
Leonardo Dahi
Morreu no fim da tarde de terça-feira (5), o Presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Ele, que já estava internado em Cuba há algum tempo (não pôde, inclusive, assumir o novo mandato, que conquistou nas Eleições de outubro de 2012), não resistiu a um câncer e, nos últimos dias, já estava “mais-pra-lá-do-que-pra-cá”.
Por isso, dada a gravidade da doença, todos tratavam Hugo Chávez como um “morto-vivo”, cuja morte seria apenas questão de tempo. E, como era de se esperar, se acalorou, em especial nas redes sociais, um debate sobre seu legado político e sobre sua emblemática figura.
De um lado, os admiradores de seu governo. Do outro, seus detratores. Alguns, inclusive, torciam – e agora comemoram – pelo fim do líder venezuelano, algo que é absolutamente lamentável. Porém, nada nos impede de comemorar um possível fim do chavismo. Repetindo: possível. Pode ou não acontecer, mas sobre isso nós falamos depois.
Por agora, quero focar mais nos anos de governo de Chávez.
Não dá para negar que ele foi um dos maiores líderes políticos que este continente já viu. Porém, isso não é, necessariamente, uma coisa boa no que eu considero como um ideal político. Nesses 14 anos em que esteve no comando da Venezuela, Chávez não só se colocou no direito de atropelar a constituição local para se reeleger quantas vezes quisesse, como tomou o quase absoluto poder de todos os setores da sociedade e da economia venezuelana. Tomou atitudes extremas como fechar (ou, como gostam de dizer os esquerdistas, “apenas não renovou a concessão”) o maior canal de TV do país, a RCTV que, quatro anos antes, em 2002, havia se colocado a favor de um golpe ao já Presidente Chávez.
Não se pode dizer que ele foi um ditador, já que, em todos os mandatos, foi eleito pelo povo (aliás, com uma participação impressionante do povo da Venezuela, onde o voto não é obrigatório). Porém, como se viu no parágrafo anterior, seu governo esteve longe de ser democrata. Porque democracia não é apenas votar. É votar, protestar, exigir seus direitos, expôr suas ideias e, no caso de você ser um canal de TV, poder fazer tudo isso sem correr o risco de ser arrancado do ar.
Por tudo isso, o Governo Chávez foi uma desgraça do ponto de vista social. Embora eu pouco saiba sobre o assunto, é do conhecimento de todos os problemas econômicos e sociais do país, justamente a maior muleta da maioria dos governos esquerdistas.
Como todo bom governo, hã, “não lá muito democrata” da América Latina, Chávez tinha como grande “ideal” o combate ao tal do “imperialismo americano”. É um modo quase adolescente de fazer política. Sabe aquele negócio de “os EUA são os vilões que querem impôr sua cultura ao Mundo! Vamos endurecer, pero sin perder la ternura jamás!”? Nada contra, cada um tem o direito de pensar como quiser, mas fazer isso com todo um país é muito perigoso. E, ainda por cima, na Venezuela, isso é feito de maneira totalmente alienada. Porque eu não consigo encontrar outra palavra para um Governo que culpa os Estados Unidos pelo câncer de seu Presidente, como disse hoje, poucas horas antes da morte de Chávez, o vice-presidente Nicolas Maduro. Daqui a pouco a Beth Carvalho vem e fala que a CIA quer acabar com o samba, como declarou uns dois anos atrás.
Aí, você pode vir me dizer que Chávez é bastante querido na Venezuela e eu, de fato, não tenho como discordar. Até porque ninguém se elege tantas vezes sendo odiado por todo um país. Porém, essa aprovação toda não significa que ele fez um governo bom para os venezuelanos. É que eles simplesmente não tem outra visão política. Há 14 anos, eles só conhecem esse jeito de se levar o país e, se falta carne no supermercado, as TVs mostram um inflamado discurso que prega o já citado “combate ao imperialismo americano”, pregando ideais bolivarianos. É algo tão bonito, tão legal, que o cidadão até esquece de comer a carne. E não para por aí.
Quem acompanha futebol pode notar que grande parte dos times venezuelanos que disputam a Libertadores são patrocinados pela estatal petroleira PDVSA. É só mais um modo de associar tudo ao Governo que, no caso, “apóia e sustenta o esporte nacional”.
Além do mais, há aquela velha questão: quanto mais fechado o país é, mais difícil fica para se ter informações precisas sobre a vida local. Muitos entusiastas do regime venezuelano sequer passaram perto do país (assim como eu, contrário a tudo isso, também nunca estive lá). Ainda assim, tem todo o direito de se posicionar desta maneira. Mas, pense comigo: em um regime fechado como esse, qual tipo de opinião será exposta para o mundo afora? A que critica o Governo? Claro que não. O controle à informação filtra tudo o que se pensa sobre o cotidiano local (inclusive, quem convive com alguns venezuelanos afirma que eles não são lá muito simpáticos a Chávez e seu governo).
Nas últimas eleições, por exemplo, Hugo conquistou quase 55% dos votos, vencendo por uma margem de votos não tão expressiva, pouco mais de 10% de vantagem para Henrique Capriles. Sinal do desgaste de sua administração, talvez.
No início deste texto, disse que a morte de Hugo Chávez pode ser também a morte do chavismo. Nos próximos dias, meses e talvez anos, a República Bolivariana da Venezuela será palco de uma intensa batalha política, que será do interesse de todo o planeta. A direita do país terá trabalho para conseguir superar a figura de mártir que, provavelmente, será criada em cima do agora finado Presidente. Já a esquerda, deverá conter os ânimos daqueles que, agora, sentem que chegou o momento de uma nova revolução.
O que eu acho que vai acontecer? Honestamente, não faço a menor ideia. Não conheço a política interna local e, creio eu, mesmo quem conhece não consegue afirmar muita coisa com certeza. Fica a torcida, no entanto, para que o povo venezuelano, que é quem realmente importa, saia ganhando, independente do que aconteça a partir de agora.