Polarização do vírus

Pedir ponderação em uma sociedade cada vez mais polarizada e raivosa é utopia

O Brasil ultrapassou a marca de 100 mil mortes por Covid-19 provocada pelo Sars-cov 2 – novo vírus da família coronavírus. É uma marca simbólica negativamente e devastadora. Chegamos a ela por muitos erros construídos a muitas mãos no enfrentamento da pandemia, incluso governantes e cidadãos.

Lamento profundamente as mais de 100 mil mortes para essa doença e lamento que elas sejam usadas como arma política para desgastar o governo e, principalmente, o presidente.

Sim, Jair Bolsonaro errou muito ao tratar como “gripezinha”, deixando tudo para governadores e prefeitos. Aproveitou a decisão do STF para reforçar que a responsabilidade é deles se eximindo de culpa pelas mortes e pela crise econômica como consequência de medidas para conter o vírus. A decisão do STF não eximiu o governo federal de sua responsabilidade concorrente com estados e municípios na saúde pública. Impediu que o presidente impedisse que governadores e prefeitos tomassem medidas para evitar que esse número de mortes fosse maior e o sistema de saúde entrasse em colapso total.

Mas algumas autoridades locais erraram na mão também. Delegando poder demais para a ciência, os profetas do apocalipse que “previram” mais de um milhão de mortes caso as pessoas não se trancassem em casa e os governos não fechassem a economia, como se o país fosse um só e não diferentes regiões com suas particularidades. Já outros se aproveitam para se cacifar politicamente de olho nas próximas eleições tentando ser o contraponto ao presidente. E teve outros ainda mais repugnantes que viram na situação de emergência a oportunidade para roubar.

Não é entrar na dicotomia saúde versus economia. Um líder não pode transferir o seu poder ganho legitimamente no voto para médicos, epidemiologistas, infectologistas ou economistas. É preciso equilibrar e faltou equilíbrio tanto na esfera federal quanto nos entes federados. Entre “gripezinha” e “genocídio” existe um meio cinzento. Mas pedir ponderação em uma sociedade cada vez mais polarizada e raivosa é utopia.

O Brasil sobreviverá a Bolsonaro?

O presidente Jair Bolsonaro fez o terceiro pronunciamento em rede nacional de TV e rádio no mês de março. A expectativa era que anunciasse as medidas que o governo vem soltando para minimizar o estrago na economia brasileira das ações para combater a pandemia que assola o mundo. Mas o real objetivo era criar novo atrito institucional e foi assim na maioria dos 5 minutos de pronunciamento.

O presidente reforçou o embate com governadores (especialmente os do RJ e SP, Wilson Witzel e João Doria), culpou a imprensa pelo que julga ser histeria de uma gripezinha, espalhou desinformação iludindo incautos que uma suposta cura para o vírus da Covid-19 estaria perto e o tom de deboche incompatível com o momento e o cargo mais alto da República.

Com o pronunciamento desta terça, não resta mais dúvida que o atual presidente vive pela sua reeleição desde o primeiro dia de governo e não ponderará nada para alcançar seus objetivos. O texto e o tom do pronunciamento mostrou a face perversa do mandatário da nação, comemorando a provável baixa letalidade ao fim da pandemia, tirando sarro de uma doença que já matou milhares pelo mundo e quase 50 brasileiros, que ninguém sabe uma data para terminar e levou o cancelamento da Olimpíada de Tóquio, adiada para 2021 (fato que aconteceu apenas três vezes e todas por guerras mundiais).

Jair Bolsonaro é uma pessoa inculta, um presidente que não governa para todos e já comprovadamente despreparado, sem empatia com o próximo. Como colocado no texto anterior, o impeachment não é crível. Mas o país sobreviverá mais dois anos e nove meses?