A cassação de Deltan

Pessoalmente, acho Deltan desprezível. É um extremista que tenta se vender como ponderado

Eu sempre vejo com muita cautela a cassação de um mandato conseguido nas urnas. Cassar um deputado, um vereador, um senador, prefeito, governador e até um presidente da República precisa ser feito com muito cuidado. Em última instância é jogar no lixo milhares ou milhões de votos.

Mas quando há fato que justifique uma cassação os órgãos de controle não podem fechar os olhos. O TSE cassou por unanimidade (7 votos) o mandado de Deltan Dallagnol (Podemos/PR).

O ex-procurador da operação Lava Jato perdeu o mandato porque, segundo o TSE, o ex-coordenador da Lava Jato pediu exoneração do Ministério Público Federal a fim de evitar que alguma das 15 representações em curso contra ele se tornassem, posteriormente, processos administrativos disciplinares. Está na lei da Ficha Limpa que Deltan tanto defendeu. E mais: Deltan foi vítima de leitura controversa de uma lei do mesmo jeito que nos tempos de procurador ele fazia leituras controversas de leis para condenar alvos.

Pessoalmente, acho Deltan desprezível. É um extremista que tenta se vender como ponderado. Mas, diferente dele que queria abolir o Habeas Corpus nas famigeradas 10 medidas contra a corrupção, defendo seu direito de defesa e de espernear.

Os justiceiros se transformaram em quadrilheiros

Deltan Dallagnol e seus comparsas da força-tarefa de Curitiba tentaram buscar informações contra Gilmar Mendes na Suíça. Não encontraram nada. Mas só o ato já é de uma gravidade monstruosa. Não é de hoje que a força-tarefa da Lava Jato tenta tirar o ministro Gilmar do meio do seu caminho, pois foi um dos primeiros a criticar e formar resistência aos métodos fora da lei que passaram a ser adotados pela operação em nome de uma depuração ética e moral.

Os vazamentos do jornal El País, em parceria com The Intercept Brasil, carimba em definitivo a força-tarefa de Curitiba como uma organização criminosa. Os diálogos comprovam que os procuradores não só selecionavam seus alvos para preventivas, coercitivas, vazamentos de delações para a imprensa, também passaram a investigar seus críticos e desafetos ilegalmente. Não se trata só de “fofocaiada”. Atentaram contra a intuição STF para que seu projeto megalomaníaco não tivesse obstáculos.

Assusta como aquela turma de procuradores de Curitiba não tem o menor apreço pelo rito legal, pelas leis, Constituição, Estado Democrático de Direito e o deboche achando que suas tramoias nunca seriam descobertas. Assusta mais como eles capturaram uma enorme parcela da população que aceita tudo que fizeram porque prenderam corruptos. A impunidade reinante no Brasil desde 1500 pode até no primeiro momento justificar, mas não é justificável o que fizeram. E as mensagens mostram que não era apenas para desmantelar um esquema de corrupção, o objetivo era tornar o Ministério Público, já agigantado, onipotente.

As mensagens publicadas pelo El País e dias antes pela Folha deixaram a biografia do palestrante de power point das Araucárias no lixo da história. Resta saber se tem alguém nessa republiqueta para punir Deltan e cia ou só tem covarde e bajulador dos justiceiros de Curitiba.

Dallagnol cometeu crime de lesa-pátria

Dallagnol cometeu crime de lesa-pátria ao investigar autoridades sem autorização e competência

De todos os vazamentos das mensagens obtidas pelo The Intercept Brasil e compartilhadas por outros órgãos de imprensa, a mais nova relevação é a que tem o maior nível de gravidade. Nelas, Deltan Dallagnol incentiva procuradores de Curitiba e Brasília a vasculhar possíveis indícios de crimes do ministro e, hoje, atual presidente do Supremo Tribunal Federal, Antonio Dias Toffoli.

As mensagens publicadas pela Folha de São Paulo também mostram quem vazava delações premiadas para a imprensa. Os próprios procuradores são fontes da imprensa nos vazamentos que, agora, eles criticam. No mesmo conteúdo, Deltan trabalhou para barrar o ministro do STJ Humberto Martins para o STF, obtendo sucesso. O presidente Michel Temer indicou o seu ministro da Justiça e Segurança Pública Alexandre de Moraes, na vaga de Teori Zavascki.

Que Deltan agia politicamente tanto em publico quanto no bastidor, já era de conhecimento geral. Agora também é de conhecimento que incentivava investigação secreta contra ministros do STF, o que viola a Constituição e o ordenamento jurídico do país. Membros do STF só podem passar por investigação com autorização do próprio tribunal e a competência investigativa é exclusiva do Ministério Público Federal via Procurador-geral da República.

