A liderança mundial e o saudosismo realista

Liberalismo-político

Felipe Alves

Depois da quebra do paradigma bipolar da Guerra Fria, várias apostas foram feitas sobre uma “Nova Ordem Mundial”. Chefes de Estado, acadêmicos e jornalistas fizeram projeções para o início do século XXI, porém, com base em fatos muito recentes, o que elevou a fragilidade dos argumentos. Hoje, 25 anos após a queda do Muro de Berlim, podemos nos afastar e ver o cenário como um todo, e não apenas pontos específicos, qualificando conclusões e simulações.

As previsões mais amplas sobre o Sistema Internacional dos novos tempos são várias, e a bibliografia sobre a nova ordem mundial é bastante rica. Contudo, procurarei aqui discorrer sobre marcas bem mais antigas que a própria Guerra Fria que ainda hoje são decisivas nos caminhos da ordem mundial. Falo do Realismo Político.

O Realismo Político é a mais tradicional abordagem do estudo das Relações Internacionais, fundamentada em autores como Tucídides, Maquiavel, Hobbes, E.H Carr, entre outros. Os principais conceitos são poder e conflito. O historiador grego relata a guerra entre Atenas e Esparta, teorizando sobre equilíbrio de poder, interações positivas e choques entre as cidades-estados da época. Maquiavel foca na conquista de poder e sua manutenção, enquanto Hobbes centraliza-se no “estado de natureza” do homem, e é isso que pretendo evidenciar.

Segundo Thomas Hobbes, o homem no estado de natureza (antes do surgimento do Estado regulamentador) pode tudo, então, procura usar todos os meios necessários para alcançar seus objetivos. Isso acontece pela falta de regulamentação, que deixa o sistema anárquico, colocando homens contra homens. Logo, a sociedade precisa de um contrato social com um Leviatã, com um estado, para evitar a “Bellum omnia omnes”, ou guerra de todos contra todos.

Esse raciocínio não é intrínseco das relações interpessoais, mas expande-se para as Relações Internacionais na visão hobbesiana. A ordem mundial é regida pela anarquia, deixando o sistema suscetível à incansável procura por poder dos Estados. Entretanto, essa visão de choque brutal de interesses perde força desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Depois de duas guerras mundiais e diversas outras consequências do pensamento realista, alguns Estados resolveram repensar seus paradigmas, e encontraram na cooperação mútua uma chance de estabelecer uma ordem pacífica. Vimos a criação da ONU, da Corte Internacional de Justiça e o início de resoluções conjuntas entre seus membros. Então, o Liberalismo ganha terreno.

Ideias como cooperação, integração mundial e governança global tornam-se destaque com os 14 pontos de Wilson e a tentativa de reconstrução do mundo devastado. Até hoje essa vertente tem mais força que o Realismo e os objetivos racionais que priorizam apenas objetivos nacionais. Os Estados se juntaram em União Europeia, ONU, OTAN e diversas outras Organizações Regionais por acreditarem que em vez de disputarem entre si diversas pretensões conflituosas, seria melhor procurar um escopo que agradasse à maior parte do Sistema Internacional. Porém, o saudosismo realista procura quebrar essa integração.

No começo do ano acompanhamos Vladimir Putin comandando a Rússia em uma ação ilegal de anexação da Península da Criméia, na Ucrânia. Desde sua criação, o Conselho de Segurança das Nações Unidas trava decisões humanitárias por interesses nacionais de seus integrantes. China, Rússia, Estados Unidos e Coreia do Norte tomam decisões de abrangência internacional sem o razoável nível de responsabilidade requerido por um cenário tão interdependente. São estas ações baseadas na Razão de Estado de Richelieu, na Realpolitik de Bismarck, nas escrituras de Maquiavel e outras ideias anacrônicas que formam barreiras enormes na manutenção da paz.

Algumas soluções foram propostas para quebrar esse paradigma, porém mostram-se bastante utópicas. A redistribuição natural de poder demora muito a acontecer, mas parece ser o caminho mais correto. Com novos autores e novas políticas internacionais, talvez tenhamos uma liderança mais global e menos nacional. Ou apenas acontecerá o que sempre aconteceu: “obedeci ontem, mando hoje. E que vença o realismo.”

Hugo Chávez e o chavismo

Foto: G1

Leonardo Dahi, @dahileonardo

Morreu no fim da tarde de terça-feira (5), o Presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Ele, que já estava internado em Cuba há algum tempo (não pôde, inclusive, assumir o novo mandato, que conquistou nas Eleições de outubro de 2012), não resistiu a um câncer e, nos últimos dias, já estava “mais-pra-lá-do-que-pra-cá”.

Por isso, dada a gravidade da doença, todos tratavam Hugo Chávez como um “morto-vivo”, cuja morte seria apenas questão de tempo. E, como era de se esperar, se acalorou, em especial nas redes sociais, um debate sobre seu legado político e sobre sua emblemática figura.

De um lado, os admiradores de seu governo. Do outro, seus detratores. Alguns, inclusive, torciam – e agora comemoram – pelo fim do líder venezuelano, algo que é absolutamente lamentável. Porém, nada nos impede de comemorar um possível fim do chavismo. Repetindo: possível. Pode ou não acontecer, mas sobre isso nós falamos depois.

