Carnaval e Poder Público

É justo o dinheiro dos impostos de todos financiar um evento que privado?

sapucai

O youtuber do canal Mamãefalei e deputado estadual eleito por São Paulo, Arthur Moledo do Val, fez um vídeo interessante sobre se o carnaval é moral e se deve receber dinheiro público com o pretexto de incentivo à cultura popular. Arthur deixa claro que o “moral” não tem nada com sexo e você pode gostar e sambar até o dia amanhecer. O problema está na relação muitas vezes espúrias entre o poder público – federal, estadual e municipal – e as escolas de samba.

A imoralidade que o Arthur levanta não está no tapa sexo ou no sexo livre durante todo  o carnaval, mas nas relações dos donos das escolas de samba com o jogo do bicho, drogas e até com o crime organizado. Ele levantou a ficha corrida dos principais presidentes das escolas de samba do Rio de Janeiro e assusta. Falou também de São Paulo, para não ficar parecendo um paulista falando mal do “patrimônio carioca”.

Há 2 anos o prefeito Marcelo Crivella (PRB) comprou briga diminuindo o repasse que a prefeitura faz anualmente para as escolas de samba do Rio. Insatisfeitos, levaram para avenida até um boneco do Crivella em forma de Judas. A verba pública para o carnaval não é patrocínio, é subvenção – ou seja subsídio.

Será que o “maior espetáculo da terra” não pode se sustentar sem a verba pública tirada de áreas sociais já tão deficitárias? É justo o dinheiro dos impostos de todos financiar um evento que privado? É um tema para debate, sem paixões.

Discurso golpista de Fernanda Lima

A população real deu o recado pela urna eletrônica; “lacrolândia” se fez de surda

fernanda lima

A apresentadora Fernanda Lima criou polêmica com seu discurso final do programa “Amor & Sexo”, da última terça-feira (6). Seu discurso ficaria esquecido nos arquivos da TV Globo, mas apoiadores de Jair Bolsonaro na internet fizeram a fala da modelo, atriz e apresentadora viralizar. Foi um discurso carregado na tinta de estereótipos e sentimentalista, que mais pareceu choro de quem acabou de perder no voto popular.

O que chamou atenção nos bolsonaristas foi ela fazer um discurso feminista inflamado dando a entender que “sabotaria” o governo que tomará posse em janeiro. A fala foi golpista porque inflama setores que já fazem e farão a legítima e necessária oposição ao futuro governo. O discurso foi praticamente uma declaração de guerra sem citar o nome do presidente eleito.

Tenho quase certeza que o alto comando da emissora ficou incomodado com esse discurso da Fernanda no momento que a direção de jornalismo tenta chegar o mais próximo da isenção e o trabalho que é não de hoje de desconstruir a imagem que a Rede Globo “tem lado”. Mas não vai soltar nota nem advertir publicamente a apresentadora. O mais próximo de uma “punição” é o programa não ser renovado para mais uma temporada e o motivo seria pela expressiva perda de audiência.

Pessoalmente, reforço que o discurso da Fernanda Lima foi golpista ao usar a palavra “sabotar” depois de uma eleição pra lá de conflituosa, além de um período muito conturbado politicamente, economicamente e culturalmente. Ela pode alegar que se referia ao sistema como um todo, ou seja, a sociedade machista, patriarcal, misógina, racista, homofóbica. Poderia ter feito o discurso acalorado com outras palavras ou até com as mesmas que usou deixando referências mais explícitas e assim evitar interpretações dúbias.

O recado orgânico foi dado pela repercussão mais negativa do que positiva nas redes e no Ibope, mostrando como a “lacrolândia” não assimilou o recado que a população real deu pela urna eletrônica. Independente disso, prefiro a gritaria histérica, a liberdade de uma democracia do que o silêncio de uma ditadura. Ou uma censura pérvia ao discurso da aparentadora por parte da emissora.

Beija-Flor ensinou como se faz desfile crítico

A Beija-Flor de Nilópolis encerrou os desfiles do Grupo Especial do Rio de Janeiro com chave de ouro. Levando para avenida enredo baseado no livro de “Frankenstein”, que na verdade originou o enredo.

Com o título “Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu”, Beija-Flor deu uma aula de enredo crítico sem ser partidarizado. A escola de Nilópolis falou de corrupção, abandono do poder público, as consequências desse abandono, de intolerância. Tudo isso com excelente samba que empolgou o público e sem partidarizar a favor de partidos, muito diferente do desfile no dia anterior da Paraíso do Tuiuti, que seu carnavalesco fez uma crítica social enviesada politicamente.

