
Guilherme R. Garcia Marques
Não é de hoje que o progressivo acaloramento da polarização entre “esquerda” e “direita” contribui, em larga medida, para anuviar tudo aquilo que é verdadeiramente fundamental e imperativo para a construção de uma sociedade mais justa e desenvolvida. Já é passada a hora de superarmos definitivamente essa dicotomia, sob o risco de perdermos a oportunidade de avançar em pautas prioritárias ao encaminhamento de possíveis soluções para alguns dos mais graves problemas que afligem o país.
É o caso de temas que, por sua premência, deveriam figurar em posições centrais em nosso debate público, a exemplo das causas e soluções para o nosso desequilíbrio fiscal; da regressividade de nosso sistema tributário; da falência de serviços públicos essenciais; da estagnação da produtividade; do nosso caótico ambiente de negócios; e das inúmeras injustiças sociais com as quais convivem diariamente amplos setores de nossa sociedade.
Tais questões, todavia, seguem sendo continuamente preteridas por discussões irrelevantes, alimentadas por disputas políticas e ideológicas nada pragmáticas. Superar essa rixa e trazer o debate público para o campo mais elucidativo das evidências empíricas desponta como passo fundamental para a emergência de uma agenda concreta de desenvolvimento, apta a definitivamente contribuir com a resolução de muitos dos nossos múltiplos entraves econômicos e sociais.
Cabe mencionar, como exemplo, a experiência australiana: medidas tomadas pelo governo trabalhista, de centro-esquerda, a partir de 1983, visaram combater a estagnação da produtividade a partir de iniciativas como a privatização de empresas estatais, a flexibilização trabalhista e a maior inserção comercial via redução de tarifas alfandegárias. Hoje, o país alcança a marca de 27 anos ininterruptos de crescimento econômico e elevados padrões de desenvolvimento social, mantendo-se imune às flutuações, choques e instabilidades econômicas e comerciais oriundas do ambiente internacional.
A experiência australiana desponta como exemplo de importantes lições para o Brasil. Uma boa agenda de desenvolvimento não deve ser encarada como traço indissociável a uma ou outra vertente específica de pensamento, mas sim transcendê-las pela clareza de suas premissas e propostas. Nesse aspecto, ambos os lados podem e devem dar sua contribuição. “Não importa se o gato é preto ou branco, desde que cace os ratos”, já dizia o pragmático Deng Xiaoping.
É apenas com base em diagnósticos claros que seremos capazes de alcançar padrões mais elevados de prosperidade econômica e social. Menos paixões e arbitrariedades ideológicas e mais pragmatismo e apego às evidências farão um tremendo bem ao país.
Essa posição de “neutralidade”, ou de “centro”, ou mais popularmente conhecida nos dias de hoje como “isentão”, não deve ser encarada de forma pejorativa. Tampouco como covardia ou omissão. Trata-se de um claro compromisso com a construção de uma agenda genuinamente relevante e atenta aos interesses do país, fortemente ancorada nas melhores práticas e evidências empíricas. Alheia, portanto, às questões rasteiras que hoje impregnam o debate público. Em outras palavras, um compromisso com aquilo que pode, finalmente, dar resultados.
O momento, mais do que nunca, exige lideranças agregadoras, conscientes e comprometidas com o que é fundamental. A comunicação será um instrumento cada vez mais importante nesta tarefa, bem como para que superemos este crítico momento rumo a uma trajetória sustentável e sustentada de desenvolvimento no futuro. Alimentar a polarização é perda de tempo, e mais cedo ou mais tarde, acabará por nos serrar ao meio.
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Guilherme R. Garcia Marques – Cientista político. Mestre em Economia Política Internacional. É analista da Diretoria Internacional da Fundação Getúlio Vargas e membro do Grupo Latino Americano para a Administração Pública (GLAP/IIAS).
As opiniões expressas são de caráter pessoal e não representam a posição da FGV. O autor publica opiniões, também em caráter pessoal, em sua conta no Twitter (@grgmarques).