Anomalia

Se tem uma coisa que odeio é jornalista que se finge de isento – “nem direita, nem esquerda” – só que no fundo é carregado de ideologia. É normal e todos têm ideologia, uns mais e outros menos. Errado é fingir certa isenção. Prefiro mais os que vestem a camisa de um partido ou causa do que os “isentões”.

O grupo Globo sempre teve lado e usou o jornalismo e a teledramaturgia para defender seu lado. No jornalismo deu uma baixada de bola e tenta ser o mais parcial possível, mas sempre distorcendo fatos em prol de determinada pauta. Na teledramaturgia e área de shows virou “porta arrombada” para defesas das mais esdrúxulas bandeiras em nome da “diversidade”.

Autores das novelas globais não escondem sua preferência partidária-ideológica e os programas como “Encontro” da Fátima Bernardes, “Esquenta” da Regina Casé, “Amor & Sexo” da Fernanda Lima entre outros tentam de toda forma afrontar quem é contra certos tipos de comportamentos, chegando ao cúmulo de defender um homem nu ser tocado por uma criança em nome da “arte”.

Não fica nisso. A Rede Globo tenta influir no processo de decisões da política, economia e comportamento. É fato e notório que a Globo está engajada na candidatura presidencial de Luciano Huck – mesmo escrevendo artigo dizendo que não é candidato, Huck pediu ao presidente do Ibope para não excluir seu nome nas pesquisas de intenção de voto – tendo o ápice a aparição de Angélica e Luciano no programa de Fausto Silva, no primeiro domingo de 2018.

O sonho do Grupo Globo é eleger o próximo presidente com a característica do presidente francês Emmanuel Macron e do ex-presidente americano Barack Obama. Já a turma liberal dos jornalistas “isentões” gostaria de eleger um Justin Trudeau, o Primeiro-Ministro canadense que beija o opositor NA BOCA em protesto contra a homofobia.

A imprensa brasileira é dividida em três tipos de esquerda: socialista, social-democrata e liberal nos moldes dos norte-americanos. Não temos na grande imprensa um veículo 100% de direita que rompa com a hegemonia esquerdista nos meios de comunicação, o que nos leva a uma lacuna que faz falta para um verdadeiro debate de ideias e ideais.

Na mídias ditas alternativas já temos inúmeros blogs com posicionamento “100% direita”, mas falta na mídia que dita o comportamento e opiniões na sociedade. Quem sabe um dia surja uma Fox News brasileira para disputar com a Globo News, uma emissora aberta ortodoxa para confrontar ideias da TV Globo e um portal conservador para rivalizar com o esquerdismo do UOL.

Surubinha vai além de gostar ou não de funk: é crime

Foto de Yasmin Formiga

Não é de hoje, nem de ontem, que o declínio musical está assombroso. Músicas que fazem sucesso inexplicavelmente. Ou melhor, porque o declínio é geracional e a próxima tem tudo para ser pior.

A popularidade de funks muito se deve a batida musical e dane-se a letra. Mas agora chutaram o balde e produziram uma aberração que vai além da questão de gosto. Surubinha é um funk do MC Diguinho produzido em 2017, mas que deve ser o hit do carnaval 2018. Seria só mais um funk bom para quem gosta do gênero. Não é o meu caso, nem pretendo entrar nesse mérito. O grande problema é uma parte da letra. Apologia explícita ao estupro.

Cadê as feministas moderadas e as radicais que fazem um dramalhão para qualquer coisa quando tem um caso concreto de machismo, misoginia e o agravante de apologia ao estupro? Cadê o Ministério Público?

Depois de “meu pau te amo”, não pensei que fossem descer mais um degrau na involução da espécie rumo à barbárie. Não é só não gostar de funk, a letra afronta o código penal. A dupla Claudinho e Buchecha produziram ótimos funks que fazem refletir socialmente até os dias atuais. E outros funks clássicos da década de 1990, por exemplo “É só mais um Silva” e “Eu só quero é ser feliz”.

Funks da atualidade são só letras vulgares, obscenas, apologistas a tudo que não presta apenas para explodir e fazer sucesso, além de emburrecer as pessoas. No país de Anittas, onde vale mais rebolar a bunda do que um ato heroico e suicida de uma professora para salvar crianças, surubinha faz sucesso.

