
A Lava Jato trouxe grandes consequências tanto para a política quanto para a economia do Brasil. Politicamente, foi um tsunami e a onda catapultou um deputado do baixo clero da Câmara dos Deputados para o Palácio do Planalto, pelo voto popular. Na economia, a Lava Jato destruiu milhões de empregos ao colocar na mesma cesta de punidos as empresas.
Exportada para outros países da América do Sul, o Peru foi o mais atingindo e tem quatro ex-presidentes respondendo a processos derivados da delação-mãe da operação: Odebrecht. Hoje, um deles ao ser preso preventivamente, Alan Garcia cometeu suicídio. Assim como Lula no Brasil, Garcia se dizia um perseguido político. O ex-presidente peruano tentou asilo político no Uruguai, mas o país não aceitou as alegações dele.
A prisão preventiva foi e é um instrumento usado aqui e exportado para os vizinhos. Há vários políticos presos no Brasil aguardando julgamento sem direito a um habeas corpus. Se uma autoridade judicial conceder um HC a um político é massacrado pela opinião pública em uma sociedade cada vez mais doente por vingança, não por Justiça.
O combate à corrupção virou obsessão e o devido processo legal e as garantias individuais passaram a ser obstáculos nessa guerra anticorrupção. Para uma parcela cada vez maior da população nada pode impedir o expurgo dos corruptos da vida pública, mesmo se for preciso passar por cima das leis e até da Constituição. A sanha punitivista transformou o STF em alvo permanente de ataques impulsionados por membros do Judiciário movidos por interesses às vezes nada éticos.
Mas o Supremo cavou sua própria cova ao alimentar o monstro que agora tenta devorá-lo. Nos últimos anos o próprio STF desrespeitou a Constituição que os ministros estão lá para defendê-la e interpretá-la. Nunca reescrevê-la. Por covardia não colocou um freio em procuradores e juízes que adotaram práticas nada ortodoxas em nome da limpeza ética na política. Deixou de votar ações de sua competência para não desagradar populares e a “República de Curitiba”, como por exemplo as ADCs que acabariam com a polêmica da prisão em segunda instância antes da condenação de Lula no Tribunal Regional Federal da 4ª região.
No desespero para recuperar sua moral, a Suprema Corte usa ferramentas de regimes de exceção para silenciar quem no sub-mundo da internet espalha as maiores mentiras contra ministros e propagando o fechamento do tribunal. Desespero que faz usar até de censura contra a imprensa, desrespeitando uma norma pacificada no próprio tribunal. O STF que era para ser respeitado, virou motivo de deboche e escarro. A imprensa tem sua parcela de culpa ao transformar em parte por sensacionalismo e outra por interesses ideológicos suspeitos em culpados, delações em provas e ao condenar as pessoas sumariamente destruindo suas biografias.
A morte de Alan Garcia espalha sangue nas mãos de quem faz e de quem aplaude o justiçamento jacobino em detrimento da Justiça. No Brasil, o símbolo da cruzada anticorrupção a qualquer preço é o suicídio do reitor da UFSC Luiz Carlos Cancellier.