REAL – O Filme mostra um Brasil não muito distante

Real não teve heróis e vilões, cada personagem tinha sua complexidade mostrando o difícil período da luta contra a hiperinflação

Não sei até que ponto a ficção se misturou com os fatos históricos, mas os produtores do filme Real – O plano por trás da história, que contou os bastidores do Plano Real, usaram Gustavo Franco como “herói” e “vilão” ao mesmo tempo. Pérsio Árida foi o antagonista de Franco e Pedro Malan, o amigo de Franco.

Real – O plano por trás da história é uma disputa do liberalismo (neoliberalismo, para uns) defendido por Emílio Orciollo Netto como Gustavo Franco – que foi muito bem no papel – versus o desenvolvimentismo defendido por Guilherme Weber como Pérsio Árida. A primeira cena do filme eu não sei se aconteceu na vida real, mas é o retrato da divisão política que tomou conta do Brasil, principalmente da internet.

Para um filme quase documentário é preciso ser o mais fiel possível. Os produtores de Real capricharam tanto na tinta que quase comprometeram a verossimilhança da história. Todavia, o resultado foi agradável de assistir. Real não teve heróis e vilões, cada personagem tinha sua complexidade mostrando o difícil período da luta contra a hiperinflação que assolava o Brasil e as crises internacionais que quase derrubaram o Plano.

Para quem gosta de política, economia, os bastidores, teorias conspiratórias Real – O plano por trás da história é uma boa pedida. Talvez pudesse ser mais profundo, com mais detalhes nas histórias, mas aí não seria um filme e sim uma série – o que pode vir a ser um dia.

REAL – O PLANO POR TRÁS DA HISTÓRIA

Data de lançamento: 25 de maio de 2017 (1h 35min)
Direção: Rodrigo Bittencourt
Elenco: Emílio Orciollo Neto, Bemvindo Sequeira, Norival Rizzo
Gêneros: Drama, Histórico
Nacionalidade: Brasil

O “circo” é bom, mas o “pão” vem primeiro

O corte da verba da prefeitura pode ser a oportunidade do carnaval carioca se reinventar e voltar a encantar por sua beleza e simplicidade

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), comprou uma guerra com a LIESA, a Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. E uma guerra que ele pode sair com sua popularidade muito arranhada. O Estado do Rio de Janeiro vive uma profunda crise financeira sem precedente após sediar Copa das Confederações, Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos em 2016. Grandes eventos que custaram e ainda custam ao erário fluminense e carioca.

Mas a responsabilidade não é só dos grandes eventos, o maior culpado foi o hoje preso e condenado pela justiça ex-governador Sérgio Cabral, que ainda responde a outras 9 denúncias. Fora toda a corrupção que foi descoberta teve ainda as desonerações para empresas “camaradas”. Ou seja, o Rio viveu uma verdadeira “farra do boi”, um descalabro que culminou em um Estado pré-falimentar sem dinheiro para honrar compromissos básicos como salários de servidores e aposentados.

O prefeito Crivella comunicou a LIESA que pretende cortar 50% da subvenção da prefeitura para os tradicionais desfiles na Avenida Marquês de Sapucaí e que esse dinheiro seria destinado para ampliar convênios da merenda escolar de creches. A LIESA respondeu com terrorismo anunciando a suspensão dos desfiles de 2018. A Liga das Escolas de Samba aposta no carioca viver o samba para ganhar a disputa contra o prefeito, que é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus.

No primeiro carnaval sob a administração Crivella, houve muita confusão e duas grandes tragédias envolvendo carros alegóricos das escolas Paraíso do Tuiti e Unidos da Tijuca, com vários feridos e vítima fatal. Chegaram ao cúmulo de colocar a culpa na quebra de tradição do prefeito não ter participado da cerimônia de entrega da chave da cidade ao rei momo. Cobra-se prioridades do poder público com o dinheiro dos impostos, então a decisão de Crivella tem que ser aplaudida. Não está cortando toda a subvenção, mas metade em nome de uma causa maior.

A LIESA argumenta que o evento gera muitos benefícios para a cidade. Mas a tese de que o carnaval carioca não precisa da prefeitura para existir me parece verdadeira. Por que um evento privado, mesmo que gere benefícios econômicos, financeiros, de geração de empregos e de renda, além da valorização da imagem da Cidade do Rio de Janeiro e do Brasil, como diz a nota da LIESA, tem que ser bancado uma parte com dinheiro público?

