
Fábio Piperno
“O Maranhão não quer mais a miséria, a fome, o analfabetismo, as mais altas taxas de mortalidade infantil, de tuberculose, de malária, de xistossomose, como um exercício do cotidiano”. O trecho citado bem que poderia ser assinado por qualquer oposicionista da administração maranhense. Mas não é. Foi extraído do discurso de posse do então governador José Sarney, em 1º de fevereiro de 1966.
Deputado da chamada Bossa Nova da UDN, a ala reformista do mais conservador dos grandes partidos naquele Brasil militarizado de meados da década de 60, Sarney chegou ao executivo empurrado por um discurso modernizador, de forte apelo social e carregado nos braços dos miseráveis. Para marcar essa redentora aliança com os desvalidos da época, avôs dos atuais clientes maranhenses do Bolsa-Família, o então novo líder local recrutou o mais inquieto expoente do Cinema Novo.
Nome já reconhecido internacionalmente, Gláuber Rocha desembarcou naquele árido e sofrido cenário. O encontro do realismo social do Cinema Novo com o discurso modernizante de Sarney resultou no documentário Maranhão 66. Nos 10 minutos e 19 segundos da película, a câmera de Gláuber exibe a esperança e critica o apartheid social. E enquadra na moldura do discurso-denúncia de Sarney a precariedade do hospital, logradouros públicos caindo aos pedaços, enfermeiros sem salário e o pungente depoimento do rapaz que aguarda uma cirurgia enquanto lamenta que vai se esvaindo “minha última gota de sangue”.
A dor do rapaz derrete por algum tempo o protagonismo do discurso de Sarney e se ouve como profecia. Daquela última gota de sangue do personagem involuntário até o massacre nos miseráveis presídios maranhenses se passaram 48 anos. Quase meio século de um tempo que parece congelado na aridez de uma das regiões mais miseráveis do país.
Não demorou para que Sarney sufocasse as velhas oligarquias para substituí-las pela sua. Terminado o mandato, Sarney foi para Brasília como senador da república. Áulico do poder como poucos, hábil na arte de evitar confrontos para fazer amigos influentes, tornou-se estrela em ascensão da Arena, o partido que os militares ergueram para sufocar a oposição.
Com o início da redemocratização e o fim do bipartidarismo, Sarney permaneceu fiel à ditadura militar vigente como presidente do PDS. Assim foi até os estertores do ciclo militar, quando deu o golpe de mestre. Presidente do partido da situação, não hesita em pular a cerca para se filiar ao PMDB, que articulava chapa encabeçada por Tancredo Neves e estava em busca de um nome conservador para completar a transição rumo à democracia. Bem, o resto é história.
O governo Sarney teve como marcas a hiperinflação, que bateu a taxa mensal de 84%, licitações bilionárias, como a da ferrovia Norte-Sul, anuladas por suspeita de fraude, a política explícita do “é dando que se recebe” e o estelionato eleitoral de 1986, quando o PMDB do presidente elegeu 22 de 23 governadores e 305 deputados federais, graças ao congelamento de preços mantido artificialmente até que as urnas fossem fechadas.
Nas eleições de 1989 eram vários os candidatos competitivos. Fernando Collor, Lula, Leonel Brizola, Mario Covas, Paulo Maluf, Ulysses Guimarães, Affi Domingos, Aureliano Chaves, Ronaldo Caiado e Affonso Camargo eram os principais. Com eles, todas as tendências políticas estavam representadas. Só não havia um elemento: candidato da situação! Ninguém queria se associar a Sarney.
Isolado, foi procurar abrigo eleitoral no Amapá, que lhe deu um novo mandato de senador. De volta, Sarney presidiu o Senado como aliado de FHC, Lula e Dilma. Serviu e serviu-se de todos eles. Ajudou a todos nos momentos de dificuldade e, “como é dando que se recebe”, ganhou poder, acumulou cargos e até ministérios. Com Lula, a ligação chegou a ser tão fraternal que coube ao velho coronel acompanhar o popular presidente no momento em que o petista subiu no avião da FAB no voo de volta para São Paulo quando deixou o Planalto.
Quando o prestígio de Sarney balançou na presidência do Senado por conta do escândalo dos atos secretos, não faltaram ombros e apoios de velhos amigos para salvá-lo de uma vexatória cassação quase no final da carreira. Na província maranhense, até chegou a perder, mas o sobrenome recuperou no tapetão o mandato que Roseana havia perdido nas urnas para o velho oposicionista Jackson Lago.
Mas é claro que o Maranhão tem sua culpa. Afinal, Roseana conseguiu a reeleição em 2010. Os indicadores sociais continuam entre os piores do país, a miséria envergonha e os presos empilham cadáveres nas prisões. Nada surpreende. Pode-se dizer que, se naquela parte do Brasil nem os livres e honestos têm acesso aos direitos humanos mais elementares, o que dirão então os criminosos dos presídios?
Soa irônico, mas também previsível no Maranhão em que o nababesco não se cansa de ofender os despossuídos, que exatamente na semana em que o estado pede socorro para se livrar dos presidiários mais perigosos, a administração pública realize uma licitação para abastecer a cozinha da governadora até o fim de 2014 com 80 kg de lagosta fresca, 750 kg de patinha de caranguejo, 50 caixas de bombom, 2.500 garrafas de 1 litro de “refrigerante rosado” com “água gaseificada, açúcar e extrato de guaraná” e uma tonelada e meia de camarão, entre outros itens. Afinal, Roseana é Sarney, mas com alma de Maria Antonieta.
Voltemos a 1966. Para esperança e aplauso da multidão, Sarney também denunciou o atraso maranhense, um estado que ficava “olhando o nordeste e o Brasil progredir, enquanto nossa terra mergulhada na podridão, não podia marchar, nem caminhar”. Hoje, nem o PSOL talvez fosse capaz de tamanho radicalismo verbal. No momento culminante da insurgência contra o descaso naquele pronunciamento à multidão, Sarney fez praticamente uma conclamação à revolução:
“O Maranhão não suportava mais, nem queria, o contraste das suas terras férteis, de seus vales úmidos, de seus babaçuais ondulantes, de suas fabulosas riquezas potenciais com a miséria, a angústia, com a fome, com o desespero que não levam a lugar nenhum, se não ao estágio em que o homem de carne, é o bicho de carne e osso”. O futuro mostrou que Sarney foi apenas um profeta que aprisionou o passado, de onde o Maranhão jamais se libertou. E onde o homem de carne se tornou um bicho esquálido, no corpo e na esperança.
Sarney é a ferrugem que percorre por toda a engrenagem!
Sarney e Collor no senado é a prova definitiva que o sistema não funciona!