Maduro não vai cair sozinho

Dificilmente vai ser por vias legais e eleitorais que o regime ditatorial de Maduro vai cair. Não sou a favor do uso da força nem de revoluções, mas não vejo outro caminho

O Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela declarou Nicolas Maduro reeleito para mais um mandato no país. Maduro está no poder desde 2013, após a morte de Hugo Chavez. Ele teria vencido seu opositor por 51% a 44% dos votos. Mas a sua vitória é muito questionada pela oposição e outros países. A Venezuela vive num regime de exceção há anos. Maduro controla as instituições venezuelanas, inclusive o órgão eleitoral, e faz o que bem entender no país para seus interesses.

O resultado desta eleição está muito viciado por medidas tomadas antes e durante a eleição pelo governo, como restringir o acesso ao voto de venezuelanos que moram fora, fechamento das fronteiras para exilados não voltarem e poder votar, além de desconvidar observadores internacionais da União Europeia e proibir a entrada de ex-presidentes de outros países para acompanhar a eleição. A principal líder de oposição Maria Corina Machado foi impedida de participar da eleição. A sua substituta também não pôde se inscrever numa manobra até hoje sem explicação. A oposição foi para disputa com o diplomata Edmundo González, desconhecido de boa parte da população.

Maduro falou na campanha que, se não ganhasse, haveria uma banho de sangue e guerra civil fratricida na Venezuela. Até o presidente Lula o criticou suavemente e levou em resposta que tomasse chá de camomila. Respondendo sobre suspeita de fraude na eleição Maduro disse que o sistema eleitoral venezuelano é um dos mais seguros e criticou os de Brasil, Colômbia e EUA que não seriam auditados, o que levou o TSE brasileiro a desistir de enviar técnicos para acompanhar a eleição e soltar nota dura como resposta.

A questão é como é possível confiar no resultado anunciado pelo conselho eleitoral venezuelano. A oposição acusou que as atas das urnas não estavam sendo entregue como manda a lei. A Venezuela vive sob um regime autoritário e violento. Não tem como confiar no resultado divulgado pelo conselho eleitoral chavista.

Como fica o Brasil? O governo Lula vai chancelar uma eleição viciada que não foi justa nem livre e que se tem dúvida sobre o seu resultado? Muitos países, de governos de direita e esquerda, não reconheceram o resultado da eleição na Venezuela. Apenas países alinhados ao regime reconheceram o resultado, a maioria autocratas. Será um grande vexame histórico da nossa diplomacia reconhecer o resultado por questões ideológicas, mas com Celso Amorim como conselheiro do Lula para política externa não se duvida.

Dificilmente vai ser por vias legais e eleitorais que o regime ditatorial de Maduro vai cair. Não sou a favor do uso da força nem de revoluções, mas não vejo outro caminho para a Venezuela. Não vejo Maduro desistindo do poder e das benesses, até para não responder por seus crimes. A questão é que a oposição não tem instrumentos para uma tomada de poder pelas armas sem apoio internacional. Os EUA e outros países aceitariam intervir na Venezuela?

Pobres venezuelanos que continuarão a viver sobre um regime autocrático e provavelmente o êxodo de pessoas fugindo de condições degradantes resultado de políticas errôneas vai continuar e até aumentar atingindo principalmente países vizinhos como o Brasil.

Para derrubar Maduro e o chavismo, Brasil não pode entrar em guerra

Itamaraty foge da tradição de Rio Branco ao incentivar a queda forçada de Maduro por Trump

A tentativa desastrada e frustada de derrubar o ditador Nicolas Maduro nesta terça-feira só ajuda o ditador a ganhar fôlego. É claro que desejo a queda do ditador Nicolas Maduro o quanto antes e o povo venezuelano seja livre dessa ditadura que arruinou um país próspero. Mas é com eles lá. Os venezuelanos são soberanos para tomar seus rumos. Intervenção estrangeira é agressão contra sua soberania. E o Brasil não deve entrar nessa briga que tem EUA e Rússia (China apoiando russos) por trás, só tem a perder sendo joguete no projeto do presidente Donald Trump para a eleição americana de 2020.

Itamaraty foge da tradição de Rio Branco ao incentivar a queda forçada de Maduro por Trump e seu fantoche Juan Guaidó. Jair Bolsonaro apenas serve de “peça” no xadrez do presidente americano e parece não se incomodar com esse papel deprimente de “cachorrinho trumpista” que não corresponde com o cargo constitucional que ocupa legitimado pelo povo brasileiro.

Por sorte, os militares brasileiros “tutelaram” o Chanceler Ernesto Araújo, que não passa de “um testa de ferro” do Eduardo Bolsonaro e por sua vez reza uma cartilha ideológica perigosa para a política externa. Ainda bem que, ao menos na política externa, o presidente Jair Bolsonaro é aconselhado pelo General Augusto Heleno e não por Olavo de Carvalho, mesmo que lá no fundo esteja louco para embarcar nessa aventura que seria o Vietnã sul-americano.