Para não ser acusado de ser elitista e preconceituoso com “os manos”, encerro com um funk histórico em que não precisou ter letra obscena ou apologia às drogas e putaria para passar sua mensagem com um sucesso retumbante em um tempo que não existiam redes sociais.

REAL – O Filme mostra um Brasil não muito distante

Real não teve heróis e vilões, cada personagem tinha sua complexidade mostrando o difícil período da luta contra a hiperinflação

Não sei até que ponto a ficção se misturou com os fatos históricos, mas os produtores do filme Real – O plano por trás da história, que contou os bastidores do Plano Real, usaram Gustavo Franco como “herói” e “vilão” ao mesmo tempo. Pérsio Árida foi o antagonista de Franco e Pedro Malan, o amigo de Franco.

Real – O plano por trás da história é uma disputa do liberalismo (neoliberalismo, para uns) defendido por Emílio Orciollo Netto como Gustavo Franco – que foi muito bem no papel – versus o desenvolvimentismo defendido por Guilherme Weber como Pérsio Árida. A primeira cena do filme eu não sei se aconteceu na vida real, mas é o retrato da divisão política que tomou conta do Brasil, principalmente da internet.

Para um filme quase documentário é preciso ser o mais fiel possível. Os produtores de Real capricharam tanto na tinta que quase comprometeram a verossimilhança da história. Todavia, o resultado foi agradável de assistir. Real não teve heróis e vilões, cada personagem tinha sua complexidade mostrando o difícil período da luta contra a hiperinflação que assolava o Brasil e as crises internacionais que quase derrubaram o Plano.

Para quem gosta de política, economia, os bastidores, teorias conspiratórias Real – O plano por trás da história é uma boa pedida. Talvez pudesse ser mais profundo, com mais detalhes nas histórias, mas aí não seria um filme e sim uma série – o que pode vir a ser um dia.

REAL – O PLANO POR TRÁS DA HISTÓRIA

Data de lançamento: 25 de maio de 2017 (1h 35min)
Direção: Rodrigo Bittencourt
Elenco: Emílio Orciollo Neto, Bemvindo Sequeira, Norival Rizzo
Gêneros: Drama, Histórico
Nacionalidade: Brasil

O “circo” é bom, mas o “pão” vem primeiro

O corte da verba da prefeitura pode ser a oportunidade do carnaval carioca se reinventar e voltar a encantar por sua beleza e simplicidade

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), comprou uma guerra com a LIESA, a Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. E uma guerra que ele pode sair com sua popularidade muito arranhada. O Estado do Rio de Janeiro vive uma profunda crise financeira sem precedente após sediar Copa das Confederações, Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos em 2016. Grandes eventos que custaram e ainda custam ao erário fluminense e carioca.

Mas a responsabilidade não é só dos grandes eventos, o maior culpado foi o hoje preso e condenado pela justiça ex-governador Sérgio Cabral, que ainda responde a outras 9 denúncias. Fora toda a corrupção que foi descoberta teve ainda as desonerações para empresas “camaradas”. Ou seja, o Rio viveu uma verdadeira “farra do boi”, um descalabro que culminou em um Estado pré-falimentar sem dinheiro para honrar compromissos básicos como salários de servidores e aposentados.

O prefeito Crivella comunicou a LIESA que pretende cortar 50% da subvenção da prefeitura para os tradicionais desfiles na Avenida Marquês de Sapucaí e que esse dinheiro seria destinado para ampliar convênios da merenda escolar de creches. A LIESA respondeu com terrorismo anunciando a suspensão dos desfiles de 2018. A Liga das Escolas de Samba aposta no carioca viver o samba para ganhar a disputa contra o prefeito, que é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus.

No primeiro carnaval sob a administração Crivella, houve muita confusão e duas grandes tragédias envolvendo carros alegóricos das escolas Paraíso do Tuiti e Unidos da Tijuca, com vários feridos e vítima fatal. Chegaram ao cúmulo de colocar a culpa na quebra de tradição do prefeito não ter participado da cerimônia de entrega da chave da cidade ao rei momo. Cobra-se prioridades do poder público com o dinheiro dos impostos, então a decisão de Crivella tem que ser aplaudida. Não está cortando toda a subvenção, mas metade em nome de uma causa maior.