Beija-Flor também se diferenciou da Mangueira. Mostrou que não precisa nomear ou usar a religião de políticos para critica-los de modo sarcástico.

Se os jurados julgarem corretamente, como deve ser, ninguém tira esse carnaval da Beija-Flor. “Ratos e urubus, larguem minha fantasia” ganhou uma companhia na galeria de desfiles monumentais da escola de Nilópolis.

Tuiuti fez desfile para “lacrar”

Se Temer se vestisse de “Presidente NEOLIBERALISTA”, sua popularidade subiria para níveis históricos

A escola de samba Paraíso do Tuiuti levou para avenida os 130 nos da Lei Áurea, uma crítica social foda sobre a escravidão moderna e o “cativeiro social”. A polêmica ficou por conta de uma ala representando os “paneleiros” de verde-amarelo sendo manipulados por uma mão que seria do “vampirão neoliberalista” com faixa presidencial.

Sou muito a favor de escolas de samba instigar reflexões e debates, mas o que o carnavalesco Jack Vasconcelos fez foi apenas aproveitar o pano de fundo do tema escravidão para propagar ideologicamente a mentira de que a reforma trabalhista é “escravidão moderna”, difamar os milhões de brasileiros que foram às ruas contra o governo Dilma e escrachar o atual presidente.

Não foi Coragem. Coragem era fazer um desfile crítico ao Lula em 2010, quando ele deixava o governo com mais de 80% de aprovação. Ou um desfile crítico a uma ditadura. O desfile da Tuiuti foi “lacração” pura e serviu de palanque para políticos oportunistas. E comparar a reforma trabalhista com escravidão além de burrice é um brutal desrespeito para com a memória dos escravos, de quem sofreu na escravidão!

Pior ainda é saber que a Tuiuti só desfilou ontem porque o rebaixamento de 2017 foi cancelado antes da apuração passada em virtude dos acidentes nos desfiles da Unidos da Tijuca e da própria Tuiuti, inclusive o da última com vítima fatal e controvérsia em relação ao acidente com o carro alegórico pivô do acidente.

Visualmente, a Tuiuti fez um desfile empolgante para quem estava na Sapucaí ou assistindo pela TV e, claro, para turma “Fora, Temer” das redes sociais. Um julgamento justo deixaria a escola no Grupo Especial e não seria loucura voltar no desfile das campeãs. Mas meu desejo é o rebaixamento da escola pela “blasfêmia” de ontem e, principalmente, também pelos acontecimentos de 2017.

Não bati panela, mas não me arrependo nada de ter apoiado o impeachment da pessoa que jogou o país na pior crise da história e não tenho medo de falar que apoio o presidente que está reerguendo a economia brasileira.

Polícia Federal – A lei é para todos é essencial para entender a Lava Jato

Assisti só agora o filme Polícia Federal – A lei é para todos. É um filme bem produzido com cara das séries policiais americanas. O que chamou mais atenção foi o detalhismo na pesquisa da operação Lava Jato para produção do filme, bem antes da prisão do doleiro Alberto Youssef até um pouco além da condução coercitiva do ex-presidente Lula.

Não vi o partidarismo que os críticos ao filme viram – críticos que na verdade são críticos da operação que virou a política brasileira do avesso. O que eu vi foi um filme baseado em fatos reais, quase documentário. Um documento histórico do Brasil. A partidarização – e o filme tenta tirar essa impressão em uma cena maravilhosa do delegado com uma jornalista que acusa a operação de jogar contra o PT – do filme se deve por ser a primeira parte de uma trilogia. É impossível contar tudo o que aconteceu desde 2014 até o lançamento do filme em 2017.

Também houve quem achou o filme meio que peça de propaganda da PF. Realmente passa a impressão que os delegados federais, promotores e o juiz Sérgio Moro são “imaculados”, talvez esse seja o maior erro do filme: fantasiar muito as autoridades da operação. Mas pode ser corrigido na sequência da série e há fatos reais para mostrar desvio de conduta de agentes e autoridades.

Polícia Federal – A lei é para todos é essencial para entender a operação que trouxe à luz como funcionava não só o mega esquema de corrupção na Petrobras, mas a engrenagem do sistema político partidário brasileiro, a simbiose entre o poder público e empresários – no caso específico os empreiteiros – que ajuda a entender muito dos nossos problemas sociais e econômicos. E, ao elogiar o filme, isto não me impede de apontar os erros cometidos e os que ainda possam acontecer na Lava Jato.