Carlos Bolsonaro nem disfarça mais ao usar a rede social do pai para mandar recados a seus desafetos no próprio governo. Tuitou que o presidente decidiria “exclusivamente” qualquer hipótese sobre a Venezuela, deixando no ar que uma intervenção com ajuda do Brasil não está descartada e contrariar Heleno e o vice-presidente Mourão, que foram taxativos ao descartar uma intervenção militar estrangeira.

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Rodrigo Maia precisou vir a público e em duas mensagens alertou o presidente que não basta só ouvir o Conselho de Defesa para declarar guerra a um outro país. Quem tem a última palavra, ou seja, quem decide é o Congresso Nacional. Maia deu uma aula constitucional ao Carlos Bolsonaro. Obviamente, conhecendo a figura, não deve levar como ensinamento e deve voltar a mirar os canhões digitais para o presidente da Câmara dos Deputados deflagrando mais uma crise entre Planalto e Legislativo.

Alguém precisa parar os filhos do presidente – especificamente Eduardo e Carlos – antes que joguem o Brasil em uma guerra que não lhe pertence, desnecessária e inoportuna. Apesar de envolver a vizinha Venezuela, uma guerra naquele país seria catastrófico para o continente.

Ditadura Maduro é genocida; Brasil corre risco com os alinhados a ela daqui

A questão na Venezuela há muito deixou de ser política e ideológica. O Governo de Nicolas Maduro é uma ditadura com tudo o que uma ditadura tem de pior (esquerda ou direita). Maduro consegue ser pior que Hugo Chávez, seu padrinho político e mentor. Chávez ao menos tinha habilidade política.

O que aconteceu no último dia de 2017, na Venezuela, extrapola tudo que já aconteceu até aqui. Uma grávida vai tentar receber um pernil do Estado, porque falta até comida na Revolução Bolivariana, resultado de uma política na economia que jogou a pujante Venezuela em uma crise humanitária gravíssima, ela não consegue e se junta com manifestantes, um soldado da milícia armada de Maduro atira matando a mulher. A ditadura Maduro é genocida do seu próprio povo.

Mas o pior é uma parte da esquerda brasileira ainda sair em defesa ou a omissão de outra parte se preocupando com a desigualdade nos EUA.

Muitos riram dos alertas de que o Brasil corria risco de virar uma Venezuela gigante. Só não virou porque o PT não conseguiu – chegou a sondar o Exército para evitar o afastamento de Dilma Rouseff – domar as Forças Armadas assim como o chavismo fez com os militares do país vizinho.

Porém, o Brasil ainda corre o risco dessa ameaça por ter essa gente que passa a mão na ditadura Maduro chegar ao poder na eleição. A retomada do PT ao poder não será de pactos com o capital financeiro, as elites e menos ainda de reconciliação. E, caso Lula consiga escapar dos processos, ser candidato e eleito, vai querer retaliar a quem ele julga perseguidores dele.

O Brasil corre risco de um verdadeiro retrocesso se a esquerda revolucionário retomar o poder. Se a esquerda alinhada com a ditadura assassina de Caracas triunfar.

Dilma e a Venezuela

Dilma mancha a sua biografia

dilma-rousseff-nicolas-maduroDilma Rousseff saiu em defesa explícita do governo autoritário de Nicolas Maduro na semana passada em Bruxelas. Disse a mandatária brasileira: “Rechaçamos a adoção de quaisquer tipos de sanções contra a Venezuela”. Disse mais: “Nós, países latino-americanos e caribenhos, não admitimos medidas unilaterais, golpistas e políticas de isolamento”.

Dias depois, o governo venezuelano proíbe um avião da FAB – Força Aérea Brasileira – de entrar em território venezuelano com senadores de oposição. Senadores Aécio Neves (PSDB/MG), Aloysio Nunes (PSDB/SP) e Ronaldo Caiado (DEM/GO) tentam visitar os presos políticos Leopoldo Lópes, que está em greve de fome há 22 dias, e o prefeito da área metropolitana de Caracas, Antonio Ledezma.

Quando o Senado paraguaio acionou um dispositivo legal da sua Constituição e afastou por 39 votos a 4 o presidente Fernando Lugo, o governo brasileiro fez um barulho imenso. Só que a imprensa paraguaia trabalhava livremente nem havia tropas nas ruas reprimindo manifestantes. O governo conseguiu até afastar o Paraguai do Mercosul na mesma época que foi aprovada a entrada da Venezuela no bloco.

O silêncio ensurdecedor do governo brasileiro diante do caos que se passa na Venezuela mancha uma tradição brasileira, a tradição de um país que tem na Constituição o respeito à liberdade de expressão e os direitos humanos. Pior, ao falar na Bélgica sobre a Venezuela, Dilma deixou o silêncio e passou a defender o indefensável.