Quando o cerco se fechou aos bicheiros, o que fez as escolas de samba? Se penduraram nas tetas da prefeitura e do governo do Rio, com anuência dos governantes em troca de apoio político e eleitoral. Os desfiles outrora fantásticos e encantadores do Rio de Janeiro viraram uma zona. Em 2017, Portela e Mocidade Independente dividiram o título por uma confusão de um jurado. Foram buscar José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, para colocar ordem na casa.

Depois de duas tentativas fracassadas, Marcelo Crivella foi eleito prefeito em 2016, derrotando Marcelo Freixo (PSOL) em um segundo turno que para ambos candidatos foi uma vitória. Crivella e Freixo derrotaram a máquina do PMDB fluminense e o candidato do prefeito Eduardo Paes, Pedro Paulo. Crivella prometeu que “cuidaria das pessoas” depois de um governo mais voltado para grandes obras urbanísticas.

Aqui não se trata de saber qual é a melhor forma de fazer política e de governar. Paes foi reeleito já no primeiro turno de 2012 com 66% dos votos e deixou a prefeitura bem cotado para disputar o governo estadual, após realizar a primeira Olimpíada na América do Sul. Só que a população carioca queria uma mudança na política da cidade. A saúde pública vem clamando socorro não é de agora, segurança e educação não são diferente.

Nos desfiles de hoje em dia o que vale mais é impactar o público e os jurados do que mostrar um bom samba. O corte na verba da prefeitura pode ser a oportunidade do carnaval carioca se reinventar e voltar a encantar por sua beleza e simplicidade, nada de carrões mastodontes que só atrapalham e luxuria vazia de conteúdo.

A crise de identidade cultural brasileira

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Critico muito os saudosistas, mas as antigas canções da MPB – principalmente do período da ditadura – tinham qualidade. Hoje em dia, os sucessos são “beijinho no ombro” e “bunda lê, lê”…  Há claro um declínio da música popular brasileira. Aliás, não só na música. No futebol, em alguns esportes que ganharam tudo no passado recente como o vôlei, por exemplo, estão em notório declínio. Até as novelas brasileiras que são exportadas para todas as partes do mundo perderam a qualidade de outrora. O Brasil passa por um momento de crises nas suas principais identidades culturais.

No passado você tinha Chico Buarque, Caetano Veloso (antes de virar admirador de black bloc), Geraldo Vandré, Gilberto Gil entre outros. O Problema do Chico Buarque é ele gostar de Fidel, Che e da ditadura dos Castro. Fora isso, um dos maiores compositores da história. E o erro de alguns esquerdistas revolucionários é que levam ao pé da letra muitas músicas da época da ditadura. Elas são lindas, eu gosto, mas para por aí. Não dá para sonhar com revolução como a cubana ou a russa de 1917 em pleno século 21.

Apenas alimenta os neuróticos que pensam que o Brasil corre riscos de cair numa ditadura comunista (!!!) ou bolivariana como a Venezuela ou virar uma Cuba de dimensões continentais. Quem pensa assim ainda vive com a mentalidade da guerra fria. Não passou pela queda do Muro de Berlim. E isso vale tanto para direitistas quanto esquerdistas.

Hoje os ícones da MPB são Latino, Valesca Popozuda e Anitta. Com todo o respeito com quem gosta (e não tem nada de errado de gostar desse tipo musical), mas pra mim não dá.  Meu gosto não bate com as músicas da atualidade. E o grande problema é qualificar qualquer coisa lançada hoje em dia de “arte”, “genial”, “craque”, “fenômeno”. Como bem disse uma vez o grande Ariano Suassuna: “se qualquer porcaria recebe o rótulo de ‘genial’, o que diremos sobre Beethoven?”. Se tudo é arte nada é arte.

Vergonha nacional

 

No auge das manifestações de junho do ano passado, quando o Brasil recebia a Copa das Confederações, o país foi tomado por protestos “contra a Copa” e eu fiz esse texto dizendo o quanto isso era ridículo.

Pois bem, a menos de cinco meses do início da competição, quando todos os estádios e obras relativas ao torneio estão prontos (ou em fase final), vemos um movimento nas ruas “Não vai ter Copa”. “Sem Direitos, sem Copa”, diz a família de um menino baleado pela PM que até agora não se sabe se estava na manifestação ou não.