Se não respeitam nem as prerrogativas do cargo de ministro da alta corte, imagina as prerrogativas dos cidadãos comuns. Deltan Dallagnol cometeu um crime contra a instituição STF. Não é possível que vai ficar impune e não será punido nem dentro do Ministério Público. Aqui não é sair em defesa de Toffoli ou de outro ministro, mas da intuição guardiã da Constituição, da própria, das leis, do Estado Democrático de Direito. Em nome do combate aos crimes de corrupção foram cometidas violações gravíssimas. Para blindar a Lava Jato cometeram crime de segurança nacional investigando autoridades constituídas fora do arcabouço legal. É o Estado policial e fascistoide em estado puro.

‘Zorra’ debocha de Moro e Deltan

O programa “Zorra” fez o melhor esquete de política desde a sua reformulação e resumiu em forma de paródia o escândalo da Lava Jato. Deve ter doído em Sergio Moro e Deltan Dallagnol tamanha gozação em plena rede de televisão “parceira” da operação policial. Mas a Globo separa o núcleo artístico (progressista e de esquerda) do jornalismo (lavajatista).

Também doeu em quem acha que um juiz deve aliar-se à acusação para enfrentar corruptos, mesmo que isso fira a fundamental isonomia da Justiça, as leis e códigos de conduta.

O humor é um dos combustíveis da democracia e da liberdade. E bem calibrado faz bem para saúde.

O que virou a Lava Jato

A luta contra corruptos foi transformada em uma cruzada contra a classe política em prol de um projeto de poder

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O Brasil vive um período dos mais conturbados, talvez o mais desde quando a Família Real portuguesa veio para essa terra fugindo do Napoleão. O país que vivia certa tranquilidade institucional após a Constituição de 1988 e a reabertura política, de um povo anestesiado convivendo com seus problemas e mazelas tranquilamente, passou a ter crises políticas e até institucionais sucessivas abalando pilares que pareciam sólidos – e, apesar de tudo, se mostram sólidos – ameaçando a democracia e o Estado Democrático de Direito.

Depois das jornadas de junho 2013 teve uma eleição que provocou uma cizânia profunda na sociedade que culminou em um processo de impeachment controverso, um ex-presidente condenado e preso por corrupção que vem a ser a maior liderança popular dos últimos 40 anos, uma nova eleição que desafiou a lógica da ciência política com direito a um atentado contra o líder nas pesquisas e este seria eleito o novo presidente na sequência.

A internet transformou o brasileiro outrora um desleixado por assuntos políticos em comentarista de política na pior acepção da palavra e a Lava Jato foi o combustível para essa mudança. Sem dúvidas que a operação fez um grande trabalho desvendando as entranhas podres da relação entre o público e o privado fazendo o brasileiro acordar para o que de fato é relevante e impacta na sua vida: corrupção e descaso dos políticos-governantes.

Mas autoridades foram transformadas em heróis nacionais, salvadores da pátria, não satisfazendo mais ficar na casinha. Muitos viram nas redes sociais a oportunidade de liderar a boiada. A luta contra corruptos foi transformada em uma cruzada contra a classe política em prol de um projeto de poder e tudo relacionado à política virou corrupção.

Deltan Dallagnol é o líder da ala jacobina do MPF. É uma instituição corporativista que não dorme em serviço na luta de seus interesses e privilégios. Essa ala do MPF combina duas das ideologias mais perversas que a humanidade teve o desprazer de conhecer: jacobinos da Revolução Francesa e o stalinismo da Revolução Russa. Só trocaram a guilhotina e os Gulags por algo mais moderno.

Um exemplo do stalinismo é o que estão fazendo com Raquel Dodge. Deltan deseja a cadeira de Dodge, o que passa na sua desmoralização pública; sem saída ela recorreu em busca de refúgio nos tribunais superiores e na classe política fustigada pela “República de Curitiba”. Os “Garotos” já demonstraram que não têm pudor de atacar críticos independentemente se jornalista, articulista ou colegas de toga. Incentivar a depredação moral – até física – das nossas instituições é um dos meios para chegar ao objetivo materializado na fundação que querem criar.

Não existe lado bem e mal na guerra entre instituições. É só jogo de interesses e quem compra o que um lado diz está sendo um fantoche. O apoio orgânico da população para Lava Jato passou a ser torcida organizada e está virando uma seita. Toda seita fanática é perigosa. No entanto, esse apoio vem caindo. Saldo dessa disputa tende a ser catastrófico para as nossas instituições, a nossa democracia, enfim nosso Brasil.