Bolsonaro cruzou a linha do golpismo

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O que Jair Bolsonaro pretende já está muito claro. Ao disparar ataques com tamanha volúpia contra Rodrigo Maia, ao sugerir uma conspiração envolvendo Maia, João Doria e o alguns ministros do STF para derrubá-lo, levantando a gravíssima suspeita que o governo está espionando membros de outros poderes da República, ele cria a base de um discurso para um autogolpe.

E, para não restar mais dúvida, o presidente fez no domingo o ato mais simbólico de seu governo: discursou para apoiadores com faixas pedindo AI-5, intervenção militar e Bolsonaro falando que não vai “negociar nada” em recado direto para o Congresso Nacional.

O presidente não gostou e “apontou o dedo” para o STF, que o impediu de desfazer atos de governadores e prefeitos na pandemia. Afinal, mesmo capenga, o Brasil é uma federação e não um Estado unitário. A federação está em risco. O que está por trás da controvérsia do Plano Mansueto é que o presidente não quer socorrer estados governados por quem considera seu rival, principalmente os de São Paulo e Rio de Janeiro.

Se depender de Bolsonaro, com apoio de Paulo Guedes, os estados vão entrar em colapso. Não terão condições de pagar salários do funcionarismo, fornecedores e sem condição de manter serviços públicos em plena crise sanitária. É o que o presidente deseja para usar como arma eleitoral em 2022.

Cobrar contrapartida de estados em um momento no qual estamos passando é falta de sensibilidade, humanismo e uma visão limitada de um liberalismo extremista e mofado. A pandemia afeta a economia brasileira – problema que é global -, que já vinha cambaleante mesmo quem diga que crescer 1% é bom porque o PIB privado cresce mais que o público, o que qualquer economista sério e quem sabe o básico de economia sabe que não existe dois PIBs.

Guedes achou que com 5 bilhões acabaria com o vírus e não afetaria sua agenda de reformas. Atropelado pelos fatos, ficou atordoado e sem rumo. Restou jogar a narrativa que a proposta de ajuda a estados e municípios aprovada na Câmara quebraria a República. Não é só Bolsonaro que não sabe conviver em uma democracia representativa, Guedes gostaria de passar sua agenda sem conversar com parlamentares, como aconteceu no Chile de Pinochet.

Bolsonaro só pensa na sua reeleição e seu projeto de poder e tem convicção que a COVID-19 não passa de uma “gripezinha ou resfriadinho”, não importando se vai ter uma pilha de mortos ou se o sistema de saúde entra em colapso. Está implodindo as instituições, que tem instrumentos constitucionais para impedir o golpe final. Mas há hesitação em usá-los, além do dilema que o próprio deseja o processo de impeachment para continuar os embates diários incendiando sua militância nas redes em sua defesa e atacando os inimigos que cria.

A hesitação e até omissão criminosa não serão opções por muito tempo. Esse tempo está se esgotando e também para saber qual o grau de compromisso das Forças Armadas com a Constituição. Seria a gota d’água em qualquer democracia saudável o presidente da República ir no QG do Exército, subir em um carro e discursar desafiando as instituições democráticas com faixas pedindo ditadura de cenário.

Olhar para o futuro

A atual Constituição brasileira completou 28 anos em 2016 e já passou por dois impeachments presidenciais sem ruptura democrática. A Constituição Cidadã como foi batizada pelo presidente da Constituinte, Ulysses Guimarães, é criticada pelo excesso de artigos e direitos atribuídos ao cidadão e encarregados ao Estado brasileiro, de prover saúde, educação, segurança e assistência social gratuitamente.

Só que a Constituinte de 1987/1988 estava elaborando a Constituição que faria a travessia para a democracia e prevalecia à época o desejo de implementar no Brasil o Estado de bem-estar social. Foram longos 20 anos desde o golpe civil-militar de 1964, que deu origem a ditadura militar que deixou como legado hiperinflação, descontrole nas contas públicas, o desmonte do Estado jogando milhões de brasileiros na extrema pobreza e a censura política, acadêmica, musical, artística, aos meios de comunicação.

José Fogaça, que foi constituinte, reconhece que os constituintes não olhavam para o futuro, o objetivo era fazer uma Constituição que apagasse o passado. Talvez foi esse o grande pecado dos constituintes de 1987/1988.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso diz, no vídeo abaixo, que uma Constituição não deve se prender a uma interpretação. A Constituição Cidadã é tão fechada a interpretações que já está com 95 emendas ordinárias promulgadas – fora as emendas revisoras (6).