Vamos tentar esquecer o fato de que, ao contrário do que eles querem acreditar, esse pessoal não tem força para impedir a Copa. Eu não tenho palavras para descrever a burrice de quem, após bilhões gastos, abre mão dos bilhões a mais que ela pode vir a retornar. Não consigo classificar de outra maneira que não com um mau-caratismo (ou inocência) enorme os líderes da revolta nacional que queriam o dinheiro da Copa em hospitais como se tudo por aqui funcionasse perfeitamente bem até a FIFA anunciar este país como sede do Mundial, lá em 2007. Como se a culpa, a panaceia dos nossos males, fosse a FIFA ou a Copa do Mundo.

2007… Estamos em 2014. Foram sete anos para dizer que não queríamos a Copa. Até mais, se lembramos que havia um lobby pela escolha do Brasil desde 2006 e que éramos o único candidato. Agora, sinto muito, já é tarde. Vamos fazer e vai ser sensacional. Se o Governo não fez a parte dele, façamos a nossa e façamos dessa Copa um momento especial. Não para as Copas, mas para nós. E isso não significa sair por aí protestando “contra tudo”. É receber quem vem pra cá de maneira cordial, é tentar não atrapalhar quem, brasileiro ou não, quer apenas assistir um jogo porque pagou caro por isso.

No auge da revolta popular, surgem grupos que, revoltados com a verba repassada às Escolas de Samba, prometem atrapalhar os desfiles na Marquês de Sapucaí. Ignorantes… Mal sabem, além do retorno que a festa gera, o quanto ela é importante para esse país. Tolos… Não sabem o quanto um samba-enredo – como qualquer música, qualquer forma de arte – pode ser muito mais útil que essa máscara que eles insistem em usar para protestar. Pretensiosos… Não sabem o quanto são inúteis para o progresso desse país.

imperio serrano

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O Brasil da juventude atual é um país apaixonado pela revolução. Isso dito assim pode parecer fantástico, afinal, o descontentamento é uma das principais formas de alcançar uma sociedade decente. Mas aqui no Brasil, isso é ruim. E é ruim porque, na verdade, não somos apaixonados pela revolução, mas sim por sermos revolucionários. Impulsionados por uma geração que, essa sim, lutou para mudar o país, temos a tal geração Y que adora romantizar as coisas para se posicionar como revolucionária, como líder, como o Edson Celulari na histórica Que Rei Sou Eu?, de 1989, ou o Cássio Gabus Mendes na não menos fantástica Anos Rebeldes

Uma juventude que usa bandeiras anarquistas, socialistas, ou fascistas sem, em muitos casos, sequer saber o que elas significam. Uma juventude que, como eu disse, romantiza os problemas brasileiros e nossa política para criar vilões e posar de herói. Que julga estar interferindo nos rumos da nação quando, na verdade, só está causando uma baderna e atrapalhando a vida de quem diz defender. Temos, atualmente, muitos Che Guevaras e Mandelas, e isso em nada tem a ver com esquerda ou direita, que acham que a luta armada – que, no caso deles, nem é tão armada assim (até isso eles romantizam) – é algo legal.

Bobos… A luta armada nunca é legal. Pode até ser mais emocionante de se estudar, de se inspirar, mas é algo, às vezes, necessário. E, agora, não é. Somos um país democrático com muitos problemas políticos, mas que está sempre aberto à mudanças. Lute por elas, mas lute com princípios, não com bagunça. Vote melhor, exponha seus descontentamentos de maneira mais clara, lute por uma bandeira mais sólida. Se a sua revolta ainda não deu resultado, sinto muito, a culpa é sua.

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No fundo, esse pessoal só quer mostrar para o Mundo que o Brasil não é futebol, bunda, caipirinha, praia e Carnaval. Um pessoal que passou a vida dizendo ter vergonha do nosso país por passar essa imagem. Coitados… Não sabem que, na verdade, nada disso nos envergonha lá fora. Não sabem que, na verdade e nesse momento, o nosso maior motivo de vergonha são eles mesmos.

Leonardo Dahi

O funk da discórdia

Baile-funk

Leonardo Dahi

Vamos aos fatos: a Câmara de São Paulo aprovou um projeto de lei que proibia bailes funk em vias públicas (onde, até onde eu sei, são realizados 99% desses bailes). O Prefeito Fernando Haddad (PT) vetou o projeto alegando que “O funk é uma expressão legítima da cultura urbana jovem, não se conformando com o interesse público sua proibição de maneira indiscriminada nos logradouros públicos e espaços abertos”.

Parte da opinião pública criticou duramente o Prefeito usando “argumentos” como o de que isso é “populismo” e forma de “comprar voto dos funkeiros”.

