano para a construção do Porto de Mariel é cercado de controvérsia. Outro assunto polêmico é o Programa Mais Médicos. Opositores ao programa do governo federal (PT) dizem que o governo brasileiro financia a ditadura cubana e esse dinheiro volta para financiar campanhas políticas do Partido dos Trabalhadores.

Quem é favorável tanto do empréstimo ao Porto de Mariel quanto as regras do programa Mais Médicos – o governo federal paga diretamente aos médicos estrangeiros do programa, exceto os médicos cubanos, e boa parte do salário vai para o governo da ilha – argumenta que o empréstimo para construção do porto é estratégico, o Brasil está se adiantando para ter vantagem econômica quando Cuba se abrir ao mercado mundial. E sobre o Mais Médicos, os médicos brasileiros não querem ir para os rincões do país.

O “vai pra Cuba” virou slogan dos contra ao regime cubano para os defensores do mesmo. É uma discussão de 5ª série e cheia de ódio recíproco. Eu prefiro ficar ao lado do povo cubano que torce para o fim de um embargo econômico que já deveria ter caído e, com ele, a abertura da economia. Um novo tempo para Cuba, com liberdade de imprensa e prosperidade para o seu povo. Mesmo que Cuba seja exemplo como um país sem analfabetismo e referência em saúde, um país sem liberdade é um país manco.

Acordo sobre programa nuclear do Irã pode ser rentável para o Brasil

Fábio Piperno

O acordo sobre o programa nuclear do Irã foi o possível para os signatários, torna o mundo um pouco menos ameaçador, enriquece a biografia do presidente Barack Obama e, quem sabe, pode até se tornar um bom negócio para o Brasil. Isso, claro, se o país souber aproveitar a janela de oportunidades que começou a ser moldada na década passada. É inútil discutir e querer comparar o acordo fechado agora entre a República Islâmica e o grupo P5+1 (que reúne os membros permanentes do Conselho de Segurança mais a Alemanha) com a Declaração de Teerã, o nome oficial do compromisso acertado em 2010 entre Irã, Brasil e Turquia.

O acerto de meia década atrás era até mais rigoroso que o atual para o Irã, como recentemente admitiu em entrevista ao jornal Folha de São Paulo o embaixador de Teerã em Brasília, Mohammad Ali Ghanezadeh. A verdade é que se o programa nuclear iraniano era uma ameaça em 2010, época em que o país dispunha de um estoque de 1.200 quilos de urânio levemente enriquecido, LEU na sigla em inglês, certamente se tornou muito mais ameaçador com os 10 mil quilos.

Então, por quê não aceitar os termos da declaração de 5 anos anos antes? Bem, até por isso o acordo de 2015 é também algo educativo. Ensina os emergentes hiperativos que no concerto das nações não basta ter as melhores propostas. O que conta mesmo é ser um dos grandes. As potências de média importância podem até ser convidadas para acompanhar os grandes conchavos. Jamais, no entanto, para influenciar nas principais decisões.

O que não as impede de fazer ótimos negócios. Talvez a grande herança da frustrada tentativa de 2010 tenha sido a inusitada aproximação do Brasil com um país que é potência regional, populoso e que na ocasião era demonizado em parcela considerável do Ocidente. E esse capital sedimentado nos encontros entre Lula e Mahmoud Ahmadinejad, o nitroglicerìnico ex-presidente do Irã, não pode agora ser escanteado por autoridades e empresários brasileiros no momento em que Teerã receberá de volta cerca de US$ 100 bilhões em dinheiro vivo, que estão congelados mundo afora.

Reinserido na economia global por conta do acordo, com capitais bilionários que podem ser repatriados e com capacidade para inundar o mercado de petróleo, o Irã obviamente será alvo de vendedores ávidos em reconquistar um mercado sofisticado, grande e que voltará a ver a cor do dinheiro.

Nesse sentido, o relacionamento com o país na década passada, tão criticado por aqui, poderá deixar o Brasil em uma posição privilegiada. Desde, é claro, que não se movimente com a morosidade dos últimos tempos. Vale recordar que a corrente comercial entre Brasil e Irã registrou aumento exponencial na década passada e resultados frustrantes nos últimos três anos.

O prestígio brasileiro em Teerã não era segredo nos meses que precederam a Declaração de Teerã, como puderam comprovar a França e o presidente Nicolas Sarkozy. Interessado na libertação da estudante Clotilde Reiss, presa no Irã sob a acusação de espionagem, o governo francês apelou a Lula para interceder pela jovem.

Em troca, a França poderia ajudar nas negociações pelo acordo sobre o programa nuclear. O Brasil pediu, Clotilde Reiss foi libertada e a França jamais cumpriu o que prometera. Aliás, os iranianos reclamam em vão da França há mais de meio século a devolução de componentes do então incipiente programa nuclear do país persa.

Mas é claro que o retorno do Irã como player do mercado global não alimenta apenas previsões favoráveis ao Brasil. Livre para exportar mais, a oferta do país pode ajudar a manter as cotações do petróleo em níveis baixos, por volta dos US$ 50. A queda recente deve-se à estagnação da demanda por conta da combinação do esfriamento da economia mundial com a redução das importações dos Estados Unidos, agora menos dependentes da commodity em razão do aumento da produção do shale. E se o Irã inundar o mercado com mais petróleo, o horizonte de recuperação de preços certamente ficará ainda mais distante. Cenário que não é, obviamente, uma boa notícia para o futuro do pré-sal, que requer cotações mais perto dos três dígitos para compensar o alto custo de produção.