O constitucionalista e atual presidente Michel Temer disse no documentário de 20 anos da Constituição Cidadã que o exagero de emendas constitucionais se deve ao limitador do parlamentar em modificar o texto constitucional original.

De fato, a Constituição Cidadã é extensa em direitos e absolutista hierarquicamente. É justificável em um país rico como o Brasil, mas com uma população majoritariamente pobre. Por um lado, o excesso de direitos é fundamental para o Estado de bem-estar social e sustentar o modelo social-democrata escolhido pelos constituintes. Por outro lado, o excesso de direitos faz com que a conta fique pesada e a carga tributária brasileira seja escandinávia sem que os serviços públicos deixem satisfeitos os brasileiros, muito pelo contrário.

Com quase 30 anos, provavelmente chegou o momento de enxugar a Constituição e diminuir direitos. Sim, “diminuir direitos” é quase um palavrão no Brasil. Só que tudo indica que o modelo social-democrata, de bem-estar social, esgotou-se e um novo modelo pode oxigenar e impulsionar a economia.

Quando a economia cresce, cresce a geração de empregos e renda. Quem ganha é a população. É claro que nem sempre crescimento econômico significa riqueza para todos. O chamado “milagre econômico” no período militar gerou riqueza concentrada para poucos, nada de voltar para esse modelo retrógrado e maléfico. Nem o modelo que volte atrás, nem a estagnação. Uma mudança que modernize o sistema. Olhar para o futuro, não para o passado.

Complicada e Perfeitinha

Constituição 1988 recebe críticas pela utópica possibilidade de abraçar tudo

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Rodrigo Salomão

Pessoas mais velhas costumam lembrar-se dos seus 25 anos com muito carinho, sempre se referindo aos “bons tempos”. Já os mais jovens, aqueles adultos que de fato têm 25 anos, começam a achar que estão entrando num período em que a velhice é iminente. Difícil é agradar a gregos e troianos, sejam novos ou velhos. Na última semana, tivemos o foco das atenções no Brasil em torno das comemorações pelo quarto de século que completou a nossa Constituição Federal. Está na flor da idade. Pelo menos, parece. Mas não exatamente.

A comparação do primeiro parágrafo parece se encaixar perfeitamente com a ideia do que a nossa Lei Maior significa e representa a todos: uma jovem, que está começando a se sentir velha, ultrapassada, temerosa sobre o que poderá ocorrer no futuro.

O grande “porém” aí é que a Constituição Federal nasceu belíssima. Juristas do mundo inteiro costumam tecer elogios a ela, pela sua completude, seus detalhes amarrados e toda a sua preocupação social. Nela, legisla-se sobre quase tudo que é básico para um país: bem-estar social, impostos, saúde, educação, dignidade humana, dentre outros muitos aspectos. É certamente um grande norte a ser seguido.

Exatamente por toda a sua preocupação com tudo e por todas essas elogiosas condições é que se pega a outra via desta mão. Ao prever tantos e tantos aspectos, com uma preocupação tão sublime, a Constituição também recebe críticas justamente pela utópica possibilidade de abraçar tudo.

Não é novidade para ninguém que o Poder Público brasileiro, historicamente, não consegue prover o básico aos seus cidadãos nas matérias mais importantes. Então, se nem o básico conseguem proporcionar, como, de um dia para o outro, resolver criar leis para fazer a mágica com que o país viesse a funcionar? Pior: não uma lei qualquer, mas sim a Constituição!

Passados vinte e cinco anos desde a sua promulgação (e só o fato de falar “promulgação”, não “outorga” já é uma vitória da democracia), há muito a ser adaptado, revisado e atualizado. Não é apenas uma lei qualquer, mas um sistema. Um sistema que deve estar sempre de acordo com o seu tempo e as necessidades de seu povo.

Na época, Ulysses Guimarães foi enfático em pedir ajuda divina, para que os constituintes fossem guiados corretamente. Certamente, foram. A boa intenção da Lei Maior é evidente. Porém, talvez o maior desafio desta lei tão acolhedora e tão esquecida seja algo aparentemente simples, mas fundamental: fazê-la ser respeitada.

Afinal, com essa idade, trata-se de uma jovem adulta. Já está mais do que na hora de amadurecer e ser levada a sério, não é mesmo?

Rodrigo Salomão é escritor