A LIESA argumenta que o evento gera muitos benefícios para a cidade. Mas a tese de que o carnaval carioca não precisa da prefeitura para existir me parece verdadeira. Por que um evento privado, mesmo que gere benefícios econômicos, financeiros, de geração de empregos e de renda, além da valorização da imagem da Cidade do Rio de Janeiro e do Brasil, como diz a nota da LIESA, tem que ser bancado uma parte com dinheiro público?

Quando o cerco se fechou aos bicheiros, o que fez as escolas de samba? Se penduraram nas tetas da prefeitura e do governo do Rio, com anuência dos governantes em troca de apoio político e eleitoral. Os desfiles outrora fantásticos e encantadores do Rio de Janeiro viraram uma zona. Em 2017, Portela e Mocidade Independente dividiram o título por uma confusão de um jurado. Foram buscar José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, para colocar ordem na casa.

Depois de duas tentativas fracassadas, Marcelo Crivella foi eleito prefeito em 2016, derrotando Marcelo Freixo (PSOL) em um segundo turno que para ambos candidatos foi uma vitória. Crivella e Freixo derrotaram a máquina do PMDB fluminense e o candidato do prefeito Eduardo Paes, Pedro Paulo. Crivella prometeu que “cuidaria das pessoas” depois de um governo mais voltado para grandes obras urbanísticas.

Aqui não se trata de saber qual é a melhor forma de fazer política e de governar. Paes foi reeleito já no primeiro turno de 2012 com 66% dos votos e deixou a prefeitura bem cotado para disputar o governo estadual, após realizar a primeira Olimpíada na América do Sul. Só que a população carioca queria uma mudança na política da cidade. A saúde pública vem clamando socorro não é de agora, segurança e educação não são diferente.

Nos desfiles de hoje em dia o que vale mais é impactar o público e os jurados do que mostrar um bom samba. O corte na verba da prefeitura pode ser a oportunidade do carnaval carioca se reinventar e voltar a encantar por sua beleza e simplicidade, nada de carrões mastodontes que só atrapalham e luxuria vazia de conteúdo.

A crise de identidade cultural brasileira

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Critico muito os saudosistas, mas as antigas canções da MPB – principalmente do período da ditadura – tinham qualidade. Hoje em dia, os sucessos são “beijinho no ombro” e “bunda lê, lê”…  Há claro um declínio da música popular brasileira. Aliás, não só na música. No futebol, em alguns esportes que ganharam tudo no passado recente como o vôlei, por exemplo, estão em notório declínio. Até as novelas brasileiras que são exportadas para todas as partes do mundo perderam a qualidade de outrora. O Brasil passa por um momento de crises nas suas principais identidades culturais.

No passado você tinha Chico Buarque, Caetano Veloso (antes de virar admirador de black bloc), Geraldo Vandré, Gilberto Gil entre outros. O Problema do Chico Buarque é ele gostar de Fidel, Che e da ditadura dos Castro. Fora isso, um dos maiores compositores da história. E o erro de alguns esquerdistas revolucionários é que levam ao pé da letra muitas músicas da época da ditadura. Elas são lindas, eu gosto, mas para por aí. Não dá para sonhar com revolução como a cubana ou a russa de 1917 em pleno século 21.

Apenas alimenta os neuróticos que pensam que o Brasil corre riscos de cair numa ditadura comunista (!!!) ou bolivariana como a Venezuela ou virar uma Cuba de dimensões continentais. Quem pensa assim ainda vive com a mentalidade da guerra fria. Não passou pela queda do Muro de Berlim. E isso vale tanto para direitistas quanto esquerdistas.

Hoje os ícones da MPB são Latino, Valesca Popozuda e Anitta. Com todo o respeito com quem gosta (e não tem nada de errado de gostar desse tipo musical), mas pra mim não dá.  Meu gosto não bate com as músicas da atualidade. E o grande problema é qualificar qualquer coisa lançada hoje em dia de “arte”, “genial”, “craque”, “fenômeno”. Como bem disse uma vez o grande Ariano Suassuna: “se qualquer porcaria recebe o rótulo de ‘genial’, o que diremos sobre Beethoven?”. Se tudo é arte nada é arte.