A presidente Dilma mancha a sua biografia. De militante que pegou em armas para combater uma ditadura agora defende uma ditadura por ideologia. O problema é que ela não é representante só de um partido, ela é a presidente da República e representa todo o país. Não pode rasgar a Constituição por ideologia. E não pode ficar em silêncio depois dessa agressão ao Brasil por parte do governo venezuelano.

Dilma afaga Maduro e ele, como retribuição, não deixa brasileiros entrar em solo venezuelano. Se Dilma não quer falar nada é a consciência dela, mas o governo tem que tomar uma atitude firme em resposta a essa agressão, mesmo contra parlamentares da oposição ao seu governo. Não precisa lembrar que a presidente tem que governar para todos. É o nome e a liderança do Brasil no continente que está em jogo.

Atualização

A presidente Dilma chamou de ‘viés político‘ a viagem de senadores brasileiros à Venezuela. É claro que é ‘viés político’. E isso não é pejorativo. O que acontece na Venezuela é referente à política, sim. O que acontece na Venezuela é um governo que está sufocando a democracia e os direitos humanos. E a Venezuela faz parte do Mercosul. Tudo que acontece lá é de interesse do Brasil.

Os senadores brasileiros que foram em comitiva para lá foram em visita a um país membro do Mercosul para tentar encontrar uma solução. Foram em uma missão diplomática a convite das esposas de dois presos políticos. Inclusive, um está em greve de fome há mais de 20 dias.

Democracia acima da ideologia

A democracia tem que estar acima da ideologia

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Presidente Barack Obama assinou um decreto que permite que ele aplique sanções a cidadãos venezuelanos; sete já foram sancionados. É assim que um presidente comprometido com a democracia e os direitos humanos faz quando um país infringe direitos humanos básicos e golpeia a democracia autorizando arma de fogo pela polícia em manifestações contra o governo. Quando os governos prendem oposicionistas alegando uma suposta conspiração para um Golpe de Estado sem nenhum sentido lógico e sem provas concretas, como faz o governo da Venezuela, de Nicolás Maduro.

A Venezuela vive um caos completo. Um colapso na economia, na política e nas instituições. Nos supermercados faltam produtos dos mais básicos aos produtos supérfluos. Há um silêncio constrangedor sobre o que acontece na Venezuela por parte do governo brasileiro. O governo chega a ser complacente com o governo venezuelano por um projeto megalomaníaco de um Mercosul insustentável criado pelo ex-presidente Lula, que empurrou goela abaixo a adesão da Venezuela ao bloco. Um exemplo disso é a nota absurda divulgada pelo Itamaraty quando um garoto venezuelano de 14 anos foi morto apenas e tão somente porque cometeu o horrível e hediondo “crime” de manifestar-se contra o governo Maduro. Essa nota é a síntese do relacionamento do governo brasileiro com o venezuelano.

Não adianta argumentar que o governo venezuelano prender oposicionista, mandar bater e até atirar em manifestantes vai contra a democracia nem citar a crise econômica que se agrava a cada ano na Venezuela, como a inflação em torno de 70%. Para uma parte da esquerda brasileira, o que acontece no país vizinho é uma conspiração dos EUA com a oposição, empresários e a elite venezuelana, uma vingança contra o chavismo. E, assim, conseguir derrubar o governo bolivariano que tirou a Venezuela dessa mesma elite e deu para o povo. Em resumo, um golpe. Não é golpe. É muita neurose.

Quando disputava o governo pela primeira vez em 1998, Hugo Chávez deu uma entrevista e disse que, caso eleito, entregaria o governo após os cinco anos de mandato e não pretendia estatizar nenhuma empresa. Pelo contrário, queria incentivar o capital privado para o desenvolvimento da Venezuela. Também disse que não pretendia censurar a imprensa. O que se viu depois foi emissoras de TV e rádio perdendo suas concessões apenas por discordar das políticas aplicadas pelo governo chavista. Nessa mesma entrevista, Chávez chegou até a dizer que “Cuba é uma ditadura”.

A ascensão de Hugo Chávez se deve pela omissão e descaso dos governantes que o antecederam para com os mais pobres da população venezuelana. Com Chávez, a população abandonada se sentiu gente, representada e o ajudou a recuperar o poder depois da tentativa de um Golpe de Estado em 2002, o elegendo mais duas vezes posteriormente. Não esquecendo que o Hugo Chávez foi vítima, mas também cúmplice de uma tentativa de golpe.

Chávez usou e abusou da abundância de petróleo na Venezuela. Com a queda do preço do petróleo, a fonte secou. O chavismo já tinha cara de ditadura após a tentativa de golpe contra Chávez em 2002. Após a morte de Chávez em 2013 e a vitória em um país dividido do vice-presidente Nicolás Maduro, os ataques à democracia e aos direitos humanos foi questão de tempo. A rejeição do presidente Maduro está em níveis altíssimos. Para a sorte dos venezuelanos, ele deve perder a próxima eleição presidencial. Chega de falsa revolta, de condescendência ou conveniência por pura ideologia. A democracia tem que estar acima da ideologia. E o chavismo está chegando ao seu fim, se é que já não chegou.

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