Por agora, quero focar mais nos anos de governo de Chávez.

Não dá para negar que ele foi um dos maiores líderes políticos que este continente já viu. Porém, isso não é, necessariamente, uma coisa boa no que eu considero como um ideal político. Nesses 14 anos em que esteve no comando da Venezuela, Chávez não só se colocou no direito de atropelar a constituição local para se reeleger quantas vezes quisesse, como tomou o quase absoluto poder de todos os setores da sociedade e da economia venezuelana. Tomou atitudes extremas como fechar (ou, como gostam de dizer os esquerdistas, “apenas não renovou a concessão”) o maior canal de TV do país, a RCTV que, quatro anos antes, em 2002, havia se colocado à favor de um golpe ao já Presidente Chávez.

Não se pode dizer que ele foi um ditador, já que, em todos os mandatos, foi eleito pelo povo (aliás, com uma participação impressionante do povo da Venezuela, onde o voto não é obrigatório). Porém, como se viu no parágrafo anterior, seu governo esteve longe de ser democrata. Porque democracia não é apenas votar. É votar, protestar, exigir seus direitos, expôr suas ideias e, no caso de você ser um canal de TV, poder fazer tudo isso sem correr o risco de ser arrancado do ar.

Por tudo isso, o Governo Chávez foi uma desgraça do ponto de vista social. Embora eu pouco saiba sobre o assunto, é do conhecimento de todos os problemas econômicos e sociais do país, justamente a maior muleta da maioria dos governos esquerdistas.

Como todo bom governo, hã, “não lá muito democrata” da América Latina, Chávez tinha como grande “ideal” o combate ao tal do “imperialismo americano”. É um modo quase adolescente de fazer política. Sabe aquele negócio de “os EUA são os vilões que querem impôr sua cultura ao Mundo! Vamos endurecer, pero sin perder la ternura jamás!”? Nada contra, cada um tem o direito de pensar como quiser, mas fazer isso com todo um país é muito perigoso. E, ainda por cima, na Venezuela, isso é feito de maneira totalmente alienada. Porque eu não consigo encontrar outra palavra para um Governo que culpa os Estados Unidos pelo câncer de seu Presidente, como disse hoje, poucas horas antes da morte de Chávez, o vice-presidente Nicolas Maduro. Daqui a pouco a Beth Carvalho vem e fala que a CIA quer acabar com o samba, como declarou uns dois anos atrás.

Aí, você pode vir me dizer que Chávez é bastante querido na Venezuela e eu, de fato, não tenho como discordar. Até porque ninguém se elege tantas vezes sendo odiado por todo um país. Porém, essa aprovação toda não significa que ele fez um governo bom para os venezuelanos. É que eles simplesmente não tem outra visão política. Há 14 anos, eles só conhecem esse jeito de se levar o país e, se falta carne no supermercado, as TVs mostram um inflamado discurso que prega o já citado “combate ao imperialismo americano”, pregando ideais bolivarianos. É algo tão bonito, tão legal, que o cidadão até esquece de comer a carne.

E não para por aí. Quem acompanha futebol pode notar que grande parte dos times venezuelanos que disputam a Libertadores são patrocinados pela estatal petroleira PDVSA. É só mais um modo de associar tudo ao Governo que, no caso, “apóia e sustenta o esporte nacional”.

Além do mais, há aquela velha questão: quanto mais fechado o país é, mais difícil fica para se ter informações precisas sobre a vida local. Muitos entusiastas do regime venezuelano sequer passaram perto do país (assim como eu, contrário a tudo isso, também nunca estive lá). Ainda assim, tem todo o direito de se posicionar desta maneira. Mas, pense comigo: em um regime fechado como esse, qual tipo de opinião será exposta para o mundo afora? A que critica o Governo? Claro que não. O controle à informação filtra tudo o que se pensa sobre o cotidiano local (inclusive, quem convive com alguns venezuelanos afirma que eles não são lá muito simpáticos à Chávez e seu governo).

Nas últimas eleições, por exemplo, Hugo conquistou quase 55% dos votos, vencendo por uma margem de votos não tão expressiva, pouco mais de 10% de vantagem para Henrique Caprilles. Sinal do desgaste de sua administração, talvez.

No início deste texto, disse que a morte de Hugo Chávez pode ser também a morte do chavismo. Nos próximos dias, meses e talvez anos, a República Bolivariana da Venezuela será palco de uma intensa batalha política, que será do interesse de todo o planeta. A direita do país terá trabalho para conseguir superar a figura de mártir que, provavelmente, será criada em cima do agora finado Presidente. Já a esquerda, deverá conter os ânimos daqueles que, agora, sentem que chegou o momento de uma nova revolução.

O que eu acho que vai acontecer? Honestamente, não faço a menor ideia. Não conheço a política interna local e, creio eu, mesmo quem conhece não consegue afirmar muita coisa com certeza.

Fica a torcida, no entanto, para que o povo venezuelano, que é quem realmente importa, saia ganhando, independente do que aconteça a partir de agora.