Agora vamos analisar a situação passo a passo. O projeto é absurdo. Não sei se é ilegal, creio que não, já que se trata de vias públicas, mas é, ainda que extra-oficialmente, censura. Tentar impedir qualquer manifestação cultural tem esse nome. O funk, como disse o Prefeito Haddad, é uma manifestação cultural. Se é boa ou é ruim, não sou eu, nem você, nem os vereadores, nem o Haddad quem tem que dizer. O que eu, você, os vereadores ou Haddad gostamos em termos de música não importa.

Se existem uma, duas, dez ou cinco mil pessoas que gostam de funk e querem ir ao baile, que se permita o baile, ué. “Ah, mas faz barulho”. Admita: seu problema não é com o barulho, mas com o que ele diz. Isso não é exatamente ruim, já que o direito que o cara tem de ouvir funk é o mesmo que você tem de não gostar. Mas daí a querer que ele ouça em casa, vai uma grande diferença.

Vamos a um exemplo prático: eu não gosto de funk. Não por causa das letras, nem do estilo de seus cantores, nem pela melodia, nem nada disso que a gente não precisa explicar quando diz não gostar de qualquer outro gênero. Só não gosto. Se eu estiver em um local e do lado houver um baile funk, eu possivelmente ficarei irritado. Só que isso não me dá o direito de proibir que o baile aconteça. Mesmo porque seria uma hipocrisia imensa da minha parte.

Eu gosto de samba, de Carnaval. Aqui em São Paulo, uma das maiores tradições em matéria de samba-enredo (e isso se estende por outros lugares daqui e do Rio) são os ensaios da Vai-Vai pelas ruas do Bixiga. Ora, como eu posso querer proibir o funk se o gênero que eu gosto faz o mesmo barulho? E admita, você também não ligaria se houvesse um show do seu artista preferido na porta da sua casa. Aliás, duvido que, fosse outro gênero, alguém sequer levasse uma Lei dessas para a câmara.

O funk vive, hoje, um preconceito que o próprio samba viveu no Século XX. É um assunto a ser explorado em outro texto, mas creio que a vontade de gritar que fulano tem moto x, carro y e “n” mulheres irrite um pouco quem não tem nem a moto, nem o carro e muito menos a mulher. É um preconceito diferente do que o samba viveu (ali havia uma ligação forte com o racismo, já que a escravidão ainda era coisa recente), mas preconceito.

Quando Fernando Haddad vetou o projeto de lei que proibia os bailes, ele não fez nada que mereça uma salva de palmas. Fez o que qualquer político, em 2014, deve fazer. Isso não é populismo: é liberdade de expressão.

Agora vamos à parte final. O barulho feito por essa tal “opinião pública” me deixa um pouco assustado. Não deveria, já que temos demonstrações dessas dia sim, dia também, mas ainda me deixa. É complicado pensar que estamos em 2014 e algumas pessoas ainda relacionam o gosto musical ao caráter de alguém.

Sim, o funk é patrocinado por muitos bandidos, traficantes e etc. Acredito que até alguns cantores tenham caráter duvidoso. Mas isso não significa que o cara que ouve funk vá roubar sua carteira. Novamente recorro ao samba: o Carnaval foi e ainda é patrocinado por bicheiros, traficantes, mas tem, por trás de cada um deles, milhares de pessoas que suam sangue por sua comunidade. Pessoas honestas, trabalhadoras, de bem.

É completamente absurdo ligar uma coisa com outra. O fã de Justin Bieber é acusado de pichar muros, arrebentar hotéis e transgredir regras? O fã de João Gilberto é tido como alguém que não cumpre horários? O torcedor do Botafogo é acusado de bolar golpes do tipo pirâmide de Ponzi? E os jovens ricos que financiam o tráfico de drogas de maneira muito mais séria que através de um baile funk? Sim, subir o morro pra comprar maconha ainda é mais grave do que ouvir funk.

Que fique claro que nesse jogo de opressor e oprimido, o segundo só não toma a mesma postura preconceituosa por falta de oportunidade. Experimenta trocar o baile funk por uma ópera em um sábado qualquer pra você ver. A filosofia do “minha vontade é o que vale” impera por aqui em todas as classes. Aliás, é a coisa mais democrática e que une ricos e pobres que temos no Brasil desde que o ingresso no Maracanã ficou mais caro.

O Brasil sempre se orgulhou de ser terra de todos, um mosaico de diferentes culturas, etnias e gostos. Mas, a cada dia que passa, fica mais evidente que todos são iguais, mas, em geral, todos nós queremos ser mais iguais que os outros.